Por Benedito Said
QUEDA
Sabe aquele anúncio tradicional na porta das lojas quando é tempo de balanço? Fechado para Balanço é passado, jurássico até. Hoje, tudo está informatizado e detalhado em tecnologias que registram o vai-e-vem de mercadorias e estoques, sem que haja necessidade de cerrar as portas, varando a noite.
MEDO
Mas o medo que circula e aniquila o comércio, principalmente o varejista, é a taxa de juros. O Brasil não é para amadores. Nem para profissionais. Aí é para fechar as lojas de uma vez por todas. Os pequenos já sabem o que lhes resta nesse latifúndio empresarial. Cova rasa, sem direito à exumação. Os grandes, debatem-se dentro dos sarcófagos das dívidas, incluso carga tributária e o que mais aparecer na legislação brasileira.
ESTRADA
Nessa longa estrada da vida, a rede de varejo Casas Bahia disse que avalia uma renegociação de suas dívidas com credores, o que pode incluir um novo pedido de recuperação judicial ou extrajudicial, depois de um período marcado por fechamento de lojas, demissões e baixas contábeis.
COFRE
O anúncio vem após um trimestre em que a empresa teve um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, ante uma perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia está negativo em R$ 8,1 bilhões. Isso significa que, se a varejista vender tudo aquilo que possui em bens e direitos a receber, ainda ficarão faltando bilhões para pagar credores.
BAHIA
A empresa afirmou que, em um cenário de juros altos e endividamento das famílias, enxugou o volume de compras de estoque para reduzir seu tamanho. “Comprar de forma estruturalmente menor significa operar em uma escala menor”, disse. A companhia informou que fechou 298 das cerca de mil lojas que possui e que está revisando seu quadro de colaboradores. Segundo informações do jornal Valor Econômico, a varejista demitiu cerca de duas mil pessoas na semana passada.
PASSADO
Em Montes Claros o número de lojas fechadas no centro comercial tradicional é de assustar até o freguês ausente. Valor de aluguéis, carga de manutenção de estoques e de pessoal, fora os embaraços tributários de plantão, inibem o comércio ativo. Os atacadistas que atuam no setor de alimentos, a maioria nascida no território montes-clarense e familiar, fecham as portas. Há ainda as redes mais poderosas a ocupar espaços. Caminho sem volta.
CORONEL
Na época do primeiro mandato do ex-prefeito Antônio Lafetá Rebelo, há cinquenta anos, surgiu a proposta do Plano Diretor inovador para a cidade. Três propostas balançariam a estrutura de Montes Claros. Criar o Centro Administrativo, onde hoje é o Bairro Ibituruna, alargar as ruas centrais, incluindo a Dr. Santos, Coronel Joaquim Costa e Dr. Veloso, ligando o ainda bucólico Todos os Santos à Avenida Ovídio de Abreu. O comércio atacadista iria se deslocar para a área onde hoje está o Ginásio Poliesportivo Tancredo Neves. Além da demolição do antigo Mercado Central, no coração de Montes Claros, nada andou.
PALÁCIO
A Câmara Municipal barrou as mudanças, principalmente a desapropriação da área central, o que afetaria os nobres estabelecidos em casas de alto padrão. Palacetes não existem mais. Os familiares de quem se opunha à mudança se espalharam pela cidade afora. O comércio varejista pôs o pé no barranco, ninguém saiu do lugar. A rua Coronel Joaquim Costa ficou larga apenas nas proximidades da Catedral de Nossa Senhora Aparecida, como está até hoje. Depois o comércio varejista desapareceu da área central e se espalhou pela cidade. Agora, é escamoteado pelos grandes varejistas com capacidade de compra. O Centro Administrativo até que deu alguns passos adiante. Hoje vive nova valorização com novos organismos oficiais se mudando para o Bairro Ibituruna.
FUTURO
Toninho Rebelo viu o futuro. Não tinha curso superior, mas tinha letramento suficiente para saber o que viria depois dele. Do tamanho dele só Humberto Souto. A Câmara Municipal inócua, como naquele passado, não tem letramento, mas a alfabetização está em curso. A cidade precisará acordar rapidamente para que se mantenha ativa no campo social e econômico, observando as transformações que o mundo provoca.
LEITURA
“Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto. Ninguém faz uma reflexão; seria raro alguém suportar uma ideia.” Esse trecho é uma fala do personagem Kraft, do romance “O Adolescente”, de Dostoiévski, de 1875.




















