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A Era do Jantar Conceitual: Quando o Restaurante “Se Acha”

Ilustração conceitual de uma porção microscópica de comida servida em cima de uma telha em uma mesa de restaurante sem toalha.

Por André R. Costa Oliveira

Pessoal, ir a um restaurante (supostamente) mais sofisticado hoje em dia deixou de ser aquela atividade de experimentação revigorante que chamávamos de “comer fora”. Comprar comida e comer nesses lugares virou uma gincana de obstáculos corporativos, um teste de QI disfarçado de lazer onde, antes de mastigar qualquer coisa, você precisa decifrar enigmas tecnológicos, arqueológicos e de etiqueta alfandegária.

Tudo começa logo na porta do estabelecimento. Você chega para jantar e se depara com um segurança gigante que te olha de cima a baixo como se estivesse avaliando a sua entrada em um cofre de banco suíço. Sem shorts, sem chinelo, sem regata, sem boné e sem tênis “esportivo demais”.

Eu até concordo, sim, que alguns estabelecimentos exijam certa etiqueta na vestimenta, mas essa exigência deve existir exclusivamente por respeito aos demais clientes, aos funcionários e ao ambiente, e nunca por motivações baseadas em pedantismo, soberba ou arrogância.

E tem mais uma coisa: podem apostar que o nível de exigência estética na entrada é inversamente proporcional à quantidade de tecido da roupa do chef. Você se arruma todo e depois vê o chef lá no fundo, super simples, tatuado e, não raramente, pouco higiênico.

Restaurante bom deveria se definir pela comida e pela hospitalidade, não pelo porteiro com complexo de segurança de puteiro. Que, aliás, é um pessoal super de boa se você se comportar direito.

A Acústica de Caverna e a Ditadura do QR Code

Ao entrar você percebe um silêncio ensurdecedor e que, em Física, a gente chama de acústica de caverna: seguindo a tendência do minimalismo e do brutalismo – que, aliás, já estão completamente ultrapassados de tão horrorosos, mas sobre isso eu falo outro dia – os restaurantes que hoje retiram toalhas, cortinas e qualquer tecido do ambiente para manter um design industrial “clean”, transformando o salão numa câmara de eco onde você precisa literalmente gritar com a pessoa na sua frente para conseguir ser ouvido, enquanto escuta mastigações, arrotos e peidos alheios em alta definição.

Conseguindo passar pela “barreira alfandegária” e pelo impacto estético-arquitetônico de gosto duvidoso, você senta à mesa e… opa, esqueça o cardápio! Hoje em dia, chegar para jantar significa baixar mais um aplicativo, cadastrar e-mail, aceitar termos de privacidade que dão direito à alma do seu primogênito e torcer para o 5G colaborar.

Como bem pontuado, cheguei pra jantar, não pra baixar app. Cardápio de papel tem cheiro, tem peso, tem o charme de folhear e o poder democrático de apontar com o dedo o que vai entupir suas artérias, explodir sua glicose ou entrar no cheque especial. Brasileiros, nós temos esses direitos!!! QR code é pura economia de custo disfarçada de modernidade ecológica. Se cortaram o cardápio, cortaram parte da experiência. Ponto final.

🟢 LEIA TAMBÉM: O Retrato da Insolvência Cotidiana: Quando a Fome e o Lazer em Família Entram no Crédito Rotativo

Menus Enigmáticos e Louças Banidas

Mas digamos que você superou a barreira digital e o menu apareceu. Só que aí vem o segundo golpe: o menu-enigma. Se você precisa de lanterna do celular, lupa de relojoeiro, ChatGPT e um tradutor de dialetos ancestrais para saber o que vai comer, o estabelecimento não está te servindo, está te testando para um pós-doutorado no MIT ou um concurso público do Senado, que é o mais foda atualmente. Descrição clara no papel não é falta de classe; é respeito básico pelo estômago e pelo bom senso alheios.

Aí a comida finalmente chega e você descobre que o prato propriamente dito foi banido em nome da vanguarda artística. Daí é comida servida em telha de barro, em pá de lixo, em folha decorativa, em azulejo, em ardósia, em lata enferrujada ou quem sabe até num sapato ortopédico.

Gostaria eu de ressaltar que o prato de louça ou cerâmica existe há mais de quatro mil anos por um motivo muito simples: ele funciona! A comida, quando colocada em entulhos construtivos modernosos tende a escorrer, estriar, espalhar e absorver umidade na superfície errada. E aí vai uma dica: se o estabelecimento precisa de um utensílio bizarro para impressionar, o problema definitivamente está na comida. Portanto, fiquem atentos.

Teatrinho Pirotécnico, Sommelier de Gelo e “Gastronomia Fusion”

E, claro, não podemos esquecer o teatrinho pirotécnico. Se o show é infinitamente maior que o sabor, tem algo muito errado no plano de negócios. Fumacinha saindo do domo, nitrogênio líquido à mesa, prato que é “revelado” com mais pompa do que um manuscrito do Mar Morto. Você gasta uma fortuna por três minutos de fogos de artifício gustativos onde o gosto final era exatamente o mesmo de se a comida tivesse chegado sem cerimônia nenhuma.

Ah, e a mesma premissa vale para bebida: hoje tem até sommelier de gelo, em que o garçom gasta cinco minutos das nossas breves vidas – inclusive da dele própria – explicando que “o gelo do seu drink foi esculpido à mão em formato de diamante por um monge tibetano, usando água de geleira lá da puta que o pariu” – o que, no fim das contas, derrete do mesmo jeito em três minutos e deixa a bebida aguada. Igualzinho.

Para piorar, entra em cena a obsessão pela tal da “gastronomia fusion” e pela desconstrução alucinada. Aprendam que assim como bons ingredientes não são o caminho certo ao sucesso, juntar duas coisas boas nem sempre faz uma coisa melhor. Sushi burrito, ramen burger, taco de feijoada ou brigadeiro de queijo brie, pizza de camarão com pudim de leite (juro, já vi todos esses)…

Confesso que, às vezes, até rola alguma coisa criativa, diferente, mas na maioria dos casos é puro desespero de marketing tentando esconder falta de identidade. Pronto. Falei.

🔴 LEIA MAIS: O Efeito “Prime” e a Arquitetura do Nosso Entorno

Porções Microscópicas, Sobremesas Desconstruídas e Brinquedotecas

Tem também a porção “para compartilhar,” que não alimenta ninguém nesse mundo: pratos que vêm em um potinho microscópico sob o pretexto de que são “para dividir”, forçando você a pedir metade do cardápio para não sair da mesa com fome e pagar o equivalente a um carnê de um carro novo, recebendo em troca um Palio 97. Na real, ninguém merece um Palio 97.

Bom, e na sobremesa? Tiramisu em pó, brigadeiro em espuma… cara, desconstruir um clássico só faz sentido se o resultado conseguir superar o original. Na prática, é apenas o clássico piorado e pelo quádruplo do preço. Nunca foi pedida inovação caótica no brigadeiro.

E, por derradeiro, eu não posso deixar de falar das brinquedotecas. Ah, as nossas crianças!!! Até mesmo restaurantes que pretendem ser chamados de “elegantes” agora fazem malabarismos no espaço disponível para as tais brinquedotecas. Não consigo harmonizar as palavras elegante e brinquedoteca, gente. Não existe essa possibilidade.

Em verdade, acho legal a meninada ter um local de divertimento, mas isso jamais pode desrespeitar os demais clientes que buscam sossego num bom restaurante. Se a pessoa tem filho mal-educado ou simplesmente não tem com quem deixá-lo, peça comida em casa ou faça um bom mexido – prato que, aliás, eu adoro, com dois ovos fritos na manteiga (mal-passado) lá no topo.

No fim das contas, a gente só queria sentar, confraternizar, compartilhar, congregar, comer bem, ser bem tratado e não precisar passar por um treinamento de agente secreto para jantar em paz. A nova gastronomia nem sempre é gastronomia nova, reflitan sobre isso. Menos fumaça, menos telha, mais comida no prato e menos frescura na porta.

(em 08/26)

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Psicologia e Comportamento
André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. Também pesquisa História da Arte e Gastronomia como elemento civilizacional intrínseco.

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