Por Adriana Vieira
Enquanto todo mundo corre para a próxima inteligência artificial, cresce o desejo de desligar o celular, recuperar a atenção e voltar a viver experiências que não cabem em uma tela.
De um lado, surgem novas plataformas, novos assistentes, novos aplicativos e novas promessas de produtividade.
Do outro, voltam os clubes do livro, as câmeras analógicas, os cadernos de papel, os jogos de tabuleiro e até aqueles celulares que praticamente só fazem ligação.
Sim, o famoso “tijolão” está vivendo seus momentos de glória.
Talvez tenhamos acelerado tanto que desacelerar começou a parecer uma experiência exclusiva.
📱 Não É Rejeição à Tecnologia
Antes que alguém imagine que estamos prestes a abandonar os smartphones, voltar para a máquina de escrever e enviar cartas pelo correio, não é isso.
A tecnologia continuará fazendo parte da nossa vida.
Ela facilita o trabalho, aproxima pessoas, amplia o acesso à informação e cria oportunidades que seriam impensáveis há poucos anos.
O que está mudando é a relação com o excesso.
Uma pesquisa da Deloitte sobre hábitos digitais mostrou que 70% dos entrevistados gostariam de passar menos tempo em seus dispositivos. Entre os participantes, 34% disseram verificar o celular pelo menos 50 vezes por dia e 15% ultrapassavam 100 verificações diárias.
Cem vezes!
Talvez o nosso dedo já esteja mais condicionado a procurar o celular do que a nossa mente a procurar silêncio.
As pessoas não estão rejeitando o digital, começam a evitar a sensação de que precisam estar disponíveis, informadas e estimuladas o tempo inteiro.
⏳ O Que Antes Era Comum Virou Privilégio
Ler um livro sem interromper a página para responder a uma mensagem.
Almoçar sem colocar o celular ao lado do prato.
Assistir a um show sem tentar gravar todas as músicas.
Conversar com alguém sem dividir a atenção com uma notificação.
Nada disso deveria parecer extraordinário.
Mas começou a parecer.
No Reino Unido, experiências sem celular cresceram de forma expressiva. Dados da Eventbrite citados pelo The Guardian apontaram aumento de 121% na participação em atividades desse tipo entre 2024 e 2025. Surgiram encontros, caminhadas, aulas, restaurantes, clubes e retiros criados justamente para proporcionar algumas horas longe das telas.
É interessante perceber que agora precisamos criar eventos para fazer algo que antes acontecia naturalmente: estar onde estamos.
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🔄 A Geração Mais Conectada Procura Uma Saída
Esse movimento ganha ainda mais força entre os jovens.
A Geração Z nasceu dentro do ambiente digital. Ela não precisou se adaptar à internet. A internet já estava lá.
Talvez por isso perceba com tanta clareza o que a conexão permanente pode tirar da vida.
Pesquisa divulgada em 2025 apontou que 81% dos jovens da Geração Z gostariam que fosse mais fácil se desconectar dos dispositivos. Ao mesmo tempo, esse público demonstra interesse por experiências presenciais, lojas físicas e atividades que oferecem algo além da tela.
Também não parece coincidência o retorno da fotografia analógica.
A Fujifilm identificou uma retomada das câmeras descartáveis impulsionada especialmente pela Geração Z, atraída por uma experiência mais lenta, limitada e intencional. A fotografia deixa de ser uma sequência de cinquenta tentativas até encontrar a pose perfeita e volta a ter surpresa, espera e até erro.
Imagino que daqui a pouco alguém terá a ideia revolucionária de lançar uma câmera que não permite apagar a fotografia.
Chamaremos de inovação.
🤖 A Inteligência Artificial Também Está Alimentando Esse Cansaço
A inteligência artificial trouxe possibilidades extraordinárias.
Mas também ampliou a velocidade com que produzimos, consumimos e descartamos informação.
Todos os dias aparece uma nova ferramenta que promete organizar a agenda, criar o conteúdo, responder mensagens, montar apresentações, analisar clientes e, se deixarmos, talvez até escolher o que vamos pensar.
A tecnologia deveria liberar tempo.
Mas, em muitos casos, apenas aumentou a quantidade de coisas que acreditamos precisar fazer.
Produzimos mais.
Publicamos mais.
Recebemos mais.
E continuamos com a sensação de que estamos atrasados.
O problema não é utilizar inteligência artificial. O problema começa quando todas as ferramentas que deveriam facilitar a vida passam a disputar mais um pedaço da nossa atenção.
🛑 O Offline Não Voltou Por Nostalgia
Existe uma leitura fácil de que o retorno ao analógico seria apenas uma moda estética. Não acredito que seja só isso.
O caderno, o livro, a câmera analógica, o encontro presencial e o celular simples representam algo maior: controle.
No digital, tudo parece infinito. Sempre existe mais um vídeo.
Mais uma mensagem. Mais uma atualização.
Mais uma coisa que deveríamos conhecer.
O offline tem fim. O livro termina.
O filme da câmera acaba. O jantar chega ao café.
A conversa tem pausas.
Talvez seja justamente essa limitação que esteja se tornando tão valiosa.
O mercado de experiências presenciais também mostra sinais dessa busca. Segundo a McKinsey, o consumo global de experiências cresceu 2,6% entre 2023 e 2025, enquanto o crescimento de bens não essenciais ficou em 0,8% no mesmo período.
As pessoas continuam comprando coisas. Mas parecem cada vez mais interessadas em comprar histórias para viver.
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🎯 O Que As Marcas Ainda Não Perceberam?
Durante muitos anos, as empresas foram orientadas a ocupar todos os espaços digitais possíveis.
Mais publicações com mais formatos. Mais canais com mais frequência.
Agora talvez seja necessário aprender uma habilidade diferente: saber quando não interromper.
Um consumidor cansado não precisa de mais uma marca gritando por atenção. Precisa de clareza.
Precisa de experiências que façam sentido. Precisa sentir que a empresa respeita seu tempo, em vez de tratá-lo como um espaço publicitário disponível.
Isso não significa abandonar o digital. Na verdade precisa entender que a presença física, a experiência, o atendimento, o evento, o material impresso e a conversa real voltaram a ganhar valor.
O online oferece escala,, o offline devolve presença.
E as marcas mais inteligentes não precisarão escolher entre os dois, mas será fundamental entender o papel de cada um.
✨ Talvez O Novo Luxo Seja Conseguir Desligar
Durante muito tempo, luxo significou ter acesso ao que poucas pessoas podiam alcançar.
Hoje, quase tudo está disponível na palma da mão.
Informação, entretenimento, compras, trabalho, pessoas.
Talvez, por isso, o verdadeiro privilégio esteja mudando de patamar e ao invés de ser acessar está passando a ser ficar inacessível por algumas horas.
Poder ler um texto sem interrupção, conversar com alguém olhando nos olhos.
Conseguir viver uma experiência agradável sem ser compelido a fotografar, filmar e compartilhar.
O offline não voltou porque a tecnologia fracassou, retorna porque o excesso cansou.
E talvez essa seja uma das maiores mudanças de comportamento dos próximos anos: depois de aprender a acessar tudo, as pessoas começarão a escolher aquilo que merece sua atenção.
“Escrevo sobre comportamento, marcas e negócios porque acredito que as maiores transformações do mercado começam muito antes de se tornarem evidentes.” – Adriana Vieira








