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O Legado da Fumaça nos Pratos: Como a Indústria do Tabaco Criou o Manual dos Alimentos Ultraprocessados

Por André R. Costa Oliveira

Quando a indústria do tabaco percebeu que perdia a guerra cultural e jurídica contra o cigarro em meados do século XX, ela não aceitou o declínio. Em vez de simplesmente murchar junto com seus lucros, executivos astutos tomaram uma decisão geopolítica e corporativa que poucos na época conseguiram antecipar: compraram a indústria de alimentos.

Essa transição não significou apenas uma diversificação de portfólio; foi a migração em massa de um modelo de negócios baseado no vício, na engenharia química e na negação sistemática de evidências científicas para o prato de centenas de milhões de pessoas.

Da Apologia à Queda: O Caminho do Tabaco

Nas primeiras décadas do século XX, o cigarro desfrutava de uma reputação impecável. Era visto como sinônimo de modernidade, elegância e aceitação social. As corporações tabaqueiras figuravam entre as mais ricas do mundo, investindo fortunas em campanhas publicitárias que contavam com o aval de médicos, enfermeiras e personagens fictícios para atestar a segurança e o bem-estar proporcionados pelo hábito de fumar.

Tudo começou a ruir na década de 1950, quando os primeiros estudos epidemiológicos consistentes correlacionaram o tabagismo ao câncer de pulmão. Diante da pressão pública iminente e da queda nas ações, a resposta da indústria não foi reformular o produto para torná-lo inofensivo. A estratégia escolhida consistiu em negar as evidências científicas o máximo possível, financiar contraestudos para gerar dúvida na opinião pública e, nos bastidores, planejar o próximo grande movimento de expansão.

A Grande Migração Corporativa

Nos anos 1980, essa estratégia encontrou seu ápice financeiro e operacional. Em 1985, a Philip Morris – uma das maiores potências do tabaco – adquiriu a General Foods por expressivos 5,8 bilhões de dólares. Três anos depois, em 1988, desembolsou 12,9 bilhões de dólares para comprar a Kraft. Em paralelo, sua principal concorrente, a R. J. Reynolds, incorporou a Nabisco.

De uma só vez, as grandes tabaqueiras passaram a controlar uma fatia colossal do mercado norte-americano de alimentos. Marcas icônicas e cotidianas como Kraft Mac & Cheese, Jell-O, Lunchables, Oreo, Chips Ahoy, Ritz e Oscar Mayer passaram a responder diretamente aos mesmos conselhos de administração que gerenciavam o vício do tabaco.

A diretriz corporativa dessa expansão estava documentada em memorandos internos. Um executivo da Philip Morris resumiu a meta com franqueza arrebatadora: o objetivo era controlar “todas as drogas do prazer que não são regulamentadas.”

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A Transposição de Competências: Do Alcatrão ao Açúcar

A fronteira entre as duas indústrias não foi cruzada apenas por dinheiro e participações acionárias; ela foi marcada pela transferência de cérebros. Os mesmos pesquisadores e químicos que passaram anos descobrindo como tornar o cigarro mais viciante e irresistível foram redirecionados para laboratórios de alimentos com uma missão idêntica: otimizar o apelo químico dos produtos consumidos em massa. A metodologia era exatamente a mesma; apenas o alvo havia mudado.

Nesse contexto, destacou-se a figura de Howard Moskowitz, um psicofísico americano contratado pelas maiores marcas alimentícias do planeta. Moskowitz formalizou o conceito do bliss point (ponto de êxtase), a combinação matemática precisa de açúcar, gordura e sal capaz de maximizar o prazer sensorial, forçar o cérebro a liberar picos de dopamina e induzir o consumidor a comer incessantemente, independentemente de qualquer sinal biológico de fome.

Não se tratava de intuição culinária, mas de engenharia de precisão.

Conforme documentado pelo jornalista Michael Moss, do New York Times, em sua obra Salt, Sugar, Fat, os arquivos internos da indústria revelavam um vocabulário próprio e revelador. Termos como cravability (desejo incontrolável), snackability (a incapacidade física de parar de comer) e moreishness (a sensação constante de que falta mais uma unidade) guiavam o desenvolvimento de produtos cujo propósito central não era nutrir, mas sim impedir que o consumidor conseguisse largar a embalagem.

O Problema dos Óleos Vegetais

Também não nos esqueçamos de que na base da formulação da grande maioria dos alimentos ultraprocessados estão os óleos vegetais refinados (como soja, milho, canola e girassol), que desempenham um papel central tanto na indústria quanto na degradação da saúde pública.

Altamente extraídos por processos químicos e térmicos industriais, esses óleos são extremamente baratos e ricos em ácidos graxos ômega-6. Ocorre que o consumo excessivo e desproporcional de ômega-6 em relação ao ômega-3 – uma característica marcante da dieta industrializada – promove um ambiente metabólico altamente inflamatório no organismo.

Presentes em salgadinhos, biscoitos, margarinas, pratos prontos e frituras, esses óleos não apenas garantem a palatabilidade e a estabilidade prateleira desses produtos, mas também atuam como vetores silenciosos que potencializam os danos metabólicos associados à obesidade e às doenças cardiovasculares nas populações vulneráveis.

Óleos vegetais são “o resto do resto do resto” da indústria e que você ainda adquire e que, literalmente, envenena a si próprio e àqueles que você tanto ama.

A Engenharia do Consumo Invisível

Os efeitos dessa engenharia alteraram profundamente o metabolismo humano e a própria cadeia alimentar. Produtos como o Cheetos, por exemplo, foram projetados com base no fenômeno da densidade calórica evanescente: eles se dissolvem rapidamente na boca antes que o cérebro consiga registrar que acabou de receber calorias. Como o sinal de saciedade natural é burlado, o mecanismo de recompensa continua ativo, mantendo a mão em movimento rumo à embalagem.

Antes da década de 1980, os alimentos básicos mantinham perfis gustativos tradicionais. Com o mapeamento dos bliss points, o açúcar infiltrou-se sorrateiramente em itens que historicamente nunca foram doces, como pão de forma, molhos industriais, frios embalados, iogurtes e cereais matinais voltados ao público infantil. O paladar de gerações inteiras foi sistematicamente recalibrado para patamares de doçura artificiais inexistentes na natureza, criando um ciclo vicioso de consumo intergeracional.

Assim como ocorreu com o tabaco, cujos arquivos secretos só vieram a público na década de 1990 por imposição judicial – comprovando que os executivos sabiam dos malefícios décadas antes de admiti-los publicamente -, a indústria de alimentos enfrenta hoje um escrutínio jurídico e documental análogo.

Para Além do Corpo: O Impacto na Saúde Mental

Embora a discussão pública sobre ultraprocessados costume girar em torno da obesidade e do diabetes, uma fronteira ainda mais alarmante ganha relevância: o impacto direto desses produtos sobre o cérebro e a saúde mental.

Estudos epidemiológicos de grande porte, como uma pesquisa de fôlego publicada no periódico JAMA em 2023 acompanhando mais de 31 mil mulheres ao longo de quase 15 anos, demonstraram que o consumo elevado de alimentos ultraprocessados eleva significativamente o risco de desenvolvimento de quadros de depressão. Metanálises indexadas no PubMed corroboram essa tendência, apontando que dietas hiperprocessadas aumentam em média 53% a chance de manifestação de sintomas de transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão.

A explicação passa, em grande medida, pelo eixo intestino-cérebro. Aproximadamente 90% da serotonina – o neurotransmissor associado ao bem-estar e à regulação do humor – é produzida no trato gastrointestinal. Uma alimentação rica em aditivos químicos, emulsificantes e açúcares refinados destrói a microbiota intestinal benéfica, desencadeando reações em cadeia que envolvem inflamação sistêmica crônica, estresse oxidativo e resistência à insulina.

Esses três eixos patológicos comprometem o funcionamento das mitocôndrias, consideradas as usinas de energia das células. No tecido cerebral, a queda na produção energética traduz-se diretamente em fadiga crônica, desânimo, irritabilidade, déficits de concentração, ansiedade e flutuações severas de humor. Apesar disso, na prática clínica cotidiana, o paciente raramente é questionado sobre sua ingestão de ultraprocessados antes de receber um diagnóstico psiquiátrico formal e uma receita de medicamentos controlados.

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A Indústria Farmacêutica “Entende o Recado” e Posiciona-se

A transição estratégica da grande indústria tabagista para o setor de alimentos ultraprocessados – especialmente a partir da segunda metade do século XX, quando o cerco regulatório e científico começou a se fechar contra o cigarro – revelou uma perfeita fusão de interesses corporativos, na qual a indústria farmacêutica desempenhou um papel de retaguarda e sustentação fundamental a todo o mecanismo, senão vejamos:

Quando gigantes do tabaco começam a diversificar seus portfólios adquirindo empresas de alimentos processados, aplica-se ao novo mercado a mesma expertise de engenharia de produto, hiperpalatabilidade e marketing agressivo que usavam para o fumo.

Nesse tabuleiro, a indústria farmacêutica – que de “boazinha” não tem nada – posiciona-se de maneira a rentabilizar as duas pontas dessa transição cronológica e sanitária:

Primeiramente através da gestão do vício e mitigação de danos: Inicialmente, conforme o tabagismo passa ser reconhecido globalmente como uma epidemia e uma dependência química severa, a indústria farmacêutica lucra pesadamente com o mercado de cessação do tabagismo. O desenvolvimento e a comercialização em massa de terapias de reposição de nicotina (adesivos, gomas de mascar), além de medicamentos de tarja preta – psicotrópicos entre tantos – para ansiedade, depressão e controle de abstinência, tornam-se fontes multibilionárias de receita. As farmacêuticas gerenciam o sintoma do vício gerado pelo tabaco sem que a raiz do problema (a comercialização do cigarro) seja extinta de forma abrupta.

E em segundo lugar – mas não menos importante – vê-se a medicalização da epidemia de obesidade e crônicos: Conforme o capital do tabaco migra maciçamente para a produção de alimentos ultraprocessados ricos em açúcares, sódio e óleos vegetais inflamatórios, a incidência de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares dispara globalmente inclusive em crianças e adolescentes. A farmacêutica então reposiciona-se para o que é hoje um dos seus pilares mais lucrativos: a gestão crônica de comorbidades. Em vez de focar na cura ou na prevenção estrutural (o que esbarraria em confrontos diretos com a Big Food), o setor farmacêutico passa assim a fornecer o arsenal contínuo de manutenção da vida – como estatinas para o colesterol, anti-hipertensivos, antidiabéticos orais e, mais recentemente, a nova geração de medicamentos injetáveis para emagrecimento.

Em suma, enquanto a Big Tobacco migra para a Big Food para continuar comercializando produtos de alto potencial aditivo e de consumo recorrente, a indústria farmacêutica, na retaguarda, garante que o ciclo econômico permaneça fechado: lucra com o tratamento do vício do cigarro no passado e, hoje, lucra de forma perpétua com o controle medicamentoso das doenças geradas pelo modelo alimentar que substituiu o tabaco na rotina da população.

A Precária Alimentação do Pobre

A penetração dos alimentos ultraprocessados nas populações de baixa renda reflete uma profunda desigualdade social e econômica, criando o paradoxo da coexistência entre obesidade e desnutrição.

Devido ao seu baixo custo, alta durabilidade e ampla disponibilidade, esses produtos acabam substituindo alimentos in natura e minimamente processados na mesa das famílias carentes. Como são densamente calóricos, mas extremamente pobres em micronutrientes essenciais (vitaminas, minerais e fibras), eles suprem as necessidades energéticas diárias porém de forma vazia, levando ao ganho excessivo de peso enquanto o organismo permanece em estado de fome oculta e carência nutricional crônica.

Além disso, esse cenário é agravado pelas estratégias agressivas de marketing e pela própria dinâmica dos desertos e pântanos alimentares, regiões periféricas onde o acesso a frutas, legumes e verduras frescas é escasso ou financeiramente proibitivo. Nesses locais, os ultraprocessados tornam-se a opção mais acessível e conveniente para jornadas de trabalho exaustivas e mal remuneradas.

O consumo contínuo desses produtos de baixa qualidade nutricional desencadeia inflamações sistêmicas e o desenvolvimento precoce de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2 e hipertensão, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade em que a saúde da população mais carente é duplamente penalizada.

Conclusão

Ao traçar este paralelo histórico, a conclusão torna-se incontestável. A indústria do tabaco precisou de décadas de pressões sociais, litígios bilionários e revelações documentais para ser responsabilizada perante a opinião pública.

A indústria de alimentos ultraprocessados encontra-se hoje exatamente no mesmo estágio em que a indústria do tabaco estava nos anos 1970: de posse de evidências científicas irrefutáveis sobre os danos sistêmicos que provoca, amparada por estratégias de marketing agressivas e protegida por uma inércia regulatória que custa, diariamente, a saúde física e mental de milhões de pessoas.

Alimentação saudável e de qualidade está longe de ser um privilégio exclusivo das classes mais abastadas ou de exigir um orçamento elevado. Comer bem depende muito mais de criatividade, planejamento e do aproveitamento integral dos insumos do que da compra de produtos importados ou rotulados como “fitness”. Ao valorizar alimentos da estação, explorar feiras locais, evitar o desperdício com o uso inteligente de cascas, talos e sementes, e resgatar o hábito de cozinhar com ingredientes básicos e naturais, é possível montar pratos nutritivos, saborosos e financeiramente acessíveis para qualquer realidade. E que não encurtarão drasticamente a sua vida.

(em 07/26)

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Psicologia e Comportamento
André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. Também pesquisa História da Arte e Gastronomia como elemento civilizacional intrínseco.

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