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Rota 666

Luciano Meira sorrindo sobre uma motocicleta Harley-Davidson em cenário com a floresta amazônica e um rio ao fundo.

Luciano Meira

Tudo começou em 1968, entre os corredores e as salas do Colégio São José e de São Norberto. Éramos jovens, inquietos e, acima de tudo, inconformados. Queríamos entender o mundo – e, se possível, mudá-lo.

Foi nesse espírito que criamos um pequeno jornal impresso e, depois, um mural, batizado de Controvérsia. Ali colocávamos nossas ideias, nossas provocações e nossos sonhos. Talvez sem perceber, estávamos dando os primeiros passos de uma aventura que, anos mais tarde, nos levaria muito além das fronteiras conhecidas.

Éramos um grupo de adolescentes que acreditava que o mundo era grande demais para ser apenas imaginado. Queríamos vivê-lo.

Entre nós estavam Afonso Ramos, Luis Carlos Novaes, Eduardo Gonzaga, Reginaldo e Sidney, o Piu-Piu. Mais tarde, Geovane Biondi se juntaria à turma e se tornaria companheiro de uma das maiores aventuras de nossas vidas.

Nossas reuniões aconteciam na residência da família Ramos, na Rua Irmã Beata. Quando a família viajava para a Europa, a casa ficava praticamente por nossa conta. E nós, naturalmente, aproveitávamos para explorar a adega e saborear os vinhos portugueses enquanto traçávamos planos grandiosos – planos que, na maioria das vezes, pareciam impossíveis.

Até que um filme mudou tudo.

Assistimos o filme “Sem Destino” (Easy Rider – 1969 ) com Peter Fonda , mais de dez vezes.

A história de dois amigos atravessando estradas intermináveis do deserto americano, sobre duas Harley-Davidson, 1.000 cc, despertou em nós uma espécie de febre.

Aquilo não era apenas um filme. Para nós, era um chamado.

Nascia o plano de conhecer o mundo.

Nossa meta inicial era Manaus. Iríamos de carona. Se conseguíssemos juntar algum dinheiro pelo caminho, compraríamos uma Harley-Davidson e voltaríamos pela estrada litorânea do Brasil.

Não tínhamos moto. Não tínhamos dinheiro. Não tínhamos experiência.

Mas tínhamos 17 anos – e, naquela idade, isso parecia ser tudo o que precisávamos.

O primeiro a desafiar a estrada

O primeiro a partir foi Afonso Ramos, que se autointitulava “desbravador”. Era nosso líder e, talvez, o mais ousado de todos.

Sozinho, colocou uma mochila nas costas e pegou a estrada.

Vieram as caronas. Uma após outra. Ele percorreu a Belém-Brasília e chegou a Manaus.

Quando voltou, reuniu o grupo de amigos no Bar Cristal. Com aquele jeito provocador, mostrou uma lista das pessoas que havia conhecido durante sua expedição e perguntou:

– Aqui estão as pessoas que tive oportunidade de conhecer. Agora quero saber: qual de vocês tem coragem de enfrentar o mesmo desafio?

Era uma provocação.

Mas algumas provocações mudam destinos.

Eu aceitei.

Na verdade, há quase dezoito meses eu já mantinha, no meu quarto, um mapa com Manaus marcada por um alfinete. A cidade estava ali, distante, quase mítica, esperando por nós.

Geovane Biondi também se prontificou.

Seríamos dois.

O dia em que não havia mais volta

Tentamos organizar uma rifa para arrecadar dinheiro para a viagem. Não deu certo. Fomos enganados.

A festa de despedida, porém, já havia acontecido.

A data estava marcada.

Não podíamos voltar atrás. Não depois de anunciar aos amigos que partiríamos.

Então, fizemos aquilo que os jovens fazem quando o sonho é maior que a prudência:

colocamos o pé na estrada.

26 de outubro de 1969.

Compramos uma passagem de ônibus até Porangatu, Goiás. Era o máximo que nosso dinheiro permitia.

Dali em diante, a estrada seria nossa casa.

Foram mais de 46 caronas.

Caminhoneiros nos acolheram e logo nos deram um apelido: “Rebit”, referência ao comprimido que alguns motoristas usavam para combater o sono. Nossa missão era simples: mantê-los acordados com nossas histórias.

Quando os caminhoneiros paravam para dormir, eles ficavam na cabine e nós éramos acomodados numa rede, na parte traseira do caminhão, a poucos centímetros do chão.

Na primeira noite, dormir foi quase impossível.

Tínhamos medo dos animais. Tínhamos saudade de nossas camas. E começávamos a compreender que a aventura que havíamos sonhado não seria feita apenas de paisagens bonitas.

Seria feita de medo, fome, cansaço, improviso e coragem.

Belém-Brasília

Durante vinte e cinco dias, avançamos pela Belém-Brasília até finalmente chegarmos a Belém. Naquela época a estrada ainda não estava toda asfaltada.

A estrada nos mostrou um Brasil que nenhum livro poderia ensinar.

Vimos acidentes. Carros capotados. Corpos de pessoas assassinadas às margens da estrada. Vimos a violência e a miséria.

Mas também encontramos pessoas que queriam nos ajudar – algumas delas chegaram a dizer que gostariam de nos adotar.

A estrada, naquele momento, começou a nos ensinar uma das maiores lições da viagem:

o mundo pode ser brutal, mas a solidariedade também existe.

Ipixuna: seis meses no fim do mundo

Em Belém, passamos dois dias procurando emprego.

No último dia, encontramos a EGEL – Empreendimentos Gerais da Amazônia, que nos contratou para trabalhar em um acampamento na Vila Ipixuna, a aproximadamente 280 quilômetros de Belém, na direção de Brasília.

As obras eram de acabamento: canaletas para escoamento da água da chuva, meio-fio e gramagem.

Fomos registrados como apontadores.

Nossa chegada ao acampamento foi uma surpresa.

Éramos os mais jovens: apenas 17 anos.

Ao nosso redor estavam homens que carregavam histórias pesadas e que, por diferentes razões, haviam cometido erros na vida. Aquele lugar era, para muitos, uma oportunidade de recomeço.

Ipixuna era praticamente uma pequena vila. Poucas casas. E muitas delas funcionavam como prostíbulos.

O trabalho não tinha horário certo. A regra era trabalhar enquanto tivéssemos condições.

Não era raro terminarmos depois das nove da noite.

Ao lado do acampamento havia um pequeno rio.

E ali encontrávamos nossa liberdade.

Depois de um dia de trabalho, pulávamos da ponte e mergulhávamos em suas águas. Era nossa forma de lembrar que ainda éramos jovens.

À noite, a luta era contra os mosquitos, os famosos borrachudos. Passávamos Repelex no corpo inteiro, mas eles pareciam não se importar. Mesmo protegidos, acordávamos cobertos de picadas.

O salário era depositado em um banco de Belém. Recebíamos o comprovante bancário e apenas alguns trocados para tomar cerveja.

O lugar desapareceria.

Foram seis meses naquele lugar.

Seis meses que pareciam uma eternidade.

Anos mais tarde, soubemos que a Vila Ipixuna seria alagada pelas águas de uma barragem.

O lugar desapareceria.

Mas ficaria para sempre dentro de nós.

Belém novamente

Depois de seis meses, fomos promovidos e transferidos para Belém.

Passamos a morar na Passagem de Bolonha, 144, em um escritório que também servia como nosso dormitório.

Nossa nova missão era fazer levantamentos da rede elétrica de Belém, da antiga CELPA, anotando os dados dos transformadores instalados nos postes.

Em Belém, encontramos amigos de Afonso.

E, naturalmente, fizemos questão de lembrar a promessa que ele havia feito:

– Meus amigos ainda virão.

Eles haviam chegado.

Dois meses depois, pedimos demissão.

Agora, finalmente, Manaus estava ao alcance.

O Lobo D’Almada

Compramos uma passagem em um camarote do navio que fazia a linha Belém-Manaus.

A embarcação chamava-se Lobo D’Almada.

Tinha três pavimentos e levaria seis dias para subir o rio.

Quando embarcamos, tivemos a primeira sensação verdadeira de que nosso sonho estava prestes a se realizar.

A última parada seria Manaus.

A cidade que durante anos permanecera marcada por um alfinete em um mapa no meu quarto agora estava rio acima, esperando por nós.

Nos primeiros dias fizemos amizade com vários passageiros. Entre eles, uma senhora carioca e sua filha, Rita, que acabou se tornando nossa amiga.

Mas a viagem ainda guardava acontecimentos que jamais esqueceríamos.

O cearense e a piada

A sala de refeições era ampla, com mesas que reuniam até dez pessoas.

Certa noite, durante o jantar, alguém propôs que cada um contasse uma piada.

Eu não tinha nenhuma.

Mas lembrei-me de uma brincadeira que havia escutado no acampamento.

E, sem imaginar o que viria pela frente, falei:

– Se chifre fosse flor, cabeça de paraense seria um jardim.

O problema era que, naquela mesa, havia um senhor cearense, forte, corpulento e com mais de cinquenta anos.

Ele bateu o punho na mesa.

– Seu FDP! Eu não sou corno e minha mulher não é prostituta! Você vai retirar o que disse!

Eu tinha 17 anos.

Era magro.

E naquele instante senti que o tamanho do navio havia diminuído.

Pedi desculpas.

Não adiantou.

Ele queria que eu retirasse a frase.

Fiquei em silêncio.

Lembrei-me de meu amigo, o professor de karatê Akiu Yano, e comecei a olhar nos olhos do homem, tentando descobrir se haveria alguma maneira de me defender caso aquilo se transformasse em uma luta.

O silêncio durou minutos.

Todos esperavam a explosão.

Até que um passageiro se levantou.

Era alto, embora extremamente magro.

Olhou para o cearense e disse:

– O rapaz já pediu desculpas. O caso está resolvido.

O homem insistiu.

Foi então que aquele passageiro, em vez de recuar, assumiu a discussão:

– O rapaz já se desculpou. Como você não quer perdoá-lo, vou dizer eu: se chifre fosse flor, cabeça de paraense seria um grande jardim. Pronto. Agora está resolvido. Se não gostou, venha tratar o assunto comigo.

A tensão virou confusão.

O cearense gritava que não levava desaforo para casa.

O paulista ria e dizia:

– O problema é seu.

Aquele homem chamava-se Ruy, era de Porto Ferreira, São Paulo.

Eu ainda não sabia, mas acabara de conhecer alguém que se tornaria uma das pessoas mais importantes daquela viagem.

E uma amizade que guardaria para sempre.

O homem que pulou no rio Amazonas

O quarto dia de viagem chegou.

Estávamos subindo o rio.

À noite, o grande ponto de encontro era o bar, no terceiro andar do navio.

Por segurança, as portas dos pavimentos eram fechadas durante a noite.

No segundo andar, muitos passageiros dormiam em redes e outros tocavam violão.

Nós gostávamos de ir até lá.

Para isso, fazíamos uma verdadeira acrobacia: subíamos por uma corrente localizada na parte mais alta do navio e descíamos para o segundo pavimento.

Era perigoso.

Um erro significaria cair no rio.

Mas éramos jovens.

E jovens, às vezes, confundem coragem com a sensação de que nada pode acontecer.

Naquela noite, por volta das nove horas, uma senhora carioca estava lendo na área externa do camarote quando viu uma pessoa subindo pela corrente.

Era alguém que vinha do pavimento inferior.

De repente, a pessoa escorregou.

Caiu no rio.

A senhora entrou em pânico.

Correu pelo navio até encontrar o comandante e pediu que ele parasse a embarcação.

O comandante atendeu.

O navio parou.

Um enorme holofote iluminou as águas negras.

E então o silêncio tomou conta de aproximadamente 600 passageiros.

De longe, no meio daquela noite fria e ventosa, ouvia-se o pedido de socorro.

O comandante perguntou pelo sistema de som:

– Há alguém com coragem para resgatar o náufrago?

Ninguém respondeu.

Até que uma voz se levantou:

– Eu vou buscá-lo.

Era Ruy.

O mesmo homem que havia me defendido horas antes.

Ele tirou a roupa, ficando apenas de calção e camiseta, pediu aos marinheiros que o amarrassem com uma corda e, sem hesitar, saltou no Rio Amazonas.

Naquele instante, o homem que eu havia conhecido como meu defensor tornou-se meu herói.

Horas antes, Ruy havia perdido sua carteira com todo o dinheiro que carregava ao subir a corrente para o andar superior.

Nós havíamos pegado um chapéu e percorrido o navio pedindo dinheiro aos passageiros para ajudá-lo.

Por ironia do destino, uma das pessoas que se recusaram a contribuir naquela ocasião era justamente o homem que agora estava se afogando.

Ruy não pensou nisso.

Não guardou rancor.

Simplesmente pulou.

Os marinheiros conseguiram içar o homem de volta ao navio.

E aquela história, durante muitos anos, virou uma verdadeira lenda entre os passageiros que faziam a viagem de Belém a Manaus.

Para mim, porém, ela representou algo maior.

Naquela viagem, comecei a compreender que amizade não é apenas compartilhar sonhos. É também estar disposto a mergulhar no escuro quando um amigo precisa de você.

Até então éramos dois: eu e Geovane.

Agora éramos três.

Ruy também faria parte da nossa história.

Manaus: o sonho diante dos olhos

27 de setembro de 1969.

Depois de tantos meses, tantos quilômetros, tantas caronas, tantas noites maldormidas, tantos perigos e tantas histórias, finalmente estávamos chegando a Manaus.

Subimos à parte mais alta do navio.

Diante de nós estava a imensidão da Amazônia.

O encontro das águas do Rio Negro com o Rio Amazonas surgiu diante dos nossos olhos como uma pintura impossível de descrever.

O vento batia forte no rosto.

E eu comecei a chorar.

Não era tristeza.

Era alegria.

Era a emoção de quem havia perseguido durante anos um ponto no mapa e, finalmente, estava diante dele.

Manaus não era mais uma cidade distante.

Era real.

Estava ali.

A aproximação do navio ao porto aconteceu diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Olhei para ela e pedi proteção.

Naquele instante, uma pergunta atravessou minha cabeça:

O que seria de nós naquela terra tão distante?

O que seria de nossas vidas a partir daquele momento?

Não tínhamos a resposta.

Tínhamos apenas 17 anos, algumas economias, uma amizade construída na estrada e um mundo inteiro pela frente.

Mas tínhamos chegado.

A aventura que começara com um jornalzinho chamado Controvérsia, alimentada por sonhos adolescentes e inspirada por um filme assistido mais de dez vezes, havia nos levado até a Amazônia.

Nós não tínhamos Harley-Davidson.

Não tínhamos dinheiro.

Não tínhamos um plano seguro.

Tínhamos apenas a estrada.

E, às vezes, é justamente quando não sabemos para onde a estrada vai nos levar que começamos a descobrir quem realmente somos.

A nossa Rota 666 não passava pelo deserto do Arizona.

Ela atravessava o coração do Brasil.

E, para dois garotos de 17 anos, aquela estrada foi o começo de tudo, de uma nova vida.

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Opinião
Luciano Meira

O Outro Lado da Moeda

Diretor e consultor de negócios com ampla visão estratégica, voltado para o desenvolvimento de processos produtivos, gestão empresarial e inovação. Reconhecido pela capacidade de identificar oportunidades, otimizar operações e implementar soluções que agregam valor ao mercado.

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