Há uma tentação antiga no futebol brasileiro: quando a Seleção fracassa, procura-se um rosto para colocar na fogueira. Hoje, esse rosto é o de Neymar. Tentam crucificá-lo como se ele fosse, sozinho, a causa direta e indireta das nossas derrotas. Até o presidente Lula, desprezando a liturgia do cargo que ocupa, resolveu debochar sobre o tema.
Essa injustiça cômoda, serve mais para esconder os verdadeiros problemas do que para enfrentá-los. Neymar pode ser criticado. Nenhum jogador está acima da crítica. Mas transformar sua trajetória na Seleção em sinônimo de fracasso é uma mutilação da memória. É pegar um artista inteiro e julgá-lo por uma tela rasgada. Estamos falando do maior artilheiro da Seleção Brasileira nas contas da FIFA, superando Pelé em gols oficiais pela camisa amarela.
Neymar pertence ao altar dos grandes jogadores brasileiros. Ele carregou a Seleção por mais de uma década. Foi o jogador em quem depositamos a velha e preguiçosa fantasia nacional: a de que um craque, sozinho, pode corrigir um sistema torto. A Seleção Brasileira fracassou porque há anos confunde improviso com identidade, vaidade política com projeto esportivo, troca de técnico com reconstrução e marketing com futebol.
O problema não é um camisa 10. O problema é uma estrutura que perdeu o rumo e depois pede GPS ao atacante. É justamente por isso que a continuidade de Carlo Ancelotti não deve ser tratada como detalhe administrativo, mas como eixo de reconstrução. Ancelotti não é uma aposta exótica nem um nome decorativo para entrevista coletiva. É um dos maiores treinadores da história do futebol mundial, dono de uma carreira vitoriosa, respeitada e rara.
Um profissional desse tamanho não pode ser chamado apenas para apagar incêndio; precisa receber tempo, autoridade e ambiente para construir. Projeto não nasce de soluço. Nasce de continuidade. Se o Brasil quer voltar a ser Brasil, precisa abandonar a cultura do improviso redentor. Não há camisa sagrada que compense gestão profana. A permanência de Ancelotti deve ser vista como oportunidade rara de trocar o desespero pelo método, o palpite pelo trabalho, a ansiedade pelo amadurecimento.
A Seleção não precisa apenas de um técnico vencedor. Precisa permitir que ele trabalhe como vencedor. Porque até um maestro como Ancelotti desafina se a orquestra toca cada um por conta própria. A crise da CBF, marcada por disputas internas, instabilidade administrativa e suspeitas de interferências externas, expõe algo maior: o futebol brasileiro, pentacampeão dentro de campo, vive frequentemente como amador fora dele.
Até a menção a uma suposta influência de Gilmar Mendes ou de pessoas próximas ao seu entorno nas articulações da CBF revela o tamanho da confusão institucional. Quando a administração do futebol vira assunto de tribunal, gabinete e bastidor, a bola passa a ser quase coadjuvante. E aí sobra para Neymar. Porque é mais fácil culpar o craque do que encarar o edifício rachado. É mais simples apontar para a tatuagem, o cabelo, a rede social, a queda no gramado, do que perguntar por que o Brasil não tem continuidade técnica, planejamento de base, comando transparente e uma ideia clara de jogo.
Neymar virou biombo. Atrás dele se escondem dirigentes, cartolas, vaidades e incompetências. Em qualquer país do mundo, Neymar seria tratado como um gigante futebolista. Não como santo, porque santo não dribla. Mas como patrimônio esportivo. Como um jogador raro, desses que fazem a bola parecer menor, o campo parecer maior e o adversário parecer atrasado para o próprio enterro.
No Brasil, entretanto, temos uma habilidade especial: moer nossos ídolos ainda vivos para depois fazer estátua quando já não podem responder. Parte da torcida parece incapaz de aceitar que grandeza e frustração possam habitar o mesmo corpo. Neymar não ganhou uma Copa do Mundo. Zico também não. Sócrates também não. Falcão também não. Isso diminui a beleza de suas carreiras? Claro que não. O futebol não é uma linha de produção de troféus. É drama, acaso, dor, brilho, erro, redenção e queda.
É justamente porque se pode perder que ganhar tem gosto de eternidade. A beleza do futebol está nessa crueldade luminosa: o melhor nem sempre vence, o herói às vezes erra, o favorito cai, o gênio se machuca, o time pequeno resiste, o gigante chora. Quem só aceita o esporte quando ele confirma suas expectativas não ama futebol; ama planilha. E futebol, felizmente, ainda não cabe no Excel.
Neymar não precisa ser absolvido de tudo para ser respeitado por muito. Essa é a maturidade que falta ao debate. É possível reconhecer seus excessos e, ao mesmo tempo, honrar sua importância. É possível lamentar suas ausências e, ainda assim, lembrar dos gols, das assistências, dos dribles, das noites em que ele foi a única fagulha de imaginação em uma Seleção burocrática.
É possível dizer que ele não foi Pelé sem fingir que foi pouco. O Brasil deveria aprender a se despedir melhor de seus craques. Deveria olhar para Neymar não apenas pelo que faltou, mas pelo que houve. E houve muito. Houve talento descomunal. Houve recorde. Houve dedicação. Houve pancada. Houve protagonismo. Houve o peso quase desumano de carregar a camisa mais simbólica do planeta em uma época em que a própria Seleção já não sabia bem o que queria ser.
Se a Seleção Brasileira quer voltar a vencer, precisa parar de sacrificar indivíduos para absolver estruturas. Precisa olhar para dentro, reorganizar sua casa, profissionalizar sua gestão, proteger sua história e reconstruir sua identidade. A continuidade de Ancelotti, se tratada com seriedade, pode ser parte desse caminho. Não como milagre importado, mas como método. Não como salvador da pátria, mas como treinador capaz de dar forma, disciplina e maturidade a um projeto que o Brasil adiou por tempo demais.
Neymar não é a explicação do fracasso brasileiro. Ele é, no máximo, o espelho mais brilhante de uma desordem muito maior. E espelhos, convém lembrar, não criam as rachaduras. Apenas as revelam. Neymar merece crítica quando erra. Mas merece grandeza quando se conta a história. E a história, quando for escrita sem raiva de arquibancada e sem ressentimento de ocasião, dirá o óbvio: Neymar foi um dos maiores jogadores que o Brasil já produziu. Um gigante. Imperfeito, sim. Humano, sim. Mas gigante. Porque no futebol, como na vida, perder e ganhar fazem parte da beleza.
A derrota dói, mas também revela. A vitória encanta, mas também passa. O que fica é aquilo que alguns jogadores conseguem deixar no gramado: memória, espanto, emoção. E Neymar deixou tudo isso.
Passado o luto esportivo, quando a raiva baixar a voz e a memória voltar a enxergar sem febre, quem ainda quiser crucificá-lo que carregue os pregos. Eu prefiro guardar os gols — como quem guarda retratos de uma alegria que, mesmo ferida, ainda sabe iluminar; como quem se despede com nobreza, ouvindo a bola rolar, saudosa, no fundo da memória.




















