Por André R. Costa Oliveira
Era uma vez um pintor que nasceu ao final do século XIX em Málaga, na Espanha.
Esse pintor teve uma irmã mais nova e de nome Conchita, pela qual foi imensamente devotado.
Ainda crianças, enquanto ele a pintava, notou que estava pálida, sem os costumeiros brilhos nos olhos.
E ela de fato estava, sim, doente.
Com difteria.
Desesperado – e assistindo à tamanha agonia – o jovem pintor fez uma promessa ao Senhor Nosso Deus: que, se a irmã sarasse, ele jamais pintaria novamente.
E daí ela morreu.
E ele então se culpou para sempre, acreditando que Deus o havia antecipadamente castigado porque ele, com certeza absoluta, quebraria a promessa de outrora.
A promessa quebrada e a culpa infantil
Certo é que a relação entre a trágica morte da irmã e a maneira tempestuosa como ele posteriormente se envolveu com as mulheres que passaram pela sua vida tornou-se um capítulo bem doloroso da biografia da arte.
A promessa feita a Deus – trocar a própria vocação pela vida da irmã – colocou o garoto em meio a um conflito intransponível: quando ela morreu, a culpa infantil cristalizou-se na crença mágica de que a sua arte havia sido paga com a vida dela, e de que ele era, de alguma forma, o carrasco (ou o traidor maior) por ter continuado a pintar seus quadros.
Essa experiência – traumática, sofrida, desesperadora – moldou a dinâmica afetiva e criativa do pintor com suas próprias musas, esposas e inúmeras amantes.
Para ele, criar arte nunca foi um ato meramente neutro; era possessão xamânica.
Se a promessa original implicava que pintar custava a vida de quem ele amava, a continuação da pintura exigia uma forma de domínio absoluto sobre o modelo.
Ele precisou “consumir” e “exaurir” a imagem da mulher na tela para, assim, exorcizar o medo arcaico da perda.
O controle obsessivo sobre as telas e as mulheres
As mulheres em sua vida foram frequentemente desconstruídas, fragmentadas, estilhaçadas e reorganizadas em suas telas – um reflexo visual de um controle obsessivo que subjugou a fragilidade que ele não suportava testemunhar, como já testemunhara em sua irmã defunta.
O fardo da culpa gerado pela morte da irmã criou no artista uma ambivalência paralisante em relação ao afeto.
De fato, quando alguém carrega uma culpa tão precoce e irracional, as relações íntimas frequentemente se tornam campos de provação constante.
O pintor elevou as suas companheiras ao status de divindades, “musas intocáveis” para, em seguida, submetê-las a um processo excruciante de desvalorização e sofrimento emocional perverso.
Era como se, inconscientemente (ou não), ele precisasse punir a si mesmo por meio do sofrimento e da fragmentação maciça delas todas.
Ou, quem sabe, testar os limites do amor para ver se, mais uma vez, o afeto seria tragado pela morte…ou pelo abandono.
A busca de controle diante da impotência
A morte de Conchita expôs o menino à absoluta impotência diante da doença e da mortalidade.
Na vida adulta, ele compensou essa ferida narcísica impondo um controle férreo sobre seu “ecossistema” pessoal e sobre as parceiras.
O brutal sofrimento que elas todas relataram – marcado por possessividade, isolamento e alternância entre adoração sublime e tirania pérfida – funcionou como muralha defensiva.
Se ele mantivesse o controle total sobre a dinâmica da relação, talvez pudesse evitar o desamparo absoluto que sentiu no quarto de sua irmã pequena após o derradeiro suspiro de vida.
A mulher na tela e o altar sacrificial
Na obra do pintor, a figura feminina frequentemente oscilou entre o arquétipo da nutridora e o da vítima sacrificial.
A violência estilística com que tratava o corpo feminino em períodos de crise conjugal assemelhava-se a uma “autópsia” emocional.
A lona tornou-se o altar onde a promessa quebrada à infância foi permanentemente reencenada: ele pintou a mulher mas, ao fazê-lo, exerceu dominação que destruiu aquela que estava sendo retratada.
A morte de Conchita e a culpa pela promessa não cumprida transformaram o amor e a arte em frentes de uma mesma batalha interna.
Amar exigia controle para prevenir a perda, e pintar exigia uma “valentia” densa e culpada.
As mulheres que passaram pela vida de Picasso (esse era o nome dele) carregaram, sem saber, o peso intangível daquela irmã que ele não conseguiu salvar com o poder de seus primeiros traços.
Fim da história.
(em 08/26)




















