Eu vi recentemente que o iFood começou a parcelar o pagamento para a entrega de comida. A introdução do parcelamento de refeições cotidianas em aplicativos de entrega — o famigerado “parcelar a pizza do fim de semana” — não é uma mera inovação comercial ou facilidade logística. Na verdade é um sintoma clínico e social alarmante, o reflexo mais nítido de uma economia estrangulada, onde o poder de compra foi corrosivamente reduzido a pó.
Parcelar a aquisição de um imóvel, de um carro, de uma ferramenta de trabalho de alto custo, de medicamento de valor elevado, de eletrodomésticos, de uma feira mensal de supermercado, até aí, normal. Mas quando o sustento imediato e o mínimo de lazer familiar precisam ser fatiados em prestações no cartão de crédito, a fronteira entre a sobrevivência e a insolvência deixa de existir. A sociedade brasileira assiste, atônita e impotente, à mercantilização da dignidade básica disfarçada de “facilidade de pagamento”.
O cenário macroeconômico e a ilusão da liquidez
O cenário macroeconômico atual do país – implementado pelo governo Lula – opera como uma engrenagem descarada de exclusão, e a gente sabe disso; só não vê quem não quer ou quem é mau caráter. Os últimos três anos de inflação persistente sobre os itens da cesta básica, combinados com taxas de juros em patamares extenuantes e a estagnação real dos salários, dizimaram a classe média e a classe média-baixa, e empurram a base da pirâmide para um estado de vulnerabilidade crônica, maquiada pelos auxílios assistenciais que aumentam não a riqueza, mas multiplicam a… pobreza!!!
E aí a gente entra no conceito da ilusão da liquidez. E o que seria isso? É quando o crédito, que deveria ser ferramenta de investimento ou aquisição de bens duráveis de longo prazo (como imóveis e veículos), é rebaixado à condição de muleta para a subsistência.
Galera, parcelar uma refeição de valor irrisório escancara o esgotamento total da renda disponível. O consumidor não usa o cartão mais por conveniência, mas por absoluta falta de capital de giro doméstico até o quinto dia útil do mês seguinte. E enquanto os índices oficiais tentam mascarar a realidade com maquiagens estatísticas, o termômetro real da economia pulsa lá no aplicativo de entrega, no iFood, onde o supérfluo tornou-se inacessível à vista e o essencial passou a exigir financiamento.
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A tragédia psicológica silenciosa do endividamento
Por trás dos números frios da inadimplência e do endividamento das famílias (que nunca foram tão altos no Brasil), reside uma tragédia psicológica silenciosa. Eu fico imaginando a cena do chefe de família que abre o aplicativo de delivery e precisa recorrer a duas ou três vezes no cartão para comprar uma simples pizza de fim de semana – isso é o retrato acabado da falência moral imposta pela pobreza moderna. Não se trata apenas de crédito; trata-se da amputação da dignidade de pais e mães de família em um sistema que transformou o afeto familiar em artigo de luxo.
O ato de parcelar a janta gera um profundo sentimento de humilhação íntima. O trabalhador que cumpre jornada exaustiva percebe, com amargura, que seu trabalho não lhe garante nem o direito elementar de proporcionar um momento de lazer singelo aos filhos sem comprometer o orçamento do mês seguinte. O peso psicológico de ter que explicar — ou pior, esconder — as limitações financeiras para crianças e adolescentes que apenas desejam a rotina de uma refeição afetiva em família corrói a autoestima. O pai e a mãe se veem encurralados entre a prudência financeira de recusar o pedido dos filhos e o medo doloroso de parecerem insuficientes diante daqueles que juraram proteger um dia.
Todo esse cenário macabro alimenta uma neurose coletiva de insuficiência. O cidadão é levado a acreditar que o fracasso é exclusivamente individual, ou seja, somente dele mesmo, fruto de sua suposta falta de mérito, quando na verdade é o produto direto de um arranjo econômico excludente que concentra renda e empobrece o trabalho.
A radiografia de um Brasil que normalizou a decadência
Na real, pessoal: o parcelamento de comida no delivery é a radiografia perfeita de um Brasil que normalizou a decadência. Ao transformar a fome e o pequeno prazer em dívida a prazo, o sistema econômico brasileiro atinge um grau avançado de perversidade: ele não apenas retira o pão da mesa do trabalhador, mas o obriga a pagar juros pelo privilégio de sonhar com ele.
Enquanto a economia for tratada como um jogo de “faz-de-conta” macroeconômico, distante da realidade de quem precisa fatiar o jantar para caber no orçamento, o país continuará produzindo cidadãos exaustos, famílias endividadas e uma dolorosa sensação de futuro cancelado.
(em 07/26)








