Em quase todas as manifestações de rua vistas recentemente Brasil a fora percebe-se, ainda que incipiente, aqueles que pedem o retorno dos militares. Para a esquerda instalada no Governo tratam-se de golpistas misturados à multidão trabalhando para o fim do regime democrático brasileiro e retorno à ditadura.
Será?
Artigo publicado no Estadão pelo jornalista José Roberto de Toledo, em setembro deste ano, revela um dado interessante: apenas 15 por cento da população se diz satisfeita com o jeito como o regime democrático funciona no Brasil. Deste percentual apenas 1% está muito satisfeito e os demais 14% satisfeitos.
Outro aspecto curioso. Realizada pelo Ibope, a pesquisa é parte de uma série de levantamentos iniciados em 2008 – meados do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva -, e tem como público a população com idade para votar.
Ainda segundo o artigo no Estadão, 36% se diz ” pouco satisfeito” e 45% “nada satisfeito”. Número que impressiona considerando que este sentimento é compartilhado pelos diversos extratos da população entrevistada, pobres e ricos; semianalfabeto ou com diploma universitário; homens ou mulheres; brancos e negros ou católicos e evangélicos.
Apresentando pequena inflexão no Nordeste o resultado é consolidado de Norte a Sul e de Leste a Oeste, percebido tanto nas capitais quanto nas cidades do interior.
A pesquisa mostra que a democracia chegou a um nível crítico de insatisfação, mas não esclarece o porquê.
As causas desta descrença generalizada e crescente com a democracia podem ser várias. Na série histórica do levantamento o índice de insatisfação mais alto havia sido registrado em 2013 após a onda de protestos de rua, chegando ao patamar de 29%. No ano seguinte se acomodou em 22% para neste ano bater nos 45% de “nada satisfeito”.
A decepção com a economia e os escândalos revelados pela Operação Lava Jato podem ser causas para este efeito. De igual forma a insatisfação atinge da presidência da República a governadores e prefeitos, além de senadores, deputados federais, estaduais e vereadores.
Em Montes Claros será interessante acompanhar e tentar aferir se e como este estado de insatisfação influirá nos resultados da campanha eleitoral que acontece ano que vem.
(Márcio Antunes 06/10/15)
Nota do Editor: Este ensaio foi escrito originalmente em 6 de outubro de 2015. Sua republicação hoje, na coluna Sem Mordaças, funciona como uma verdadeira profecia política. Muito antes de a polarização e as rupturas institucionais se consolidarem nas urnas nos anos seguintes, este texto já captava o “vírus” da crise. O grande trunfo da análise é a desconstrução do rótulo fácil. Ao questionar o argumento da esquerda de que os manifestantes eram puramente “golpistas”, o texto usou dados frios e demográficos para provar que a insatisfação com o funcionamento da democracia não era um delírio ideológico de nicho, mas um sentimento transversal – que cortava classes, raças, religiões e níveis de escolaridade -, identificando ali o início do colapso da confiança institucional que pavimentou o caminho para a ascensão da nova direita e do movimento bolsonarista no país.







