Por Wagner Gomes
A frase é de efeito – e efeito, em política, costuma ser um disfarce elegante para a memória curta. Quando Lula da Silva diz que “um aloprado destrói em 4 anos o que a gente fez em 20”, ele convoca o passado. Pois bem: o passado atende – e não chega manso.
Dez anos após o impeachment de Dilma Rousseff, o retrato segue nítido. As “pedaladas” não foram detalhe contábil; foram maquiagem de um desequilíbrio estrutural. Empurrou-se a conta para debaixo do tapete enquanto o país afundava numa recessão que esmagou emprego, renda e confiança. O vento externo era ruim, sim – mas foi a mão doméstica que virou o leme na direção errada.
Os sinais do presente e a reação institucional
E é aqui que o presente pede licença – não para repetir, mas para alertar. No Lula III, reaparecem sinais conhecidos: expansão fiscal pressionando regras, metas elásticas, soluções “criativas” rondando o caixa e relutância em enfrentar despesas rígidas. Não é a cópia fiel do passado, mas tampouco é novidade.
Só que, hoje, o freio institucional reage mais rápido: o custo aparece nos juros, na desconfiança e no investimento que hesita. A credibilidade fiscal virou o oxigênio do crescimento – e falta de oxigênio não se resolve com discurso.
A narrativa, contudo, insiste em reescrever a cena e embaralhar as responsabilidades. Os “aloprados” seriam sempre os outros – nunca os que erraram, nunca os que insistem em testar os limites do possível com o dinheiro do contribuinte.
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A cobrança por coerência e o papel das urnas
A história não aceita maquiagem eterna; ela cobra coerência. No fim, não se trata de um confessionário, mas de um compromisso verificável. Um mea culpa seria elegante – e improvável.
O que vale são atos: regra respeitada, meta cumprida, transparência sem truques. Caso contrário, a pergunta que Lula reavivou volta com mais força: quem, afinal, destrói – o que chega ou o que insiste em brincar com o alicerce?
Em ano de eleições devemos ter em mente que a história recente mostra que erros fiscais, manipulações e decisões ruins, também, vieram de onde hoje se reivindica o monopólio da lucidez. Trocar um risco por outro, embalado em linguagem mais elegante, continua sendo risco.
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A urgência da lucidez sem indulgência
A urna não é confessionário nem altar moral. É instrumento de escolha imperfeita. E lucidez, de verdade, não é escolher um lado porque o outro assusta – é cobrar de todos, sem indulgência seletiva.
A política pede lucidez, mas isso é um artigo escasso no Brasil. Lucidez não combina com cegueira conveniente.


















