Por André R. Costa Oliveira
E quando a semana já vai terminando e a gente acha que não vai presenciar mais nada de bizarro além da tal da “farmar aura”, surge outra bizarrice…
Há inúmeras pessoas – todas elas bem adultas, ao menos cronologicamente – que agora utilizam chupetas de bebê nos ambientes de trabalho para controlar estresse e ansiedade.
Sim. Vocês leram direito, e eu quero tratar desse assunto agora. E se você, marmanjo, usa chupeta, eu sugiro que nem prossiga na leitura porque o assunto é de gente grande e crianças não o compreenderão. Vá brincar de Lego, assistir Barney (aquele dinossauro roxo), a Galinha Pintadinha, o que quer que seja.
Pois é, pessoal. Há símbolos cuja força transcende a sua função prática, e a chupeta é um deles. Ela não é apenas um objeto de silicone; é um instrumento pertencente a uma etapa específica do desenvolvimento humano. Fora desse contexto, sua utilização deixa de ser uma simples curiosidade e passa a representar um fenômeno cultural digno de reflexão: a crescente dificuldade da sociedade contemporânea em enfrentar as exigências da maturidade. Ou melhor dizendo: a dificuldade de crescer e virar adulto.
🧠 A Psicologia do Desenvolvimento e a Fase Oral
Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, a chupeta está associada à fase oral descrita por Sigmund Freud. Durante aproximadamente os primeiros dezoito meses de vida, a boca constitui o principal canal de exploração do mundo e de obtenção de prazer, conforto e segurança. A sucção não nutritiva acalma de fato o bebê porque seu sistema nervoso ainda é incapaz de regular sozinho estados intensos de desconforto. A chupeta, portanto, funciona como um recurso transitório enquanto a criança desenvolve mecanismos internos de autorregulação.
E é precisamente por essa razão que pediatras e odontólogos recomendam que seu uso seja limitado no tempo. Espera-se que a criança abandone gradualmente esse recurso à medida que amadurece emocionalmente, neurologicamente e socialmente.
O desenvolvimento saudável consiste na substituição de dependências primitivas por capacidades superiores, que são a linguagem, o pensamento simbólico, o controle emocional, a autoconsciência e a responsabilidade. A maturidade humana é, em grande medida, a história dessa substituição.
Quando adultos passam a reivindicar a chupeta como instrumento de enfrentamento da ansiedade cotidiana, o símbolo torna-se inquietante. Não porque o objeto possua alguma maldade intrínseca ou porque eu me importo com o que você coloca ou não na sua boca, mas porque ele aponta para uma inversão do próprio sentido do desenvolvimento humano.
É um retrocesso tosco (para dizer o mínimo). Em vez de avançar rumo à autonomia, celebra-se o retorno a um mecanismo concebido para um cérebro que ainda não havia desenvolvido recursos próprios de autorregulação, ou seja, para um cérebro de um bebê de um aninho e seis meses.
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🔄 A Substituição da Resiliência pelo Alívio Imediato
É verdade que a ansiedade constitui um dos grandes males do século XXI. O ritmo acelerado da vida, a hiperconectividade, a fragmentação da atenção e a instabilidade social com a necessidade de aceitação e de pertencimento produzem sofrimento psicológico real, isso a gente sabe, não estou minimizando nada disso.
O problema, porém, está na resposta oferecida. Entre fortalecer a capacidade de enfrentar o desconforto e buscar refúgio em símbolos regressivos, há uma diferença civilizatória descomunal, galera. Nossa época parece transformar qualquer desconforto em emergência e qualquer emoção desagradável em algo que precisa ser imediatamente anestesiado.
Não se cultiva mais a fortaleza; cultiva-se a fuga. Não se educa para a resiliência; educa-se para a dependência de algum objeto, aplicativo, estímulo ou ritual que prometa eliminar instantaneamente o mal-estar.
Nesse contexto, a chupeta torna-se apenas mais um ícone de uma cultura que perdeu o apreço pelo amadurecimento e que só piora. Aliás, essa tendência nos revela algo ainda mais profundo: a confusão entre acolher o sofrimento e glorificar a regressão.
A psicologia séria não propõe que o adulto retorne à infância, mas que compreenda sua história para ampliar sua liberdade. O objetivo de um processo terapêutico nunca foi restaurar mecanismos infantis de enfrentamento, e sim o contrário, fortalecer funções psíquicas propriamente adultas: tolerância à frustração, capacidade reflexiva, elaboração emocional e autonomia.
Agora: uma sociedade que transforma objetos infantis em acessórios de adultos nos desnuda a sua própria dificuldade de distinguir o que é cuidado e o que é infantilização. O cuidado fortalece. A infantilização enfraquece, e o que mais se vê nos dias de hoje é gente fraca.
🔬 O Olhar da Neurociência: Córtex Pré-Frontal vs. Sistema Límbico
Sob a perspectiva da neurociência: o cérebro humano amadurece precisamente pela consolidação dos circuitos responsáveis pelo controle executivo, sediados predominantemente no córtex pré-frontal. Essa região participa da inibição de impulsos, da tolerância à frustração, do planejamento e da regulação consciente das emoções, exercendo influência sobre estruturas mais primitivas, como a amígdala e outros componentes do sistema límbico.
A autorregulação emocional constitui uma competência adquirida, fortalecida pela exposição gradual a desafios e pelo aprendizado de estratégias cognitivas e comportamentais.
Entretanto, no momento em que um adulto passa a recorrer sistematicamente a mecanismos sensoriais tipicamente infantis como resposta predominante ao desconforto psíquico, corre-se o risco de reforçar circuitos de alívio imediato em detrimento daqueles envolvidos na adaptação, na resiliência e na autonomia.
A plasticidade cerebral opera segundo o princípio de que os circuitos mais utilizados tendem a se fortalecer; por isso, embora um estímulo oral possa produzir alívio momentâneo em alguns indivíduos, o desenvolvimento neuropsicológico saudável depende do fortalecimento das redes neurais responsáveis pela regulação emocional madura, e não da reativação de estratégias próprias das primeiras etapas do desenvolvimento.
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🏛️ Maturidade, Dignidade e os Custos para a Civilização
Reitero: óbvio que o sofrimento humano merece respeito, acolhimento e tratamento baseado em evidências. O que merece a minha crítica é a cultura burlesca que romantiza soluções regressivas e transforma símbolos da primeira infância em modelos de enfrentamento para pessoas plenamente desenvolvidas.
Compreendam que a civilização sempre foi construída sobre a capacidade humana de adiar impulsos, suportar frustrações e transformar sofrimento em aprendizado. Quando esses valores são substituídos pela busca incessante de conforto imediato, perde-se algo muito maior do que a dignidade simbólica da vida adulta: perde-se a própria ideia de crescimento.
Imagina você conhecendo uma pessoa, convidando-a para jantar, daí em um dado momento ela se sente ansiosa e coloca uma chupeta na boca! Imagina você ser parado numa blitz e, na iminência do teste de bafômetro, fica nervoso e coloca uma chupeta em sua boca bem diante do agente de polícia!
A chupeta pertence ao berço, não porque exista uma proibição moral, mas porque ela cumpre uma função específica em uma fase específica da existência. Confundir etapas do desenvolvimento não representa progresso, tampouco libertação. Representa apenas e tão-somente a incapacidade, a incompetência cultural de aceitar que o fato de crescer implica abandonar certas formas de dependência.
Uma sociedade madura não elimina o sofrimento por meio de regressões simbólicas; ela ensina seus membros a enfrentá-lo com coragem, razão, disciplina e responsabilidade. Afinal, tornar-se adulto nunca significou viver sem dor. Significou aprender a suportá-la sem abdicar da própria dignidade.
E usar chupeta, puta merda, aí já é bem estranho.








