Já é praxe: em todos os dias dessa nossa vida breve tomamos conhecimento de alguém que frequentemente fazia “coisas ruins” e que agora faz só “coisas boas”, ou que se arrependeu “sinceramente” depois de matar, roubar, violentar, enganar e que agora apresenta-se como uma “pessoa iluminada”, que atendeu os desígnios de um algo maior e que mudou completamente o seu jeito de agir perante o mundo.
A ideia de que um indivíduo possa, após uma vida de atrocidades, “comprar sua alma de volta” através da caridade repousa sobre uma ilusão de metamorfose moral que a realidade raramente sustenta. Não é assim que acontece; você não vira uma chave e muda de repente. E nesse tema eu me identifico com a genial filosofia de Thomas Hobbes (que nasceu em 1588 na Inglaterra, em um mundo abertamente absolutista, falecendo em 1679).
Se a gente adota a lente de Hobbes, autor, por exemplo, de Leviatã, sua obra máxima, compreende que o homem não possui um botão de “reiniciar” em sua essência, e não há como “resetar” passado. Para o filósofo inglês, o ser humano é movido pelo egoísmo radical e pelo desejo incessante de poder, uma dinâmica que ele resumiu na máxima “Homo homini lupus” — o homem é o lobo do homem.
Sob esta ótica, a filantropia dos “cruéis” deixa de ser um ato de redenção para se revelar como tática sofisticada de sobrevivência, teoria aliás que os pessimistas (tais como como Arthur Shoppenhauer, século XIX) viriam a dissecar e a aperfeiçoar muitos anos depois.
Para Hobbes, no estado natural, viveríamos em uma “Bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos), onde a vida seria ” angustiante, solitária, pobre, sórdida, animalesca e curta”, e esse fato, por mais fervorosos ou otimistas que sejamos, é incontestável. Ninguém duvida que o século XVIII para cá foi inteiramente “do demônio”; nocaute total, round após round, luta após luta, ano após ano.
Até mesmo a vida intrauterina começa a se desarmonizar quando o útero materno torna-se pequeno, apertado, desconfortável, e os fetos – sobretudo se forem gêmeos – começam a disputar espaço e nutrientes com a própria genitora. A civilização e o contrato social não eliminam esse instinto lupino; eles apenas o “domesticam” por meio do medo. Quando um colaborador de regimes atrozes ou um explorador impiedoso decide dedicar seus anos finais à caridade, ele não opera fora de sua natureza egoísta; muito ao contrário, ele percebe que, em um novo cenário político ou social, toda a sua sobrevivência física e reputacional depende de uma nova moeda: o capital moral.
É o pagamento de um pedágio para atravessar a fronteira do tempo sem ser linchado pela história
E o arrependimento, neste contexto, é um conceito estranho à mecânica hobbesiana. O que parece ser um “despertar da consciência” é, frequentemente, um cálculo de risco. O indivíduo identifica que a manutenção de sua posição — ou até de sua liberdade — exige que ele se torne “útil” ao sistema que agora o julga (e ele pode até agir assim sem perceber, inclusive). Dessa forma, ao financiar o bem, ele tenta neutralizar a sede de justiça da sociedade – ainda que os seus pecados sejam, até o momento, segredos de confessionário, conversas de alcova, trocando a punição temida pela gratidão revigorante.
O homem de Hobbes tem certeza absoluta de que a reputação é uma forma de poder (e ele não está errado). A doação de fortunas para comunidades que ele mesmo ajudou a oprimir é o pagamento de um pedágio para atravessar a fronteira do tempo sem ser linchado pela história. É o exercício final de domínio: quem dá, mantém uma posição de superioridade sobre quem recebe, transformando o crime passado em uma dívida de gratidão presente. A alma, nesse cenário, nunca foi vendida ou recuperada; ela apenas mudou de estratégia para não ser aniquilada.
A “bondade” e a filantropia tardia é, portanto, o último refúgio de um egoísmo que, percebendo-se encurralado, decide financiar a virtude para não ser por ela devorado. Há milhares de relatos de colaboracionistas nazistas que, imediatamente após o término da Segunda Guerra Mundial, saíram pelo mundo em campanhas distribuindo benefícios a comunidades predominantemente judaicas. O gesto não apaga o fato, pois o instinto da mão que assina o cheque é o mesmo que outrora apertava o gatilho ou que denunciava um amigo ou vizinho, não raramente apropriando-se de seu patrimônio: o instinto puro de sobreviver e de prevalecer, custe o que custar.
Um oportunista intelectual sem precedentes
E é nesse ponto em que entramos num aspecto de extrema relevância: para que a “estratégia do lobo” funcione, ele necessita que a sociedade acredite cegamente em uma mentira de enormes proporções, descarada porém reconfortante. E ninguém nos conta essa mentira com tamanha “sedução” como o faz Jean-Jacques Rousseau, nascido 124 anos depois de Hobbes, na Suíça. Ele mesmo, esse moço, autor do tão alardeado e aclamado “O Contrato Social” (Du Contrat social), publicado originalmente em 1762 e utilizado como mantra de política e de filosofia por milhões em todo o mundo até hoje.
Ao afirmar que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe” – o que, para mim, configura-se em uma falácia de desonestidade mastodôntica – Rousseau não apenas cria um dos pilares do idealismo ingênuo, mas age como um oportunista intelectual sem precedentes. Sua filosofia serviu de biombo para que o indivíduo pudesse, com verniz e fundamento, terceirizar a sua própria culpa – o que, convenhamos, é bem feio. Ora, se a maldade é um “erro do sistema” e não um traço inerente, então qualquer gesto de caridade – ainda que tardia – pode ser vendido como um “retorno à natureza pura”, e definitivamente eu não aceito tamanha gaiatice.
No entanto, o histórico pessoal de Rousseau — que pregava a educação ideal em sua obra intitulada Emílio enquanto abandonava os seus próprios cinco filhos em orfanatos, isso entre outras tantas “estripulias” — desmascara a sua teoria (aos que se interessarem, leiam alguma biografia séria dele). Rousseau oferece ao mundo uma saída de emergência moral: a ideia de que o crime é um acidente e a virtude é o estado natural da vida humana. E é essa mesma farsa rousseauniana que permite ao carrasco de ontem posar de filantropo hoje, explorando a credulidade de uma sociedade que prefere acreditar em uma bondade súbita e redentora do que encarar a crueza do instinto humano em suas vertentes e idiossincrasias.
Para Thomas Hobbes, lá no século XVI, o contrato social não é um pacto de amor, mas sim de medo. Quando um explorador impiedoso decide dedicar seus anos finais à caridade, ele não está recuperando a “bondade perdida” que Rousseau inventa na cabeça dele; ele está recalibrando o seu enorme egoísmo. É como eu já disse: o indivíduo identifica que a manutenção de sua posição exige que ele se torne “útil” ao sistema que agora o julga. A filantropia é o pagamento de um pedágio para atravessar a fronteira do tempo sem o linchamento pela história. É o exercício final de domínio: quem dá, mantém uma posição de superioridade sobre quem recebe, transformando o crime passado em uma dívida de gratidão presente.
Revolução Francesa foi literalmente um banho de sangue horroroso a céu aberto, promovido por sociopatas
Enquanto Rousseau nos oferece a ilusão de que podemos “voltar a ser bons”, Hobbes nos entrega verdades incômodas, escritas antes mesmo de que o primeiro nascesse: o contrato social roussoniano, que os sonhadores do Iluminismo acham “a coisa mais linda desse mundo”, tenta relativizar a violência justificando barbáries gigantescas, a começar pela própria Revolução Francesa, que foi literalmente um banho de sangue horroroso a céu aberto, promovido por sociopatas assumidos.
O homem não é nem anjo nem besta, e a desgraça quer que quem quer fazer o anjo faça a besta
Com efeito, é precisamente na falibilidade humana que reside a nossa essência mais profunda, pois o erro não é um desvio, mas o próprio motor da nossa condição (humana). Essa vulnerabilidade intrínseca é o que nos ancora à natureza, lembrando-nos de nossa finitude biológica; é o combustível da ciência, que avança justamente pela constante correção de suas próprias imperfeições; e é, para os que possuem fé, o terreno sagrado onde a graça se manifesta, pois reconhecer a própria fragilidade é o passo fundamental para a transcendência e para a aproximação com o divino, que se revela não no orgulho da perfeição, mas na aceitação humilde da nossa incompletude. E isso (Blaise) Pascal nos explica com clareza ímpar: “O homem não é nem anjo nem besta, e a desgraça quer que quem quer fazer o anjo faça a besta,” (Pensées, sec. XVII)
E agora já finalizando: eu não sou de todo um “pessimista acinzentado” e que acredita que o mundo é só perversidade, mas não tenho como deixar de dizer que o mal vem sendo claramente a regra. Há pessoas – muitas aliás – que lutam contra isso, que protegem umas as outras, que um dia são “tocadas” e encontram na filosofia, na ciência, nas religiões e nas doutrinas um refúgio de fé, contemplação e purgação de culpas – como o próprio São Paulo (século I), outrora Saulo de Tarso, matador competente de cristãos e que teve a visão reveladora de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho de Damasco, difundindo cartas (Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses, Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemom) que, em minha modestíssima opinião de escriba e de observador curioso, são o “manual de instruções definitivo” para uma vida em plenitude, paz e esperança; ou ainda Santo Agostinho (século IV-V), que até os 29 anos de idade era basicamente um jovem transviado e voltado ao “sexo, drogas e rock and roll” descomedidos, tornando-se depois o grande Doutor da Igreja Católica Apostólica Romana.
Um arcabouço enorme de hipocrisia, no que foi, provavelmente, o primeiro movimento woke da história
Mas atentem-se a um aspecto irrefutável: a essência do ser humano, muito acima de ser “boa” ou de ser “ruim” (conceitos estes mais ligados à moral e a ética na filosofia) é uma essência de sobrevivência, multifatorial, bioquímica, sociológica, antropológica, genética e de comportamento.
Rousseau nasceu 124 anos após Thomas Hobbes. Resolveu “causar” no movimento iluminista e acabou corroborando com um arcabouço enorme de hipocrisia, no que foi, provavelmente, o primeiro movimento woke da história, e que acarretou transtornos e misérias por conta de ingenuidade, fragilidade, insegurança de uma sociedade inteira, com uma pitada da mais genuína desonestidade intelectual descarada e pérfida. Afinal de contas, “a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude” (François de La Rochefoucauld, século XVII).
(por André R. Costa Oliveira em 06/26)



