Por André R. Costa Oliveira
Se você algum dia sugerir a alguém que troque a palavra “idoso” pela palavra velho, seja em um texto, um discurso ou um podcast a resposta muito provavelmente será rápida, quase como um reflexo condicionado: “ah, eles não gostam de ser chamados assim”. Daí eu fiquei pensando: será mesmo que eles preferem o eufemismo, a “almofada” na palavra? E então eu conclui que tiraramnos a velhice. Ela foi sequestrada, anestesiada, plastificada – e, como tudo o que é escondido, tornou-se ainda mais temida.
A juventude como religião e o lifting linguístico
As palavras são como espelhos mágicos que mostram muito mais do que deveriam. Freud sabia disso. “Idoso” é mais ou menos a palavra que passou pelo Photoshop – alisaram-lhe as rugas e limaram-lhe os ossos. É um lifting linguístico. A juventude, transformada agora em religião fundamentalista, uma obsessão absoluta, arrastou a língua para o altar do disfarce. E, desde que a juventude virou o valor supremo da permanência e não mais passagem, a velhice parece que virou escândalo, e tudo que ameaça esse altar precisa ser eliminado ou, no mínimo, suavizado. E, quando o corpo incomoda, muda-se o nome.
“Asilo” virou “casa de repouso” – como se a solidão do quarto e o esquecimento proposital de amigos e familiares mudassem com a troca do letreiro. A velhice virou “terceira idade”. E depois, “melhor idade” – como se a morte, agora, viesse com um sorriso e uma taça de Don Perrignon bem gelada.
E, sinceramente, se me vierem com essa coisa toda de melhor idade, talvez eu não seja tão educado. Aliás, pior ainda será se começarem a se dirigir a mim no diminutivo (como se eu tivesse voltado à infância), prática horrorosa que a gente vê no dia a dia. Porque há um cansaço que só o velho conhece: o de ser diminuído por gente que nunca chegou onde ele está. Acredito que ser velho é estar próximo do fim de um capítulo, sem dúvida, e ao mesmo tempo estar completamente inteiro no agora. Velhice é território sagrado, é a borda e a sacada do mistério. É difícil, sim. Mas será que ao negar o seu envelhecer você também não está mutilando a sua própria alma?
O medo da morte e a maquiagem das palavras
A maioria das pessoas, se tivesse escolha, não morreria – muito embora isso seja irrelevante, já que vai acontecer com todo mundo. Mas e o que nós fazemos com o nosso “não querer morrer”? Escondemos. Maquiamos. E mentimos. Descaradamente. Deslavadamente. Isso porque nós também estamos sendo usurpados do conceito “morte”, que muita gente agora chama de Falecimento, Óbito, Passagem, Passamento, Extinção, Desencarne, Perecimento, Término além dos eufemismos tais como Partida, Descanso eterno, Fim da jornada, Sono eterno, Travessia, Recolhimento, Chamado de Deus, Encontro com o Criador e infinitos outros. Só que isso tudo é morte mesmo. O segredo é saber que ela existe e não pensar muito nela, até mesmo por questão de sanidade. Se a morte vier numa cama, que me encontre lúcido, sem tubos nem véus. Não percamos a nossa derradeira experiência. Quero atravessá-la com a lucidez de quem sabe: essa é minha derradeira aprendizagem. Minha última curiosidade viva. Minha aventura ainda inexplorada.
Há uma frase, tão bela quanto um sino antigo: “A morte não é o oposto da vida. É o oposto do nascimento. A vida não tem contrários.” E por isso, a conclusão a que eu chego é de que a mesma mão que apaga a morte, esconde a velhice. E os outros eufemismos que citei há pouco são a tentativa esdrúxula de extrair os “dentes” da verdade. E aí a gente escuta “Não sou velho, sou idoso.”, “Não moro num asilo, moro numa residência assistida.”, “Não envelheço, estou na melhor idade.” Eu tenho medo desses eufemismos como se teme o veneno com sabor de fruta. São bonitos por fora, mas corroem por dentro. Fazem parecer leve o que é profundo. Tentam domesticar o indomesticável.
A força de ser “maravilhosamente velho”
A palavra “Idoso” é como um predador selvagem que perde os caninos. É uma palavra que pede desculpas. Quanto a palavra “Velho”, saibam que ela morde, porque ela é autêntica. A Fernanda Montenegro, o Clint Eastwood, o Ney Matogrosso, o Antony Hopkins, o Mick Jagger, o Paul McCartney, o Ary Fontoura, a Laura Cardoso, o Tony Ramos, o neurocientista Miguel Nicolelis, o Bruce Dickinson (do Iron Maiden), o Gilberto Gil, o meu amigo jurista Ives Gandra são “idosos”? Não. Eles não são idosos. São maravilhosamente velhos. Com plenitude, com história e com presença marcante.
Transformar o velho em “idoso” é dar a ele um cantinho, uma caixinha fofa. O velho incomoda – até quando é calmo. Porque o velho pensa, questiona. Porque, mesmo usando fraldas, ele ainda deseja. Porque, mesmo com dores agudas, ainda ousa rir de si mesmo. Velho quer o mundo. E Idoso quer um passatempo.
Se a gente olhar para a Literatura, verá claramente essa diferença. “O Velho e o Mar” de Hemingway, é título de epopeia. Imaginem se o livro fosse “O idoso e o mar”, por exemplo? Isso é panfleto de academia de hidroginástica. Guimarães Rosa em seu conto “Fita no Cabelo” escreveu: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.” E se substituíssemos por “idosos que idosavam”? A poesia simplesmente acabaria. Ser velho é uma glória. Ser idoso, é usar uma camuflagem tática.
O cultivo do espírito velho
Desde que entrei recentemente aos 50, começaram a me dizer que tenho “espírito jovem”. E eu sei que isso é um elogio generoso, só que eu prefiro muito mais cultivar o espírito velho. Esse, sim, é sábio. Carrega cicatrizes como medalhas. Ri de coisas que antes matavam. Caiu e levantou tanto que já não teme o chão. Já não se impressiona com gente que brilha por cinco minutos, com ostentação barata, com frivolidades. O espírito velho tem profundidade. Tem raízes. Já sabe que tudo passa. Que quase nada vale tanto quanto parecia. Que as dores têm forma – mas também têm fim. Que as perdas, por mais paradoxal que nos pareça, também são gestos de amor. E eu quero sim envelhecer ainda mais o meu espírito. Quero-o mais afiado, mais terno, mais curioso e ao mesmo tempo mais incisivo. Que saiba rir antes de chorar. Que saiba calar sem desistir. Que saiba viver a perda como quem colhe algo. Eu ainda sou bem tolo, pois carrego pesos que não me pertencem. Mas desejo, de verdade, chegar de repente aos oitenta mais engraçado, mais intenso e mais livre do que hoje. Mesmo que existam as limitações da nossa inescapável biologia.
Envelhecer o espírito é expandi-lo. É abrir os olhos para a vastidão daquilo que nunca saberemos. Só os jovens e os ingênuos de coração acham que já sabem tudo. O velho, como disse Oscar Wilde, “não é mais jovem o suficiente para saber tudo”. É na velhice que moramos na dúvida e nos apaixonamos por ela. E por isso mesmo rebelar-se é preciso. É imperioso. Não deixar que nos roubem as palavras, nem os seus significados. Não consentir com essa estética da linguagem que alisa tudo, que empacota a vida em rótulos aparentemente inofensivos, porém traiçoeiros.
E. quando chegar minha hora, por favor, me chamem de velho. Me sentirei digno, reconhecido, inteiro. Que vejam as marcas no meu rosto como quem lê um mapa. E que saibam que envelheci de fato. A velhice, meus amigos, é a consumação apoteótica da juventude.
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