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Quando a inteligência vira crise

Ilustração conceitual de um escritório executivo com holograma de inteligência artificial fraturado, simbolizando o risco de crise econômica global.

Wagner Gomes

E se a euforia com a inteligência artificial esconder a semente de sua própria crise? A hipótese levantada pela consultoria americana Citrini não é profecia, mas um teste de estresse: em dois anos, a AI deixaria de ser promessa e se tornaria força desorganizadora do comércio, do emprego e das finanças globais.

O ponto de partida é plausível. Se agentes inteligentes passam a replicar funções típicas de softwares corporativos, o poder de mercado das empresas de SaaS encolhe. Licenças perdem valor, margens comprimem, e a resposta defensiva — cortar trabalho humano e automatizar ainda mais — acelera o ciclo.

Como em certos choques comerciais descritos por Krugman, o ganho de eficiência vem acompanhado de destruição concentrada: alguns poucos capturam escala global; muitos perdem relevância local. No estágio seguinte, a própria lógica do consumo muda. Se algoritmos decidem compras, comparando preços sem lealdade a marcas ou plataformas, os “moats” evaporam. Intermediações caras — de delivery a seguros — tornam-se frágeis. Pagamentos também: agentes transacionando entre si por moedas digitais contornariam taxas tradicionais.

O mercado celebra produtividade; ignora, porém, a erosão das bases de receita. A macroeconomia entra em terreno movediço. A produtividade sobe, mas o emprego qualificado cai. Aqui ecoa Stiglitz: mercados não se ajustam magicamente quando a renda se concentra e a demanda enfraquece. Piketty lembraria que, se o retorno do capital tecnológico supera de longe o crescimento da renda do trabalho, a desigualdade deixa de ser efeito colateral e vira engrenagem do sistema.

Surge o “PIB fantasma”: máquinas produzem, mas não consomem. Com menos renda circulando, crédito e imóveis sofrem. Estruturas alavancadas, ancoradas em fluxos futuros otimistas, revelam fragilidade. A incerteza paralisa o investimento; reguladores exigem capital; a liquidez seca. Economias dependentes de serviços exportáveis sentem o baque.

O Estado, pressionado, debate tributar processamento de AI ou socializar parte dos dividendos tecnológicos — tentativa de reconstruir a ponte entre eficiência e coesão social, algo que Duflo insistiria exigir evidência, experimentação e foco nos mais vulneráveis. Talvez o cenário seja extremo. Mas ele ilumina uma questão central: quando o insumo antes escasso — inteligência — se torna abundante, nossas instituições, moldadas para outro mundo, ficam obsoletas.

O desafio não é frear a inovação, e sim redesenhar regras de concorrência, tributação e proteção social para que o ganho tecnológico não produza prosperidade sem pessoas. O equilíbrio pode emergir. A dúvida é se chegaremos a ele antes do choque.

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Opinião
Wagner Gomes

À Margem da Notícia

Articulista, escritor e colaborador com foco na política e administração pública. Assina artigos de opinião em importantes veículos e blogs de notícias. É também criador de extenso acervo fotográfico e documental, dedicado à preservação da memória histórica e social de Montes Claros. Seu trabalho abrange a evolução urbana, eventos sociais e políticos, e personalidades que moldaram a região. Participou de projetos literários Livro de graça na Praça, evento anual em Belo Horizonte, além de organizar o livro Zé Gomes, Simples Assim.

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