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A Crise da Paideia é a Falência do Progressismo/Construtivismo Educacional Brasileiro: a Necessidade do Retorno à Ordem

Busto de mármore de filósofo grego em mesa de madeira diante de uma sala de aula escura com quadro negro ao fundo.

Por André R. Costa Oliveira

Aos que desconhecem essa palavra, Paideia é o conceito fundamental da cultura grega clássica que define o ideal de educação integral e formação humana, transcendendo o simples ensino técnico ou a mera instrução escolar. Não se trata apenas de acumular informações, mas de um processo deliberado de “moldagem” do caráter e da alma, através do qual o indivíduo é conduzido da ignorância e da desordem interna para a maturidade, a virtude e a plena participação na vida civilizada.

O objetivo último da Paideia é o cultivo do ser humano em sua totalidade – harmonizando o intelecto, a disciplina moral e a sensibilidade ética – para que ele alcance a areté (excelência) e compreenda seu papel e deveres dentro da polis, tornando-se, assim, um cidadão consciente, capaz de discernir a verdade e sustentar a ordem e a justiça na comunidade.

A educação contemporânea brasileira atravessa uma crise que não é apenas metodológica, mas também ontológica. Ao abandonarmos os pilares que sustentaram a civilização ocidental – a transmissão disciplinada do saber, a autoridade intelectual e a busca pela verdade objetiva – rendemo-nos a uma pedagogia da fragmentação. O modelo dito progressista (frequente e acertadamente denominado “esquerdista”) que domina o aparato estatal e as academias de pedagogia há décadas, não tem educado; ele tem deseducado, transformando a escola de um templo de cultura em um canteiro de ideologias. E é neste cenário de erosão intelectual que se torna imperativo o resgate da seriedade pedagógica e a denúncia dessa arquitetura da ignorância que tomou conta das salas de aula de norte a sul do país.

O processo histórico da hegemonia ideológica nas salas de aula

A implementação desse modelo no Brasil, evidentemente, não ocorreu de maneira súbita, mas por meio de processo de influência intelectual que se consolidou para valer nas últimas décadas do século XX. Só que o terreno para essa transformação pedagógica demoníaca foi preparado pela ascensão de correntes de pensamento que, sob o pretexto de “libertação” e “autonomia”, gradualmente substituíram a instrução clássica por ideologias socialistas, comunistas e de desconstrução pura e simples.

Muito embora o pensamento que hoje domina o nosso sistema educacional tenha começado a germinar na década de 1940, 1950, foi no início dos anos 60 que ele ganhou contornos de projeto político-pedagógico. Após 1964, com a ruptura institucional do país, esse modelo foi marginalizado dentro do território nacional por conta do exílio de alguns de seus principais teóricos – que não eram teóricos educadores, mas teóricos da esquerda, é bom que se diga – e que passaram a difundir suas ideias alopradas no exterior; a elite esquerdista mundial, como era esperado, achou isso tudo a coisa mais lindinha desse mundo, dando voz a uma trupe de insandescidos que, além de charlatães, tornou-se patologicamente vaidosa.

Em outras palavras: durante esse período, o arcabouço pseudo-intelectual que passeava pelo mundo (muita gente, inclusive, recebendo verbas do governo federal brasileiro enquanto se auto-declarava exilada, o professor Fernando Henrique Cardoso é um exemplo disso) foi refinado e traduzido, ganhando prestígio internacional como uma ferramenta de contestação política, o que facilitou o seu retorno triunfal ao Brasil com o processo de redemocratização, como se fosse a salvação do ensino e do conhecimento em nossa pátria-mãe subtraída em tenebrosas transações. Só que foi exatamente o contrário.

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A fusão entre a Pedagogia da Libertação e o Construtivismo

Como eu mencionei há pouco, a efetiva penetração e consolidação desse modelo abominável na estrutura escolar brasileira ocorreu de forma contundente a partir da década de 1980. Foi nesse período que o Brasil viu a fusão de duas correntes principais:

A primeira delas foi a “Pedagogia da Libertação”, que se constituiu da absorção do pensamento crítico-social, que passou a ver o conteúdo acadêmico tradicional como mera reprodução de ideologias dominantes.

Já a segunda corrente recebeu o nome de “Construtivismo”, que uma vez introduzida pela via dos estudos acadêmicos sobre a aquisição da linguagem, tornou-se o método dominante, especialmente na alfabetização.

Eu não preciso nem dizer que o construtivismo, como vemos todo santo dia, não construiu absolutamente nada.

E por que não construiu absolutamente nada? Sob a premissa – erradíssima e mentirosa – de que o aluno deveria “construir” seu próprio conhecimento, a autoridade docente foi colocada em segundo plano, e a memorização ou o domínio factual foram estigmatizados como práticas obsoletas. E aí deu merda.

A perda do legado cultural e a proliferação da ignorância

Trocando em miúdos: a partir da redemocratização e ao longo das décadas de 90 e 2000, essas ideias deixaram de ser apenas teorias acadêmicas para se tornarem diretrizes oficiais de currículos municipais, estaduais e federais.

O que começou em faculdades de educação e centros de formação de professores espalhou-se pela rede pública e privada tal como neoplasia, institucionalizando a visão de que a educação não deve servir à transmissão de um legado cultural, mas à moldagem de um “ser social” (mal) politizado. Que não sabe matemática elementar, que é analfabeto funcional e que ainda acha bonito ser ignorante.

Ao longo de quarenta anos, essa transição transformou o que era o centro do processo educativo – o professor e o conteúdo clássico – em figuras periféricas, subordinando a qualidade acadêmica ao interesse da agenda ideológica que hoje domina as salas de aula. O resultado desse “experimento” é o quadro de precariedade e descompasso intelectual que observamos na atualidade.

A essência do erro progressista é a ideia falaciosa de que a criança deve ser o centro de seu próprio aprendizado. Sob o manto de um falso “pensamento crítico”, esse modelo abdicou de sua função primordial: a transmissão de um patrimônio cultural e técnico.

Quando um sistema educativo decide que o aluno não deve ser instruído, mas “conduzido” a descobrir o conhecimento por conta própria, ele não está promovendo liberdade; ele está abandonando o aluno à própria sorte. O resultado dessa negligência é a barbárie intelectual. Ao relativizar o currículo – tratando obras fundamentais da Literatura, da História e da Filosofia como apenas mais uma “perspectiva” entre outras -, o sistema priva o estudante de uma base comum, de um idioma intelectual compartilhado que lhe permitiria navegar na realidade.

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O sequestro pedagógico e a influência de Paulo Freire

O progressismo substitui a erudição pela militância, e o rigor lógico pelo sentimentalismo identitário. Essa é a real. E agora que eu já coloquei a mão inteira na ferida, vamos adiante:

A pedagogia brasileira e, por extensão, uma vasta parcela do pensamento educacional contemporâneo, encontra-se sequestrada por uma das figuras mais deletérias e abjetas da história intelectual do país: Paulo Freire. Sua metodologia, vestida com a roupagem sedutora da “libertação”, não passa de um projeto de doutrinação ideológica que substituiu a instrução técnica pela militância política.

Ao transformar a sala de aula em um canteiro de agitação social comunista e o professor em um mero facilitador de discussões politizadas, Freire esvaziou a educação de seu conteúdo mais nobre – o conhecimento crítico, analítico, argumentativo, científico, literário e filosófico – reduzindo o processo de aprendizado a uma interminável desconstrução de valores e a uma vitimização sistemática do educando.

É uma pedagogia que despreza o mérito, subestima a capacidade de abstração do aluno e, sob o pretexto de combater a opressão, acaba por condenar o indivíduo à ignorância, entregando-lhe ferramentas ineficazes para compreender e dominar a complexidade da realidade.

E o resultado está aí: o Brasil detém normalmente os últimos lugares nas avaliações de matemática em comparação a todos os outros países do mundo, da mesma forma que também possui os piores índices de leitura e de interpretação de texto entre todos os outros países desse mesmo mundo, além de não investir em ciência e em tecnologia, mesmo tendo um orçamento anual destinado a educação maior do que os orçamentos de dezenas de países altamente desenvolvidos.

O impacto no comportamento, na ética e na civilidade

Brasileiro não faz conta; brasileiro lê e não consegue interpretar o que está lendo. E país que não se preocupa com essa tragédia toda, estará fadado inevitavelmente à servidão geopolítica.

Há mais uma consequência aparente e constrangedora: o Brasil é um dos cinco países mais corruptos do mundo inteiro, e eu não estou me referindo a corrupção dos nossos políticos e dos funcionários e servidores públicos. Refiro-me a corrupção do dia a dia, do jeitinho, de querer se dar bem burlando uma fila, subornando o policial de trânsito, recebendo o troco errado e não devolvendo a diferença, adulterando combustível, misturando azeite extra-virgem com óleo de soja vagabundo em restaurante (aliás, passei por isso essa semana), falsificando atestado médico, puxando a energia elétrica de seu vizinho. Eu poderia citar milhões de exemplos mas não acho necessário.

E, para quem ficou ofendidinho com o que eu estou dizendo, eu tenho um recado muito simples: o seu “mimimi” foi recebido e encaminhado ao departamento do foda-se.

O legado de Paulo Freire é, em última análise, a consolidação de um sistema que prioriza a “conscientização” ideológica nos moldes cubanos, chineses e soviéticos dos anos 60 em detrimento da alfabetização real e funcional e do imprescindível rigor acadêmico. Sua insistência na negação da autoridade do mestre — relegando-o ao papel de um “igual” aos seus aprendizes – rompeu o vínculo sagrado da transmissão cultural, deixando gerações inteiras de estudantes órfãs de um cânone intelectual.

Ao rejeitar o esforço individual e a disciplina necessária para o domínio da linguagem e da lógica, sua metodologia criou um modelo onde a competência é vista com suspeita e o rigor intelectual é descartado como resquício de uma cultura “opressora”. O resultado não foi a emancipação dos marginalizados, mas o perpetuamento de um abismo cultural, onde o aluno é mantido em um estado de dependência intelectual crônica, desprovido da erudição necessária para ascender verdadeiramente na vida pública e profissional.

A destruição da autoridade e o colapso nas salas de aula

O modelo atual detesta a hierarquia. A pedagogia progressista vê o professor não como um mestre que possui o saber, mas como um mediador que deve se igualar ao aluno para não ferir sua “subjetividade”. Esta é uma traição à dignidade da docência. Sem a autoridade do professor, não há educação.

A verdadeira liberdade intelectual é fruto de um longo processo de disciplina – algo que o sistema progressista rotula de “opressor”, confundindo a autoridade legítima com autoritarismo, criando um vácuo onde a disciplina é vista como um mal a ser extirpado. E aí vem aquele caos nas salas de aula, onde o aluno, privado de limites, é incapaz de desenvolver a virtude da atenção ou o hábito do esforço. O estudante, portanto, deixa de ser um aspirante a sábio para tornar-se um consumidor de estímulos vazios.

A implementação do modelo progressista nas escolas brasileiras também tem atuado como um catalisador direto da violência, ao desmantelar as hierarquias fundamentais e a autoridade que deveriam resguardar o ambiente de aprendizado. Explico: ao transformar a sala de aula em uma arena de horizontalidade forçada e embates ideológicos, o sistema retirou do professor o poder de arbitrar o respeito e a disciplina, deixando-o vulnerável à indisciplina e à agressividade dos alunos (e os professores que defendem esse modelo têm, sim senhores, as mãos sujas do sangue inocente de outros colegas professores, que são humilhados, agredidos e até assassinados nas escolas brasileiras).

Com efeito, quando a escola deixa de ser um espaço sagrado de transmissão cultural para tornar-se um palco de conflitos sociais e desconstrução de valores, a figura do educador é deslegitimada e exposta à hostilidade, resultando em um cenário onde a autoridade mínima necessária para a regência de classe é sistematicamente solapada pelo próprio arcabouço pedagógico que deveria protegê-la.

Negligência estrutural e a urgente restauração da Paideia

Esse quadro é agravado por uma perversa negligência estrutural que condena o docente a um estado de precariedade crônica. Submetidos a uma formação acadêmica que privilegia a retórica abstrata em detrimento da prática pedagógica sólida, e operando em condições de infraestrutura precárias e com salários que refletem o profundo desprezo social pela profissão, os professores brasileiros tornam-se bodes expiatórios de um sistema que os sobrecarrega sem lhes conferir as ferramentas para o sucesso. A violência já mencionada, portanto, não é apenas um fenômeno comportamental dos estudantes, mas o reflexo de um colapso sistêmico: o professor, desprovido de respaldo institucional, mal remunerado e destituído de autoridade, vê-se isolado na linha de frente de um sistema que, ao negar a meritocracia e a ordem, acaba por entregar aqueles que deveriam ser os mentores da juventude a uma rotina de humilhações e insegurança.

O modelo “esquerdista” de educação é, em sua essência, um projeto de nivelamento por baixo. Ele prefere que todos ignorem o mesmo tanto a que uns poucos se elevem pela excelência. Criticá-lo severamente não é uma questão de preferência política, mas de defesa da própria civilização.

Precisamos de uma restauração da Paideia. A educação deve ser o processo de submeter as paixões à razão, e o indivíduo à autoridade do saber acumulado. O único caminho possível é a escola voltar a ser um lugar de silêncio, respeito e, acima de tudo, de ensino sério. Todo o resto é ruído ideológico que está custando, gerações após gerações, a inteligência e a liberdade de nossos jovens.

E finalizando agora: pensando melhor, se a educação brasileira é infectada por ideologias radicais de esquerda, é bem razoável mesmo que o seu patrono seja exatamente o homem que impulsionou essa insanidade toda e que resolveu, por conta própria, inserir o que existe de pior da ideologia marxista-socialista em salas de aula, adotando metodologias clássicas na China comunista, na ex-União Soviética e em “nuestra Cuba de Fidel Castro”: Professor Paulo Freire, que, por razões que eu jamais compreendi na vida, foi – e ainda é – “canonizado” e venerado por um número infindável de pedagogos e educadores brasileiros nas últimas décadas, o que só vem a confirmar, de fato, que a nossa educação, nos dias de hoje, vive em um estado de coma provavelmente irreversível.

Aliás, vou terminar o texto usando uma frase do próprio Paulo Freire, e aquele (ou aquela) que me explicar o que ele quis dizer (já que ele nunca efetivamente disse nada com nada) eu desde já agradeço imensamente. “É preciso que, pelo contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado.” (Paulo Freire; Pedagogia da Autonomia; 51ª edição; Editora Paz & Terra; página 25). E depois, como alguns já me disseram, eu é que sou o doido.

(em 07/2026)

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Psicologia e Comportamento
André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. Também pesquisa História da Arte e Gastronomia como elemento civilizacional intrínseco.

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