Pessoal, o senso comum é complicado, frequentemente confundindo o amor com a busca pela completude. E o que seria essa completude? A ideia de encontrar uma “cara-metade” que preencha nossas lacunas e nos devolva a sensação de um todo harmônico.
A psicanálise, contudo, inverte essa lógica. Longe de ser um bálsamo que cura a incompletude, o amor é o campo onde a nossa ilusão de inteireza encontra o seu limite. É, em última instância, o local de uma morte simbólica: a morte da pretensão narcísica de que somos autossuficientes.
E como isso acontece?
Desde a fase do espelho, o sujeito humano constrói a sua identidade a partir de uma imagem. Esse “Eu” (o “Moi” lacaniano) funciona como uma armadura: uma fachada de coerência e domínio que tenta ocultar o fato de que, em nossa essência, somos marcados por um vazio estrutural. Passamos a vida inteira tentando manter essa imagem de perfeição, acreditando que, se a moldarmos corretamente, seremos indestrutíveis e, por fim, “inteiros” .
O narcisismo, entre outras coisas, é também essa tentativa desesperada de autossuficiência. Amar, porém, é um ato que subverte essa estrutura. Quando o desejo se volta para o outro, a armadura começa a ranger. Não há como amar sem abrir uma fresta nessa blindagem; não há como se conectar com o desejo do outro sem admitir que a nossa imagem, por si só, é insuficiente. Lacan sugere, em diversos momentos, que “amar é dar o que não se tem” . Essa máxima é o oposto da troca comercial ou da completude narcísica. Se eu amo, não é porque sou um ser no ápice de sua plenitude e que “transborda” aos quatro ventos, mas porque eu reconheço que nem eu e nem o outro possuímos o objeto verdadeiro que nos completaria.
O amor, portanto, expõe a falta. Ele é o momento em que a nossa linha de defesa – aquela que nos convence de que somos donos da nossa própria história – falha. Ao permitir a entrada do outro, permitimos que ele “reorganize nossas paisagens internas” . Nossas certezas, nossas rotinas e a rigidez do nosso ego são postas em xeque, isso é fato. É quase como um “suicídio” simbólico, ou melhor dizendo: é, precisamente, o desmoronamento dessa fantasia de totalidade. É a renúncia à posição de objeto idealizado para aceitar a posição de sujeito desejante.
E nesse cenário de desapropriação e falha da defesa narcísica, emerge a noção do que eu chamo de “amor intranquilo” . Amor intranquilo não é busca por um porto seguro ou uma fusão que anule as diferenças; o amor intranquilo é aquele que abraça a constante perturbação, a incerteza inerente ao encontro com o outro. É a aceitação de que o desejo, por sua própria natureza, é uma falta a ser constantemente relançada, e não preenchida; é a preocupação, o zelo e o cuidado com o outro, 24 horas por dia, 7 dias por semana e 365 dias por ano.
E é bem nessa tensão da incompletude assumida, na dança entre o que se tem e o que se anseia, que o sujeito se mantém vivo e em movimento, permitindo que a alteridade do outro o transforme continuamente, sem a ilusão bobinha de uma estabilidade que seria, em essência, uma estagnação narcísica.
O amor de verdade, aquele que nos arrebata e dá frio na barriga ante a iminência do encontro, é o amor mais verdadeiro. E por qual motivo o amor intranquilo é o amor mais verdadeiro? Porque, ao abdicar da pretensão de ser inteiro, o sujeito abre espaço a transformações imensas tudo isso ao mesmo tempo em que permite à outra pessoa que também enfrente as suas próprias transformações imensas. Este movimento é o que possibilita a humanização do indivíduo, ao invés de ser uma destruição gratuita. Um sujeito que não se arrisca a “morrer um pouco” – e que não tolera a desestabilização provocada pelo encontro – permanece preso num solipsismo estéril. E a vida vai passar sem que ele vivencie a experiência que, de longe, é a mais arrebatadora a um ser humano.
A coragem de amar reside, então, em aceitar o risco do que é real: o encontro com o que é incalculável e estranho no outro. É a aceitação de que o outro não é um espelho de nossas necessidades (o que seria, by the way, insuportável a médio prazo), mas um ser radicalmente diferente, oriundo de um outro universo diferente do seu universo, com uma história de vida diferente e que apresenta-se capaz de nos transformar um pouco mais a cada dia.
Amar é, sim, senhoras e senhores, um salto no escuro porque implica uma desapropriação de si mesmo. Exige a disposição para abandonar versões antigas, para ver nossa imagem narcísica ser “assassinada” pela alteridade do outro. No entanto, é apenas através dessa perda simbólica que um algo novo nasce. O “suicídio” do ego fechado é, paradoxalmente, a condição para uma vida mais rica. É a transição de uma existência focada na preservação da própria imagem para uma existência movida pela potência do encontro.
Afinal, a pergunta que permanece não é se estamos prontos para ser felizes – até mesmo porque soaria como busca infantilizada da ideia de completude. A pergunta certa é se estamos realmente dispostos a “morrer um pouco” para que a nossa vida, em sua crueza e beleza, possa finalmente começar a acontecer.
( André Rodrigues Costa Oliveira – em 07/26)




