Por Wagner Gomes
No Brasil de hoje, a cidade de vidro não tem muralhas visíveis, mas tem limites invisíveis. Não se erguem muros verdes – erguem-se interpretações. O Brasil de hoje, visto por essa lente, é um espelho adaptado do livro denominado Nós.
A obra de Evguêni Zamiátin não descreve apenas uma distopia futurista – descreve o mecanismo eterno do poder quando se convence de que sabe o que é melhor para todos. Aqui, o Benfeitor não precisa mais de farda: veste toga. E fala pouco, mas decide muito.
No romance, o Benfeitor concentra a verdade, define os limites e molda o pensamento. Aqui, a metáfora aponta para um centro decisório que, sob o argumento de proteger a ordem, expande seu raio de ação e reduz o espaço do dissenso.
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O cerco institucional e o hábito da prudência
A população, como em Nós, aprende a andar em linha reta – não por convicção, mas por prudência. O pensamento único não é imposto aos gritos; é sugerido com o peso de decisões que ninguém ousa contestar.
Quem sai da trilha não desaparece – mas passa a existir sob suspeita. O Estado Único de Zamiátin vira, no paralelo, um arranjo onde as fronteiras entre os Poderes se tornam elásticas – e a exceção começa a parecer regra.
Não há muralha física, mas há um cerco institucional: decisões que se acumulam, interpretações que se sobrepõem, até que o debate público passe a orbitar um único polo. O Executivo observa. O Legislativo assiste ou boicota. Às vezes protestam, mas como figurantes que conhecem o roteiro: sabem onde começa o discurso e onde termina a ação.
O cidadão comum e a ilusão da estabilidade
Enquanto, no romance, D-503 é um engenheiro -, aqui ele é o cidadão comum. Cumpre regras, paga contas, repete fórmulas. Acredita que ordem traz estabilidade. Acredita na engrenagem – até perceber que pensar fora do eixo tem custo. Sua crise não é ideológica; é existencial.
Questionar virou ousadia. E quando surge sua I-330 – entre nós ela não é, necessariamente, uma pessoa, mas uma ideia. Um impulso. A suspeita de que liberdade não cabe em decisões centralizadas, por mais bem-intencionadas que se apresentem.
A rebelião, nesse cenário, não explode. Ela sussurra. Cresce em silêncio, nos intervalos da normalidade. E o sistema reage como sempre: não com tanques, mas com justificativas.
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O pedágio da felicidade pela uniformidade
No fim, a promessa continua a mesma do Estado Único: felicidade pela ordem, segurança pela submissão, estabilidade pela redução do conflito.
Só há um detalhe incômodo – antigo como o próprio Zamiátin: ninguém gosta de descobrir que a gaiola era confortável… até perceber que era uma gaiola.
E a grande tese de Nós aparece nua: quando o poder promete felicidade pela uniformidade, cobra liberdade como pedágio.








