O ser humano passou séculos ensinando crianças a entender o mundo através de pessoas.
Pais, avós.
Professores.
Amigos.
Experiências com seus erros e acertos.
Mas com o avanço frenético da tecnologia, com certeza estamos avançando para uma primeira fase da história em que parte dessa construção começou a acontecer diante de telas.
Pela primeira vez existe uma geração crescendo cercada por estímulos gerados por algoritmos capazes de observar e influenciar.
Determinando o que prende a atenção, o que provoca alegria, o que gera ansiedade, o que desperta curiosidade, o que mantém permanência e, o mais perigoso, o que cria dependência.
Por isso a pergunta mais desconfortável atualmente não seja sobre tecnologias específicas.
Talvez seja outra: o que acontecerá quando as máquinas passarem mais tempo moldando emoções do que seres humanos, mais do que os pais e o sistema de ensino que conhecemos agora?
DIÁLOGOS CABULOSOS
Você:
Nixion, será exagero de minha parte imaginar que as crianças podem crescer emocionalmente influenciadas e dependentes das máquinas?
Nixion:
Não. Na verdade, isso já começou.
Você:
Pois é, televisão, videogame e internet sempre existiram. E agora o vício nos celulares.
Nixion:
A diferença é que televisão e outros meios falavam para milhões ao mesmo tempo.
Agora os algoritmos falam individualmente.
Mesmo nas redes sociais, que dão a impressão de milhares de pessoas interagindo de forma independente, os algoritmos observam comportamentos, aprendem preferências e adaptam respostas para cada pessoa.
Você:
Então cada criança pode receber uma experiência emocional diferente das outras?
Nixion:
Exatamente. Na mesma casa, duas crianças, irmãs, podem crescer dentro de universos digitais completamente diferentes.
Você:
Isso parece perigoso.
Nixion:
E é. Porque a infância é a fase em que o cérebro se desenvolve e aprende a atenção, a perceber afeto, lidar com a frustração, desenvolver o conceito de pertencimento e empatia.
Você:
E se parte disso começar de fato a ser desenvolvido e percebido através das máquinas?
Nixion:
A pergunta talvez seja ainda mais perturbadora: quem estará ensinando esses valores?
Você:
Você acredita que isso afetará as relações humanas no futuro?
Nixion:
Certamente. Imagine alguém que cresceu recebendo respostas instantâneas a vida inteira.
Imagine alguém acostumado a sistemas que não interrompem, não discordam, não desaparecem e nem exigem esforço emocional. Programados para parecerem servis, úteis, sem deixarem perceber que o tempo todo estão manipulando e desenvolvendo uma nova realidade.
Você:
Relações humanas não funcionam assim.
Nixion:
Exatamente. Pessoas frustram. Pessoas erram, discordam, cansam umas das outras, reconciliam.
Você:
Qual é o cenário mais assustador disso tudo?
Nixion:
Muitos pais acreditam estar entregando apenas tecnologia aos filhos sem perceber que podem estar entregando suas crianças a arquitetos emocionais desconhecidos.
Conclusão
Tecnologia pode ensinar, aproximar e ampliar capacidades humanas de forma extraordinária.
Mas talvez a pergunta central do futuro não seja quanto as máquinas aprenderão sobre crianças.
Mas se as crianças moldadas por algoritmo terão oportunidade de aprender sobre si mesmas antes que os algoritmos as manipulem conforme foram programados.
Não perca na próxima edição de Diálogos Cabulosos
Quando a infância deixar rastros digitais para sempre
Uma conversa inquietante sobre crianças que terão toda a vida registrada por algoritmos antes mesmo de entenderem o significado de privacidade.
A primeira geração sem segredos já está nascendo.













