ALICATE
Montes Claros é exemplo do que está ocorrendo mundo afora. Falta mão de obra em vários setores da construção civil e no piso das fábricas, além de pessoas qualificadas para operar a maquinaria moderna de tecnologia, como energia solar e painéis industriais. Com isso, quem domina a arte do chão de produção industrial — possuindo conhecimento de hidráulica, eletricidade, cimento e dos componentes exigidos para manter a Inteligência Artificial (IA) funcionando — está se tornando ouro no mercado.
PREGO
Na construção civil, o pedreiro sempre reclama que o servente não aparece. Pode ser até mesmo o “meia-colher”, como dizem os profissionais que colocam a mão na massa cimenteira para se referir aos iniciantes na arte de erguer uma estrutura. Faltam eletricistas e bombeiros hidráulicos até para tarefas simples, como trocar um chuveiro. São profissionais que vão cobrar mais caro porque estão se tornando raros.
MUDANÇA
Mas o buraco é mais embaixo. O estigma tradicional associado a esses empregos está diminuindo junto com a queda no valor dos diplomas universitários. O NCCER, órgão americano de treinamento e certificação, aponta que muitos graduados estão começando a migrar para o “cinto de ferramentas”, complementando seus diplomas acadêmicos com estágios em profissões técnicas. Além disso, as horas extras desempenham um papel financeiro atraente e importante no setor.
RODA
O amigo leitor e a amiga leitora sabem o que é algo disruptivo. É tudo aquilo que rompe com o padrão, causando uma mudança brusca ou uma quebra de paradigmas. O termo vem do latim disrumpere (romper) e aplica-se perfeitamente ao mercado e aos negócios. Trata-se da inovação que cria novos mercados ou transforma radicalmente uma indústria, mudando o comportamento do consumidor. O Uber mudou a vida de muita gente, inclusive a dos tradicionais taxistas. Quem não se adaptou, dançou rumo ao ocaso.
TEMPORAL
Essa disrupção está longe de ser a Peste Negra na Inglaterra medieval, época em que os artesãos sobreviventes dobraram ou triplicaram seus salários. No entanto, como o empregador mais novo do pedaço, o setor de tecnologia tem os bolsos mais fundos e, para os trabalhadores, possui um brilho suficiente para deixar outras indústrias em desvantagem. Apesar disso, ainda há quem precise dos serviços de um cisterneiro, profissional muito exigido em um passado não tão longínquo. Hoje, encontrar gente disposta a trabalhar no campo tornou-se a exceção.
PREPARAR
Compare Messi e Cristiano Ronaldo. Dois ídolos do futebol. Messi é um gênio natural, a prova da radical da desigualdade biológica dos seres humanos, que nenhuma instituição, governo ou engenharia social é capaz de explicar ou anular. Ronaldo é um gênio diferente: o produto da mobilidade social. De origem modesta e com inegável talento para o esporte, trabalhou incansavelmente para atingir a excelência. Um operário do futebol que atingiu as alturas pelo esforço e pela abnegação.
OPERÁRIO
Cristiano Ronaldo é o exemplo de quem precisa se esforçar para chegar à excelência. Essa busca pelo aperfeiçoamento, contudo, é uma opção cada vez mais rara na formação socioeconômica atual. Daí a falta de mão de obra qualificada ou de pessoas querendo colocar a mão na massa, inclusive pelo conhecimento de favorecimentos que se tornaram mais fáceis e que exigem menos esforços.
NÚMEROS
Uma pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgada em dezembro passado aponta que 68,8% dos beneficiários do Bolsa Família que tinham entre 11 e 14 anos em dezembro de 2014, e 71,25% dos que tinham entre 15 e 17 anos, deixaram o programa até outubro de 2025. Neste ano, o FMI (Fundo Monetário Internacional) apontou que o Bolsa Família não tem reduzido sistematicamente a participação de mulheres na força de trabalho. Quer dizer: diante das circunstâncias, muitos homens se afastam e as mulheres assumem mais tarefas e responsabilidades.
FESTA
Há uma visão fortemente paternalista e assistencialista embutida na cabeça dos políticos de maneira geral, seja no Poder Executivo ou no Legislativo. O presidente Lula é um exemplo disso. Talvez a cultura de “dar o peixe” continue a impregnar muitos sonhos de realização. No entanto, nem tudo o Estado pode e tem condições de dar – a não ser que o foco sejam os penduricalhos salariais, como esses que adornam o Judiciário, os Legislativos e os Executivos país afora.








