Por Andre R. Costa Oliveira
O aviador, a guerra e o mito de Antoine de Saint-Exupéry
Acredito eu que quase todo mundo conhece o escritor, ilustrador e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry (29 de junho de 1900-31 de julho de 1944). Ou, ao menos, um de seus últimos livros.
Saint-Exupéry foi um exímio piloto, realizando várias missões de reconhecimento sobretudo ao longo da Segunda Grande Guerra, quando a sua aeronave (um bimotor P-38 Lightning, de fabricação norte-americana), alvejada pelas forças alemãs em 31 de julho de 1944, desapareceu próximo à costa de Marselha, e cujos destroços foram encontrados somente no recente ano de 2004. Tais destroços hoje estão em permanente exposição no Museu do Ar e do Espaço em Le Bourget (França).
No que diz respeito ao seu legado literário, registre-se que Saint-Exupéry publicou obras importantes à aviação e que, até mesmo nos dias de hoje, são de extrema relevância técnica, tais como L’Aviateur (O aviador) – 1926, Courrier sud (Correio do Sul) – 1929, Vol de nuit (Voo Noturno) – 1931, Terre des hommes (Terra dos Homens) – 1939 e Pilote de guerre (Piloto de Guerra) – 1942.
Só que o mais famoso de seus livros (que vendeu cerca de 250.000.000 de cópias, e ainda vende) não aborda navegação aérea, meteorologia, teoria aeronáutica, motores de aviões ou missões de alto risco. Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe), de 1943, foi um sucesso absoluto (embora o autor não tenha vivido tempo suficiente para testemunhá-lo). Na história de ficção – sem querer, aqui, dar qualquer spoiler – um piloto cai com a sua aeronave em um deserto árido, ali encontrando uma criança frágil, de cabelos loiros, e que alega ser nativa de um planeta distante.
Com uma escrita simples e direta (tanto para jovens quanto para adultos), o autor nos mostra, pela convivência entre ambos os seus personagens, a necessidade de reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. Heidegger chegou a escrever que o Pequeno Príncipe talvez fosse a maior das obras existencialistas já criadas.
A descontextualização do clichê e a dita “responsabilidade”
Li em algum lugar que O Pequeno Príncipe foi um dos livros mais traduzidos na História, ficando atrás somente da Bíblia cristã e do Alcorão islâmico. Não sei se é verdade. Mas, de uma coisa, eu tenho certeza absoluta: traduções e interpretações descontextualizadas de quem quer que seja levam a entendimentos tolos, e que empobrecem a magnitude de seu conteúdo.
Quase todo dia a gente escuta de alguém (querendo ser “legal”) a frase que, sem dúvida, é a mais famosa de todo o livro: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Gente, a real é a seguinte: eu odeio essa frase; eu acho essa frase horrorosa; eu acho essa frase inverídica e desonesta. Não por culpa do autor do livro. Mas sim pela maneira esdrúxula com a qual frequentemente é utilizada, ao tentar justificar obrigações que não existem, bem como cobranças e comportamentos egoísticos dos que a pronunciam. Além disso, eu afirmo que 99,9999% dos espertalhões que a declamam (a fim de parecerem mais inteligentes e “pegarem” as meninas da balada com um papo mais “cabeça”) jamais sequer abriram, muito menos folhearam O Pequeno Príncipe.
E tem mais: caso essa “pérola” estivesse redigida a giz colorido em algum cardápio de restaurante de estrada, bem ao lado dos “limpíssimos” banheiros (ou “bois”, como a comunidade carcerária os alcunha), o significado e a (des)importância deturpadas seriam exatamente as mesmas.
O contexto no Capítulo XXI: A raposa, a rosa e a etimologia do “cativeiro”
Lá no livro, a malfadada frase em questão é pronunciada por uma raposa ao Pequeno Príncipe no capítulo XXI, se não me engano. O diálogo em si começa em algumas páginas antecedentes, quando o Pequeno Príncipe indaga a raposa sobre o que seria a palavra “cativar”. A raposa explica sobre a criação de laços, sobre a empatia, sobre o querer bem ao próximo, e ainda exemplifica da seguinte forma: “Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…” (acho até que tem uma “pegada” meio Goethe nessa hora).
Logo em seguida o menino conta a história de uma rosa que o havia cativado. Ao final do episódio, a raposa – que a essa altura já havia se afeiçoado a ele – diz (e aí sim com extrema sabedoria): “O essencial é invisível aos olhos”. Essa é uma frase muito foda, e que sintetiza super bem o livro. Boto fé. Na sequência, a raposa então arrebata: “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.” (…) “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…”
Originalmente, a frase “Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé” foi traduzida pelo imortal da Academia Brasileira de Letras Dom Marcos Barbosa). Todavia, o sentido colocado na literatura portuguesa brasileira é absurdo. Eu não sou eternamente responsável por aquilo que cativo!!! O que eu “cativo” é tudo aquilo que construo. São os relacionamentos, a empatia, a gentileza, a misericórdia, a esperança dada aos que dela necessitam, a verdade e o conhecimento que intercambiamos, e que libertam o humano.
A necessidade de reciprocidade e o fim dos relacionamentos abusivos
E por que eu digo isso? Porque a bendita da “responsabilidade” sobre a qual falamos há de ser recíproca. Bilateral. Sinalagmática. Do contrário, a responsabilidade se transforma em obrigação desconfortável; ônus; tédio; repetição; encargo; aprisionamento; e, por derivação…em cativeiro (aliás, em latim, “cativar” provém de “captivare”, o mesmo que “escravizar”, dominar”, “pegar”, “agarrar”, “tomar”.
Eu não acredito que o Saint-Exupéry pensou que a “responsabilidade” a que se referiu pudesse ser, ao mesmo tempo, “cativeiro”. Se assim o fosse, o falecido escritor/aviador seria o precursor de uma cultura de vitimismo e de relacionamentos abusivos.
Todo santo dia alguém utiliza essa frase no intuito de receber atenção, ou de obrigar você a fazer (ou a deixar de fazer) alguma coisa. Ninguém é responsável por alguém a quem “conquista”(para utilizarmos uma palavrinha mais formosa). Conquistar é fazer por merecer. É amar bonito e, ao mesmo tempo, ser amado lindamente. É dizer que ama e escutar que é amado. É andar de mão dada a uma outra mão que também busca pela sua. E isso, lamentavelmente, nem sempre é eterno. Deve florescer a cada dia. Deve enamorar-se como no primeiro encontro.
Seja responsável por fazer o bem e por buscar justiça. Seja responsável por si próprio, para que aqueles que lhe cercam não abusem de um sentimento nobre como se você fosse um idiota, um covarde incapaz de se indignar diante das afrontas e ainda de reagir a essas afrontas. “Cativar”, ou cuidar, ou proteger, ou seja lá o verbo escolhido: jamais se esqueça de que você próprio também merece e necessita dos cuidados necessários. Se você “cativa”, seja também “cativado”. Água, terra boa e luminosidade adequada. Eis os principais ingredientes.





















