Em uma época em que a tecnologia apresenta avanços inimagináveis, presenciamos também o surgimento de uma geração que, motivada pelas facilidades tecnológicas, parece estar atrofiando, pouco a pouco, sua capacidade de raciocinar.
Houve um tempo em que exercitávamos a mente estudando a tabuada, lendo livros e revistas como a Seleções Reader’s Digest, publicação em formato de bolso que reunia artigos condensados de interesse geral, histórias reais, reflexões e humor. Essas leituras, além de entreter, contribuíam para nossa formação intelectual e nos estimulavam a pensar.
Hoje vivemos na era da imagem e da informação instantânea. Grande parte das pessoas encontra no celular respostas prontas para quase tudo. Não há mais a necessidade de pesquisar, comparar, refletir ou construir uma opinião. Basta perguntar.
Com o passar dos anos, essa dependência tecnológica pode criar um perigoso comodismo mental. O raciocínio imediato vai sendo substituído pela resposta pronta, e a capacidade de analisar os fatos passa a ser transferida para a tecnologia.
E assim, pouco a pouco, essa atrofia intelectual pode transformar uma parcela da população em uma verdadeira massa de manobra. Queremos tudo pronto, explicado e mastigado. A capacidade de observar, questionar e analisar vai perdendo espaço.
E quando deixamos de pensar, também deixamos de admirar.
A Perda do Senso Crítico e o Império do Conformismo
Perdemos a capacidade de reconhecer a beleza, a harmonia, a qualidade e aquilo que realmente merece ser admirado. O bom gosto passa a ser relativizado e, muitas vezes, aquilo que antes seria considerado sem expressão passa a ser apresentado como arte, enquanto o feio é transformado em algo supostamente belo.
Não se trata de negar a arte moderna ou qualquer forma de expressão artística. Trata-se de questionar a perda do senso crítico: quando deixamos de perguntar o que estamos vendo, por que estamos admirando e qual mensagem aquilo realmente transmite.
A maneira de raciocinar muda. Onde antes existia reflexão, começa a surgir o conformismo.
E o conformismo não afeta apenas a inteligência. Ele também atinge o caráter.
Um indivíduo que se acostuma a aceitar tudo sem questionar pode, aos poucos, perder a disposição de defender suas próprias convicções. Torna-se mais fácil acompanhar a maioria, repetir opiniões alheias e evitar qualquer posicionamento que possa causar desconforto.
E quando alguém apresenta uma análise diferente, questiona uma situação ou aponta aquilo que considera errado, imediatamente surgem aqueles que preferem atacar o autor da crítica a discutir o seu conteúdo.
É mais fácil desqualificar quem pensa do que responder ao pensamento.
E então surge uma pergunta que faço a mim mesmo:
Para quem escrevo?
Estou escrevendo em busca dos aplausos da plateia ou para registrar aquilo em que realmente acredito?
Os aplausos são passageiros. As ideias, as convicções e a firmeza de caráter podem permanecer.
“Quem Ama, Detesta. Quem Detesta, Luta”: A Coragem de Romper o Silêncio
Imaginem uma cidade ou uma região onde as pessoas tenham receio de expressar suas opiniões para não desagradar este ou aquele conhecido. Uma sociedade em que o cidadão tenha medo de que sua opinião contrarie interesses, rompa amizades ou provoque algum tipo de desconforto.
Que sociedade é essa?
Passei muitos anos observando o comportamento das pessoas, o conformismo, a omissão e, algumas vezes, o enfraquecimento do caráter diante das circunstâncias. E percebi algo ainda mais triste: muitas pessoas carregam dentro de si uma insatisfação silenciosa, justamente porque deixaram de defender aquilo em que acreditam.
Por isso pergunto a você, leitor:
Qual é a sua participação no destino da sua cidade?
Qual é a sua responsabilidade diante dos acontecimentos da sua região?
É um escândalo para você quando lê algo que chama sua atenção para uma verdade colocada em palavras?
Ou o verdadeiro incômodo está justamente em alguém ter tido a coragem de escrever aquilo que muitos pensam, mas poucos têm coragem de dizer?
Há alguns anos, assisti a uma palestra do Prof. Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Algumas de suas palavras ficaram guardadas em minha memória e, de alguma forma, contribuíram para minha formação moral e intelectual:
“Em nossos dias, não basta mais a coragem dos tempos de paz. Resta-nos escolher entre ser um herói ou um covarde.”
E ainda:
“Nossa época é de fogo e de lama. Quem não arde como o fogo, é abjeto como a lama.”
Outro pensamento que também me marcou:
“Quem ama, detesta. Quem detesta, luta.”
(Provérbio espanhol.)
E uma frase que sintetiza uma postura diante da vida:
“Eu prefiro ser demolido por aquilo que não suporto, a suportar aquilo que queria demolir.”
Duro? É.
Mas, diante daquilo que acreditamos ser certo, é preciso coragem.
Como dizia ainda:
“A obra é muito boa. Logo, coragem!”
A Escolha Final: Acorda, Montes Claros!
São palavras fortes. E justamente por isso servem como instrumento para um exame de consciência diante do nosso cotidiano.
Não precisamos concordar com tudo. Não precisamos pensar da mesma maneira. Mas precisamos preservar algo que considero essencial: a liberdade de pensar, analisar, questionar e expressar nossas convicções.
Uma sociedade em que todos têm medo de falar é uma sociedade que está deixando de pensar.
E quando uma cidade deixa de pensar, outros passam a pensar por ela.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
Escrever ou não escrever?
Mas sim:
Pensar ou simplesmente aceitar?
Questionar ou se conformar?
Ter coragem para falar ou permanecer em silêncio para agradar?
Eu escolhi escrever.
Não porque tenha a pretensão de ser dono da verdade, mas porque acredito que uma cidade precisa de pessoas dispostas a pensar, questionar e participar.
A história não é construída apenas por aqueles que ocupam cargos. Ela também é construída por aqueles que tiveram coragem de registrar suas ideias, defender seus princípios e não se calar diante daquilo que consideravam errado.
E você, leitor?
Qual é a sua escolha?
Como você está analisando o momento atual?
Que cidade queremos deixar para as próximas gerações?
Talvez seja hora de acordar.
Acorda, Montes Claros!
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