O poeta Jorge Luiz Borges lidou profundamente com a cegueira e o labirinto do tempo, retratando a angústia de tatear o próprio passado e encontrá-lo esvaziado. E assim ele escreveu um dia:
“O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou esse rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou esse tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou esse fogo. O mundo, ai de mim, é real; eu, ai de mim, sou o Borges.”
Há uma precisão cirúrgica na rotina que profissionais da área da saúde usualmente prescrevem aos pacientes com demência senil. Abrem-se as cortinas às sete da manhã para que a luz azul do dia inunde a retina, bloqueie a melatonina e imprima ao cérebro (fragmentado) a certeza de que o ciclo recomeçou.
As refeições têm hora marcada – eis que os ponteiros do relógio são fidelíssimos aliados – e o ambiente externo é controlado a fim de mimetizar a ordem que o córtex já não mais consegue sustentar sozinho.
A ciência tenta, com rigor e método, impor um ritmo artificial a um “mecanismo biológico” que perdeu o seu maestro – o núcleo supraquiasmático do hipotálamo, desgastado pelos anos e pelas tão temidas – e não menos voluntariosas – placas neurofibrilares.
No entanto, por mais rigoroso que seja o protocolo, há um momento em que a ciência recua, impotente diante de um fenômeno tão previsível quanto doloroso: o crepúsculo de todo dia.
A Sombra que Entra pela Sala
Conhecido como sundowning (a síndrome do pôr do sol), o final da tarde transforma-se, na vida de quem sofre com demência, em um território de fronteira e angústia. À medida que o sol declina e a paleta do céu se tinge de laranjas profundos, violetas e acinzentados, o comportamento se altera. A confusão mental se aprofunda, a agitação cresce, a agressividade aflora, a desorientação espacial atinge o ápice dos ápices e surge a urgência inexorável de “ir para casa” – mesmo quando já se está em casa.
Para a neurociência, a explicação é multifacetada. A transição da luz para a penumbra confunde o sistema circadiano já deficitário, reduzindo drasticamente os níveis de serotonina e melatonina de forma abrupta. Além disso, a fadiga acumulada ao longo do dia esgota a pouca reserva cognitiva restante, fazendo com que o cérebro, sobrecarregado pela penumbra visual, interprete sombras comuns como ameaças e perca totalmente a capacidade de filtrar estímulos.
Todavia, reduzir o sundowning a uma mera falha nos neurotransmissores é ignorar a espessura humana do fenômeno.
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A Metáfora do Ocaso
É impossível observar o crepúsculo ao lado de alguém cuja mente se desfaz sem notar a profunda e dolorosa simetria poética. O final da tarde é, por excelência, a metáfora do final da vida.
Assim como a luz do dia se esvai, diluindo os contornos dos móveis, das paredes e dos rostos, a própria existência do paciente parece recolher-se para as sombras. As memórias mais recentes evaporam primeiro, tal como o calor do meio-dia; restam apenas os recantos mais antigos da infância e da juventude, iluminados pela luz crepuscular que já não reconhece o presente.
Nesse horário, o mundo exterior silencia, mas o mundo interior — outrora habitado por certezas, profissões, ideias, amores e autonomia – parece desabar sob o peso de uma noite antecipada. A urgência de “ir para casa” não passa, muitas vezes, de um lamento inconsciente pelo retorno a um tempo em que a mente ainda era morada segura, antes que a doença viesse apagar as luzes da varanda e do alpendre.
Entre a Ciência e o Acolhimento
A gestão do crepúsculo exige, portanto, uma dupla sabedoria. A ciência nos dá as ferramentas práticas: aumentar a iluminação da casa antes mesmo que o sol recolha-se por inteiro, criando um “crepúsculo artificial” que literalmente engana o cérebro suavizando a transição; manter o ambiente calmo, oferecer música suave e evitar confrontos lógicos com a realidade que o paciente já não mais habita.
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Só que o lirismo nos ensina a essência da empatia. Compreender o sundowning não apenas como um sintoma desafiador, mas como o espelho emocional de um ocaso inevitável, transforma todo o processo do cuidado. Exige de quem fica ao lado a coragem de segurar aquelas mãos já trêmulas, de acolher o choro sem causa aparente e de ser, metaforicamente, a lanterna obstinada que permanece acesa quando as noites antecipam-se mais cedo sobre a alma humana.
(Artigo assinado por André Rodrigues Costa Oliveira, escrito em julho de 2026).








