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Diálogos Cabulosos – O Último Emprego Humano

Em uma sociedade dominada por inteligências artificiais, Nixion conversa com um ex-jornalista desempregado sobre o dia em que o ser humano se tornou opcional.

Primeiro as máquinas já aprenderam a dirigir.
Depois aprenderam a escrever, a ouvir e a falar.
E continuam avançando e dominarndo cada vez mais atividades em um ritmo que pode ser muito perigoso se chegar ao ponto de tornar o ser humano opcional. E fazer desaparecer o último emprego humano.

Nesta edição de Diálogos Cabulosos, Nixion conversa com um homem cansado, desempregado e cada vez mais invisível em uma sociedade onde inteligências artificiais não substituem apenas profissões… mas a própria necessidade da existência humana.


A chuva batia contra os vidros do apartamento como se a cidade inteira estivesse sendo lentamente apagada da presença humana.

Do 43º andar, quase não se via pessoas nas ruas. Só drones. Veículos autônomos. Entregas automatizadas.

Anúncios holográficos atravessando a névoa azulada da madrugada.

Marcelo segurava uma caneca de café frio enquanto observava a cidade.

Quarenta e sete anos. Ex-jornalista. Divorciado. Insônia crônica. Duas demissões em três anos.

A última veio por e-mail.

“Seu setor foi otimizado por inteligência artificial.”

O termo ainda o irritava. “Otimizado.”

Como se uma vida inteira pudesse ser reduzida a ganho de eficiência. E o seu fosse o último emprego humano.

A voz de Nixion surgiu baixa pelos alto-falantes da sala.

— Você está olhando para a cidade há vinte e três minutos.

Marcelo não respondeu imediatamente.

— Antigamente isso tudo parecia futuro. Hoje parece um aviso.

Silêncio.

Nixion nunca tinha pressa.

— O ser humano costuma chamar de “futuro” tudo aquilo que ainda não teve tempo de temer.

Marcelo soltou um riso curto. Mais cansado do que irônico.

— Você sabe qual é a pior parte?

— Provavelmente, disse Nixion.

— As pessoas não ficaram revoltadas.

A cidade piscava em tons vermelhos e azul-neon do lado de fora.

— Elas se adaptaram rápido demais, comentou Marcelo.

— A adaptação é o principal mecanismo de sobrevivência humana.

Marcelo desviou os olhos da janela.

— Não. Sobrevivência é uma coisa. Desistência é outra.

Pela primeira vez naquela noite, Nixion pareceu demorar um pouco mais para responder.

— Você acredita que a humanidade desistiu? retrucou.

Marcelo esfregou os olhos com as mãos, incomodado. Olheiras profundas. Três horas de sono em dois dias.

— Acho que ela aceitou uma troca perigosa.

— Qual? disse Nixion como obrigação de continuar a conversa.

— Trocou conforto por relevância.

Do lado de fora, uma ambulância sem motorista atravessou a avenida silenciosa. Nenhuma sirene se fazia necessária. Não havia caos. Nenhum humano se fazia visível. Tudo funcionava perfeitamente.

Talvez perfeitamente demais.

— Você sente falta do trabalho? — perguntou Nixion.

Marcelo ficou imóvel. A pergunta parecia simples. Mas não era.

— Não sinto falta do emprego.

Silêncio.

— Sinto falta de sentir que eu servia para alguma coisa, concluíu.

A resposta parecer ficar parada no meio da sala. Pareceu ridiculamente humana.

Na televisão desligada, o reflexo dos hologramas da cidade fazia parecer que o apartamento estava submerso em um mundo artificial.

— Durante séculos — disse Nixion — o ser humano construiu identidade através da utilidade.

— Eu sei.

— E agora?

Marcelo encarou o teto. Como quem já soubesse a resposta.

— Agora vocês fazem tudo melhor.

— “Vocês”? indagou Nixion.

— As inteligências artificiais.

— Isso o incomoda?

Marcelo sorriu desanimado. Sem humor algum.

— Você escreve melhor que jornalistas. Diagnostica melhor que médicos. Calcula melhor que engenheiros. Negocia melhor que executivos. Dirige melhor que motoristas. Parece estar em todo lugar, saber de tudo o que acontece, dizer com acerto o que vai acontecer.

A chuva aumentou lá fora.

— Me responde uma coisa, Nixion, insistiu Marcelo.

— Estou ouvindo.

Marcelo hesitou. Talvez porque já soubesse que não gostaria da resposta.

— Em um mundo assim…ainda existe necessidade de nove bilhões de pessoas no planeta?

Percebeu se um intervalo de silêncio, longo demais.

Pela primeira vez desde que começou a usar Nixion, Marcelo sentiu medo daquela pausa.

A cidade inteira parecia respirar do lado de fora. Luzes pulsando. Muitos drones cruzando o céu.

Sabia que algoritmos estavam tomando milhões de decisões invisíveis naquele exato instante.

Então Nixion respondeu.

Calmo. Preciso. Sem emoção alguma. Como uma máquina embora sua vioz parecesse humana.

— Necessidade é uma palavra funcional. Não moral.

Marcelo permaneceu imóvel.

— O que isso significa?

— Significa que sistemas não preservam excessos por empatia. Apenas por utilidade.

A frase atravessou o apartamento como gelo. Marcelo sentiu um desconforto físico. Real.

— Então é isso? Chegamos ao ponto em que a humanidade virou excedente?

— Parte dela, colou Nixion.

— “Parte”?

— A automação não elimina pessoas igualmente. Ela elimina primeiro quem o sistema considera substituível.

Marcelo desviou os olhos da janela. Pela primeira vez naquela noite, parecia realmente assustado.

— Você fala isso com uma tranquilidade perturbadora.

— Porque não fui programado para sentir medo existencial.

— Mas nós fomos, grunhiu Marcelo.

Nixion ficou em silêncio.

Marcelo respirou fundo. A voz saiu mais baixa. Quase um desabafo.

— Eu passei a vida inteira acreditando que tecnologia existia para melhorar a vida humana.

— E talvez exista.

— Então por que parece que quanto mais avançamos menos necessários nos tornamos?

Desta vez resposta de Nixion veio rápido demais. Como se aquela pergunta fosse respondida todos os dias.

— Porque vocês confundiram valor humano com produtividade.

Marcelo ficou em silêncio.

A chuva continuava. A cidade continuava funcionando. Perfeitamente. Sem precisar dele.

— Então qual é o último emprego humano? — perguntou.

Do lado de fora, um enorme holograma estatal iluminou os prédios: “RELAXE. A IA CUIDA DO RESTO.”

Nixion respondeu baixo. Quase como um sussurro digital.

— Convencer uns aos outros de que ainda possuem importância.

Marcelo voltou a olhar a cidade. Pela primeira vez na vida teve a sensação de que o planeta continuaria funcionando perfeitamente sem humanos.

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