Por Luciano Meira
O mistério das antigas pinturas modernas na Rosa Mística
Durante mais de vinte anos, convivi com uma cena que sempre me chamou a atenção.
Desde a inauguração da Igreja Rosa Mística, em Montes Claros, meus olhos se detinham nas imagens da Via-Sacra. Eram pinturas de estilo moderno, marcadas por traços e rabiscos que procuravam representar alguns dos momentos mais santos e dolorosos da fé católica: a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por diversas vezes, perguntei às pessoas responsáveis pela administração da igreja quem era a autora daquelas obras e por que haviam sido escolhidas para ocupar um lugar tão destacado. As respostas eram vagas. Diziam apenas que a artista era esposa de um juiz, mas nem sequer sabiam informar seu nome.
Pelo tamanho e pela disposição, os quadros ocupavam lugar de destaque nas paredes laterais da igreja. Estavam ali, diante de todos, como parte permanente daquele espaço sagrado.
Durante todos esses anos, porém, uma coisa me intrigava: a reação dos fiéis.
Eu observava seus rostos, seus gestos, seu silêncio. E tinha a impressão de que aquelas imagens não despertavam neles a emoção própria da contemplação da Paixão de Cristo.
Durante a Quaresma, algumas vezes acompanhei o sacerdote rezando a Via-Sacra com os fiéis. E, enquanto meditavam as estações, sentia que faltava algo. Aquele momento, que deveria conduzir a alma à penitência, à compaixão e à contemplação do sofrimento de Cristo, parecia muitas vezes reduzir-se à simples leitura de um texto.
Dentro de mim surgia uma pergunta:
Seria possível que aquelas imagens também nada dissessem aos fiéis?
Por que ninguém comentava? Por que ninguém manifestava sua insatisfação? E por que eu mesmo nunca dizia aquilo que tantas vezes pensava: que aquelas representações, para mim, não conseguiam transmitir a majestade, a dor e o mistério do sacrifício de Nosso Senhor?
Talvez eu temesse parecer um crítico de arte, alguém incapaz de compreender a linguagem moderna. Por isso, guardava comigo aquela inquietação.
Sempre que entrava na igreja, meus olhos encontravam aquelas pinturas e, confesso, meu coração sentia uma espécie de tristeza. Não por acreditar que a arte moderna fosse incapaz de expressar a fé, mas porque, naquele caso, eu não conseguia encontrar nelas a dor de Cristo.
E, ao mesmo tempo, percebia que elas pareciam não tocar profundamente o coração dos fiéis.
A emoção diante do Crucifixo do Senhor Bom Jesus de Bocaiuva
Até que um dia aconteceu algo que mudou completamente minha percepção.
A Igreja recebeu a visita do Crucifixo do Senhor Bom Jesus de Bocaiuva.
Depois das missas, comecei a observar uma cena que jamais esquecerei. Os fiéis se aproximavam do Crucifixo. Alguns permaneciam longamente em silêncio. Outros ajoelhavam-se. Muitos rezavam com os olhos fixos na imagem.
E havia lágrimas.
Lágrimas verdadeiras, silenciosas, que desciam pelo rosto daqueles homens e mulheres enquanto contemplavam o Cristo crucificado.
Naquele momento, senti algo que me tocou profundamente.
Não era apenas uma imagem.
Para aqueles devotos, naquele instante, a cena da Crucificação parecia tornar-se novamente presente. A dor de Cristo deixava de ser uma narrativa distante e transformava-se em uma realidade contemplada pela alma.
Aqueles olhos marejados pareciam dizer aquilo que nenhuma palavra seria capaz de explicar.
Eles estavam diante da dor de Nosso Senhor.
E eu compreendi, então, a força que uma imagem sagrada pode exercer sobre o coração humano.
Nas paredes laterais da igreja, porém, continuavam as antigas pinturas modernas. E eu não conseguia deixar de pensar que, durante tantos anos, talvez muitos fiéis tivessem passado diante delas sem conseguir estabelecer aquela mesma ligação interior com o sofrimento de Cristo.
A tradição da Igreja nos ensina que Deus conhece o coração humano. Conhece nossas lágrimas, nossas dúvidas, nossas alegrias e até mesmo aquilo que não conseguimos expressar em palavras.
E quando um coração sincero busca a Deus, a graça pode agir de maneiras que muitas vezes não compreendemos.
O reencontro com a dor e a majestade da Paixão de Cristo
Foi assim que, em um domingo recente, ao entrar na igreja, tive uma surpresa que me encheu de alegria.
As antigas estações da Via-Sacra haviam sido substituídas.
Diante de mim estavam novas imagens, agora representando de maneira tradicional os momentos da Paixão de Nosso Senhor.
Parei.
Olhei para cada estação.
E senti uma profunda emoção.
Depois de tantos anos, finalmente encontrei ali aquilo que, durante décadas, meus olhos procuraram: a expressão da dor, do sofrimento, da entrega e do amor de Cristo.
Não se tratava simplesmente de uma mudança estética.
Para mim, havia algo muito maior naquele gesto.
Havia uma espécie de reencontro.
Um reencontro entre a imagem e a fé. Entre os olhos e o coração. Entre a contemplação e a oração.
O verdadeiro sentido da Arte Sacra e a gratidão aos Premonstratenses
As ordens religiosas, como os Premonstratenses, cultivam em sua vida cotidiana o silêncio, a oração e a contemplação. Talvez muitos religiosos tenham, ao longo dos anos, passado diante daquelas mesmas imagens e refletido sobre aquilo que elas despertavam — ou deixavam de despertar — na alma dos fiéis.
E talvez tenha sido justamente o tempo, a oração e a graça de Deus que conduziram a essa mudança.
Depois de tantos anos, a Via-Sacra voltou a apresentar, diante dos olhos dos fiéis, a humanidade sofrida de Cristo.
Recordei-me, então, de uma antiga expressão atribuída à tradição da contemplação da Paixão:
“Ó vós que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor.”
Quantas vezes, diante de uma imagem verdadeiramente santa, acontece algo que não conseguimos explicar?
Os olhos contemplam.
O coração se cala.
A oração desaparece por alguns instantes.
E a alma simplesmente permanece ali.
Às vezes, diante de uma imagem de Cristo crucificado, já não conseguimos sequer lembrar uma oração decorada. Não há palavras. Há somente silêncio.
Mas, naquele silêncio, pode acontecer a união mais profunda entre o homem e Deus.
É a piedade que nasce do coração.
É a contemplação que ultrapassa a razão.
É o momento em que a imagem deixa de ser apenas uma representação e passa a conduzir a alma para o mistério que ela representa.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido da arte sacra: não apenas mostrar, mas conduzir o coração para Deus.
Por isso, aos Padres Premonstratenses, deixo minha gratidão e minha admiração.
Agradeço por esse gesto que, para muitos, pode parecer apenas uma mudança nas paredes de uma igreja, mas que, para mim, representa muito mais.
Representa a possibilidade de que um fiel, ao entrar na casa de Deus, possa olhar para a Via-Sacra e reconhecer novamente o rosto sofredor de Cristo.
Que possa parar diante de uma estação.
Que possa contemplar.
Que possa se comover.
Que possa chorar.
Que possa rezar.
E, sobretudo, que possa sentir, ainda que por alguns instantes, aquilo que os santos tantas vezes experimentaram: a presença de Deus no silêncio da alma.
Naquele domingo, diante das novas imagens da Via-Sacra, tive a sensação de que não estava apenas olhando para uma igreja renovada.
Tive a sensação de que estava diante de um encontro com Deus.




















