Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Da Bucólica Vila ao Som Automotivo: A Perda das Tradições e do Sossego Rural

fotografia conceitual contrastando uma antiga igrejinha do sertão mineiro com um carro de som potente e luzes em ambiente rural.

CONFINS

Vila dos Confins, de Mário Palmério, foi lançado em 1956. O leitor é transferido para o sertão mineiro. O deputado federal Paulo Santos chega a um lugarejo recém-emancipado, revelando o cenário geográfico e a atmosfera de tensão das vésperas da primeira eleição municipal. Mas o cenário rural, árido e simples, exibe um tempo que desaparece, vai longe no lombo do burro.

IGREJA

O livro é aberto junto ao alvorecer, exibe o sertão como um mundo de chão branco e arenoso. A Vila aparece de forma gradual na linha do horizonte: o buritizal, o muro do cemitério e a igrejinha azul-e-branco. Revela um espaço físico isolado, rústico e distante dos grandes centros. O pano central a ser exibido é a disputa eleitoral com o coronel Chico Belo e o deputado Paulo Santos. Está lá a inexperiência política da gente da vila diante da novidade da eleição oficial.

PENHA

Há, por exemplo, Maria da Penha, a mulher oferecida, que, de tão adúltera, leva o marido ao suicídio. Ou o da falsa tocaia, que Paulo simulou, pondo a culpa num capanga dos liberais que não errava tiro (sendo então a mentira descoberta). Ou o do pitoresco estratagema para garantir a compra de votos, que consistia em distribuir notas cortadas ao meio, com a promessa de entregar a outra metade depois de confirmada a eleição. Há tragédia, com a boiada que estoura na balsa, empurrando uma jovem rio abaixo. Tem Xixi Piriá, mascate de ímpeto heroico.

🟢 LEIA TAMBÉM: O Offline Virou Luxo: A Busca pelo Desligamento em um Mundo Conectado

VILA

O início do livro tem um galo cantando ao longe. Ele canta e outro recanta. Vai tecendo o alvorecer com aquela cantoria gostosa ao sabor de ventos leves, chamando à vida. Muitos de nós já podem ter convivido com esse enredo, de reconhecimento e compreensão fáceis. Mas vai rareando.

SOM

Vejam só o contrário. No último final de semana, início de agosto das ventanias, no povoado de Vista Alegre, a Panorâmica atual, zona rural, distrito de Nova Esperança, antigo Veados (Fazenda Veados), houve aglomeração popular a que denominaram festa. Não uma quermesse, como nos tempos anteriores, com bandeira, leilão, missa campal com o padre visitante. Não. Quando alguém chamar você para uma festa na roça, às vezes, é bom tirar a tradição da sua mente.

BRIGA

Lá em Vista Alegre, o regabofe em questão foi uma disputa entre potentes carros de som e dançantes que em nada lembram catopés ou o cortejo da marujada. Nada disso. Bebida a rodo, mais substâncias que inebriam a inconsciência e a inconsistência. Moças combalidas e pernas às temperaturas baixas, pouquíssimos cavalos estacionados nas cercas quase inexistentes.

ALTURA

O som era tão alto que se tornava inaudível. A mistura das letras remetia à depreciação da mulher, atos sexuais em níveis de prazer como num livro naturalista, determinista e antropofágico. O morador que queria sossego ao desejar uma casa no campo perderia a temperança. Foi o que teria motivado o início de uma briga naquele território sem limites para decibéis. Um policial atirou contra caixas de som embutidas em carros e acabou agredido, sofrendo ferimentos graves. A festa continuou. Todo final de semana, em vários bairros da cidade, também é assim.

🔴 LEIA MAIS: Corpos são encontrados em represa na zona rural de Francisco Sá; caso pode estar ligado a tentativa de furto

LIMITE

Montes Claros um dia foi bucólica e mantinha tradições nas áreas rurais. Havia violeiros e cantadores, como Nivaldo Maciel, que era daquela região. Havia Zé Coco do Riachão, água antes cristalina que nascia em Nova Esperança. O sapateado rústico e puro daqueles tempos tornou-se um quadro dependurado em qualquer parede da casa de pau-a-pique ou enchimento que ainda há de se achar.

GRADE

Nem polícia toma conta. Costumes tradicionais não combinam com caixas de sons ambulantes que têm como meta aniquilar a paz e o sossego do galo cantando ao amanhecer.

Compartilhe:
Opinião
Benedito Said

Detalhes

Benedito Said é jornalista e radialista desde 1973. Dono de um estilo próprio, é comunicador respeitável, mantendo público cativo em seu programa Comando das Sete, na Rádio Educadora. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Montes Claros e Secretário Municipal da Educação. É professor. Toda essa experiência confere a ele conhecimento, experiência e o domínio de um texto que mistura temas relevantes com humor refinado e rara ironia.

Please select listing to show.

Publicações que também pode te interessar...

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade