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O Voo e o Chão: O Puer Aeternus diante do Dia dos Namorados

Ilustração do arquétipo Puer Aeternus mostrando um jovem alado dividido entre a liberdade do infinito e um lar acolhedor.

O Dia dos Namorados – comemorado no Brasil em 12 de junho – é, essencialmente, uma celebração de marcos. É um convite para olhar para trás, reconhecer o caminho percorrido a dois e consolidar o compromisso no tempo. No entanto, para o arquétipo do Puer Aeternus — o “eterno jovem” da mitologia e da psicologia junguiana — o tempo é o seu maior inimigo. O Puer vive na potência, no “ainda não”, no reino do possível. Quando o calendário exige uma celebração da realidade da relação, o Puer frequentemente se vê confrontado com a gravidade da existência.

A sedução do infinito

O Puer Aeternus é movido pelo espírito, pela visão e por um desejo ardente de transcendência. No amor, isso se manifesta como o romance platônico perfeito, a busca pela alma gêmea inalcançável ou o encantamento inicial que não conhece a rotina. Para esse arquétipo, o amor é um estado de elevação. O Dia dos Namorados, com sua liturgia de jantares, presentes e trocas de promessas, pode parecer ao Puer como uma tentativa de “domesticar” o sagrado, transformando um sentimento etéreo em um protocolo social.

O medo da “queda”

O grande drama do Puer é o gigantesco “medo da queda”, termo esse usado por Marie-Louise von Franz para descrever a entrada desse arquétipo na vida concreta, na rotina, no trabalho monótono e, inevitavelmente, na finitude das coisas. O relacionamento de longo prazo exige o que o Puer mais teme: a (suposta) perda da liberdade ilimitada. Se o parceiro ou parceira solicita estabilidade, presença física ou planejamento futuro, o Puer pode sentir que suas asas estão sendo cortadas. A resistência a datas comemorativas pode ser, na verdade, uma defesa inconsciente contra o peso de ter que “aterrar” a relação.

A sombra do relacionamento

Contudo, é justamente na sombra desse arquétipo que reside o maior risco para o amor. Ao fugir do “chão” da realidade, o Puer corre o risco de viver relacionamentos superficiais ou de projetar no outro uma perfeição que não existe. A recusa em participar da vida cotidiana — o “fazer junto”, o construir tijolo por tijolo — priva o indivíduo da maturidade que apenas a convivência real proporciona.

Amar, sob a perspectiva da integração desse arquétipo, exige a coragem de ser humano. É entender que a beleza de um relacionamento não está apenas no voo da paixão, mas na capacidade de permanecer quando o voo termina e o chão precisa ser cultivado.

Conclusão: O convite à integração

Para aqueles que se sentem tocados por este arquétipo, o Dia dos Namorados pode sim ser ressignificado. Não precisa ser a celebração de uma rotina tomada por “opressora”, mas um rito de passagem onde a vitalidade e a inspiração do Puer se casam com a estabilidade e a profundidade do Senex (o arquétipo do ancião/realidade).

Aceitar o compromisso não significa abandonar a alma jovem, mas sim dar a ela um lar. O desafio é permitir que a chama da inspiração aqueça a casa que construímos, em vez de deixar que o fogo, sem um propósito, consuma tudo o que toca.

O amor verdadeiro, talvez, seja o único lugar onde o Puer pode, finalmente, pousar sem medo de perder a sua essência. Pense a respeito.


(André R. Costa Oliveira em 06/26)

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André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. També

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