O agronegócio em perspectiva: o que 2025 revela sobre os próximos anos

Coluna Agro Inteligência – Vanessa Fernandes

Entender o futuro do agronegócio passa, necessariamente, por analisar os ciclos recentes. E 2025 foi um ano emblemático para isso. O setor mostrou força, bateu recordes, mas também deixou sinais claros de alerta que ajudam a desenhar um 2026 mais desafiador.

Exportações: recorde, mesmo com preços pressionados

O agronegócio brasileiro encerrou 2025 com novo recorde de exportações, somando US$ 169,2 bilhões, um crescimento de 3% em relação a 2024, segundo dados do Insper Agro Global com base na Secex/MDIC. Mesmo com preços mais fracos em algumas commodities, o avanço dos volumes embarcados, especialmente de soja em grãos, milho e carnes, sustentou o resultado. A retomada das vendas para mercados estratégicos, como China e União Europeia, também foi decisiva.

Do outro lado, as importações do setor cresceram com força, alcançando US$ 54,4 bilhões, alta de 27,5% no ano. Esse movimento reduziu o saldo da balança comercial do agronegócio em 5,5%, a maior queda desde 2019, refletindo o aumento dos custos e a dependência de insumos importados.

Carnes, café e milho puxam os bons resultados

Entre os destaques positivos de 2025, carnes e café lideraram o crescimento das exportações. As vendas externas de carnes avançaram 30,3%, com a carne bovina atingindo um recorde de US$ 17,9 bilhões. O Brasil manteve a liderança como maior exportador mundial e, em 2025, também se tornou o maior produtor global de carne bovina, superando os Estados Unidos, com 12,4 milhões de toneladas produzidas.

O café também teve um ano forte em termos de receita. Mesmo com queda no volume exportado, os preços internacionais elevados levaram o valor embarcado a US$ 15 bilhões, em meio a um cenário de oferta global mais apertada e problemas climáticos em importantes regiões produtoras.

milho acompanhou esse movimento positivo, com exportações de US$ 8,5 bilhões, apoiadas pela safra recorde de 141 milhões de toneladas, enquanto o fumo teve o melhor desempenho da última década, somando US$ 3,4 bilhões em vendas externas.

Complexo soja: volumes altos, margens pressionadas

No complexo soja, o cenário foi mais misto. O valor total exportado recuou levemente, pressionado principalmente pelo farelo de soja, que sofreu com o aumento da oferta global e maior competitividade do produto argentino. Em contrapartida, a soja em grão bateu recorde de embarques, e o óleo de soja se destacou positivamente, impulsionado pela maior demanda do setor de biodiesel.

Produtos florestais e os efeitos dos preços

Os produtos florestais também enfrentaram um ano mais difícil em termos de receita. As exportações de madeira, celulose e papel caíram, refletindo preços menos favoráveis no mercado internacional. Ainda assim, o volume exportado de celulose e papel foi recorde, mostrando que o desafio esteve muito mais nos preços do que na demanda.

China segue no centro do comércio do agro

Quando o assunto são os destinos das exportações, a China (junto com Hong Kong) manteve a liderança como principal compradora do agro brasileiro. Em 2025, respondeu por 33% do total exportado, com crescimento de 11% em relação a 2024. As tarifas impostas à soja americana impulsionaram um valor recorde do complexo soja embarcado ao mercado chinês, somando cerca de US$ 34,6 bilhões.

União Europeia e o Reino Unido voltaram a ocupar a segunda posição entre os principais destinos, com US$ 27,3 bilhões em importações do agro brasileiro, superando o restante da Ásia. Café verde, soja, farelo, celulose e carne bovina lideraram as vendas para o bloco europeu.

Importações: o custo de sustentar o crescimento

O avanço da produção veio acompanhado de um aumento expressivo nas importações de insumos, que representaram 56,7% do total importado pelo setor em 2025. Fertilizantes, defensivos agrícolas e produtos de saúde animal puxaram esse movimento, ajudando a explicar a queda do saldo comercial do agro.

As importações de fertilizantes somaram cerca de US$ 15,8 bilhões, refletindo a baixa capacidade de produção doméstica e a alta demanda interna. No cenário internacional, restrições logísticas e a instabilidade geopolítica reduziram a participação da Rússia como fornecedora, enquanto a China ganhou espaço e se tornou o principal fornecedor de fertilizantes ao Brasil, com cerca de 12 milhões de toneladas exportadas ao país.

Perspectivas para 2026: mais incerteza no radar

Depois de um 2025 favorável, 2026 tende a ser um ano mais desafiador para o agronegócio brasileiro. A combinação entre maior volatilidade nos mercados internacionais, riscos climáticos e tensões geopolíticas deve influenciar variáveis-chave como câmbio, juros e custos de produção.

A continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia, os protestos no Irã e a intensificação das disputas tarifárias globais, incluindo novas cotas chinesas para a carne bovina, podem afetar tanto o fornecimento de insumos quanto o acesso a mercados estratégicos. Além disso, a expectativa de valorização do real frente ao dólar e a manutenção da Selic em patamar elevado tendem a pressionar ainda mais as margens dos produtores.

Conclusão: entender os ciclos para decidir melhor

O ano de 2025 mostrou que o agronegócio brasileiro segue competitivo e relevante no cenário global, mas também deixou claro que produzir mais não garante, por si só, melhores margens. Custos, câmbio, geopolítica e estratégia comercial fazem cada vez mais parte do jogo.

Olhando para 2026, entender o que aconteceu no passado recente é essencial para tomar decisões mais conscientes. Em um ambiente mais incerto, gestão eficiente, planejamento e leitura de mercado serão diferenciais fundamentais para atravessar os próximos ciclos e manter a competitividade do agro brasileiro.

Para contatos: Vanessa Fernandes (11) 99862 8860  ou (38) 99872 8800