Nos últimos dias, um texto cheio de emoção e saudosismo tomou conta dos grupos de WhatsApp da região. O motivo desse resgate não é por acaso: no último dia 3 de julho, Montes Claros celebrou mais um ano de sua rica história.
Como forma de homenagear a cidade e valorizar nossa identidade, o Minas News publica essa belíssima crônica pela sua extrema relevância no resgate da memória e do patrimônio afetivo montes-clarense. Aproveitamos a oportunidade para parabenizar o autor, Antonio Carlos Dias, pela sensibilidade e precisão ao eternizar em palavras a alma da nossa eterna Princesinha do Norte.
Confira o texto na íntegra:
MONTES CLAROS NÃO EXISTE… NÃO É TRISTE?
Antonio Carlos Dias (*)
Peço desculpas ao amigo Antonio César Drumond Amorim, mineiro de Bocaiúva, por plagiar o título do seu livro “Aldinha não existe… Não é triste? ”, para falar de uma cidade que conheci e amei e que foi varrida do mapa, não existe mais.
Decorridos 42 anos do dia em que parti, volto a percorrer suas ruas, desesperado, à procura de imagens e de pessoas que povoaram minha adolescência e habitam minhas memórias.
É uma busca inútil, quase nada restou. Início minha peregrinação exatamente pelo lugar por onde a deixei, naquele longínquo dezembro de 1962. E aí, a primeira desilusão: a bonita estação da Central do Brasil foi substituída por outra, insossa, fria e feia.
Marejados, meus olhos buscam a pequena rodoviária ali perto, de onde partiam os empoeirados ônibus da empresa Danifi que ligavam nossa Princesinha do Norte à Capital. Não a encontro. Também não vejo ali perto o outrora garboso Tiro de Guerra 87.
Angustiado, rumo para a Catedral, descendo a avenida tantas vezes percorrida de mãos dadas com a namoradinha. Alvíssara! Não a derrubaram, ainda. Ei-la, bela como sempre. No meu delírio, penso ver o Padre Agostinho Beckausen, o enfezado padre alemão que não me permitia namorar atrás da sua igreja.
Chego à Rua Lafaiete, atual Cel. Joaquim Costa; cadê os bordéis de Beta, de Manga Rosa, de Quelemência, de Amanda, de Goiana e de Chica? Desapareceram, como também desapareceram os de Roxa e de Miana e aqueles que funcionavam nos sobradinhos da rua Padre Augusto.
Na antiga zona boêmia, hotéis e casas comerciais tomaram o lugar das pensões que abrigavam aquelas raparigas maravilhosas, que tanto prazer e gozo proporcionaram às nossas gerações. Por onde andarão Fulôzina, Braulina, Perolina, Nair, Maria de Bonito, Belinha Velha, Belinha Nova, Elisa, Capixaba, Bilé, Etelvina, Ana Rosa, Otelina, Mariinha, Pernambucana, Alice, Branca, Edna, Dió, Anita, Flor de Maio, Maria Loura, Maria da Lapa, Pingo, Amélia, Elzinha, Edite, Leobina, Maria de Levi, Margarida, Júlia, Wanda, Maria José, Ana Reis, Anália, Aurora, Rochilda, Cacimira e tantas outras? Ninguém as conhece, ninguém se lembra delas. É ingratidão demais, Deus meu!
Como um zumbi, sigo em direção à Governador Valadares, onde moravam meus pais. A casa do Coronel Tunico Maia, que ocupava todo o quarteirão em cujo imenso quintal muito brinquei à sombra de jaqueiras, mangueiras, cajueiros e abacateiros, transformou-se num horrível amontoado de prédios mal projetados.
Até uma rua inteira, a Morrinhos, que ligava a Ouro Preto à Padre Augusto, desapareceu. Como desapareceram as pensões de Dona Maria de Marçal – mãe dos meus amigos Oire, João Balaio e Kalu – e a de dona Lió, mãe de Chamorro, eterno reserva de Coronel no gol do Ateneu. Por falar em pensões, a mais charmosa delas, a Pensão Guimarães, onde morava a elite bancária da cidade, também sucumbiu. Como sucumbiram os hotéis Glória, São Luiz e Santa Cruz.
Chegando à Governador Valadares, quase choro ao ver a casa da minha avó, agora transformada num horrível caixote de quatro andares. Da minha saudosa rua desapareceram o solar do Coronel Philomeno Ribeiro e a casa do Dr. Sinval Nogueira, onde morava um menino de nome engraçado: Eros Públio.
Desvairado, corro para a Praça Dr. Carlos e me assombro com o que fizeram com o sobrado do Banco Mineiro, residência dos meus amigos Paulinho e Fernando Gontijo, filhos do gerente. Virou um caixote tão feio quanto a casa da minha avó. Por que os arquitetos da cidade não protestam contra obras de tanto mau gosto? Não vejo a Farmácia Santa Terezinha, nem as drogarias Americana e Central.
Desesperados, meus olhos buscam os carro-de-praça de seu Mário Alencar, de Antonio Moleque, de Lúcio Malveira, de Maroto, de seu filho Lima, de Odilon, de Moacir, que ficavam estacionados em frente à Sapataria de Penalva. Não estão mais lá.
Desolado, vou em direção ao Mercado e, aí, o golpe é mortal: foi demolido, virou um camelódromo. Não posso acreditar no que os meus olhos vêm, ou melhor, não veem. Oh! Meu Deus! Aquele mercado maravilhoso, onde tantas vezes acompanhei minha mãe nas feiras dos sábados, onde comprava pitombas, rosários de coquinhos, geleia de mocotó, umbu…. Aquele mercado maravilhoso onde se achava de tudo – até terra de cemitério para se fazer uma boa macumba –; aquele mercado tombou, vitimado pela insensibilidade de políticos e pela omissão do povo.
Como um louco, corro em volta do camelódromo, procurando as lojas que complementavam e davam charme ao velho mercado. Cadê a Casa Mato Verde, A Vencedora, a Casa Ely, a Sapataria Futurista, a loja de Antonio Paulino, o Armazém Neves, a Casa dos Alumínios e Loyola & Cia. Mentalmente, releio suas placas, todas confeccionadas pelo genial Godofredo Guedes, que nelas registrava sua inconfundível marca “GG”. Outras lojas, como a Imperial, a Casa Alves, a Casa Luso Brasileira, Zacalex, a Casa Prates, as Casas Pernambucanas, as Lojas Fátima também são finadas.
Atravesso a praça em busca da Casa Colombo, onde trabalhei. Não existe mais. Finou-se, como o seu dono, o boa praça Jayminho Rebello. Ah! Jayminho, que pena que eu não tenha podido lhe agradecer, e à Tatá, sua irmã, pelo muito que aprendi com vocês, sempre corretos e justos com seus empregados e clientes.
Continuo minha andança e não encontro a venda do seu Tito dos Anjos, na esquina da Governador Valadares com Simeão Ribeiro, nem o Bar do Zim Bolão. O Café Galo ainda está lá, embora sem o charme dos tempos do seu Augusto, que toda manhã me servia uma média de café com leite e um pão francês – falávamos pão de sal – com manteiga. Jamais encontrei um café com leite e um pão com manteiga tão gostosos.
Busco, em frente, o Grupo Dom João Pimenta, onde concluí o primário. Já era. Como também já era o Carlos Versiani, na rua Belo Horizonte, velho casarão onde a querida dona Nely Pimenta ensinou-me as primeiras letras. Aliás, parece que as minhas escolas tiveram o mesmo triste fim. O Instituto Norte Mineiro de Educação, que funcionava na casa que foi de Dona Tiburtina, transformou-se num clube. Foi ali que, numa noite, o irascível professor Heráclito chamou-me de asno, por ter dormido em sua aula de francês. Também o Colégio Diocesano, do severo Monsenhor Gustavo, extinguiu-se e o seu prédio parece abandonado.
Desespero-me ao ver a igrejinha do Rosário, onde fui batizado, demolida para construírem uma capela velório de gosto duvidoso. Oh! Senhor Deus, onde estavas que não impedistes tamanha insanidade?
Sinto que preciso de um drinque para suportar tanta tristeza. Procuro o Restaurante Intermezzo. Alguém me diz que há muito fechou as portas, a exemplo do Espeto de Ouro, do Mangueirinha, do Mangueirão, do Valério, do Mamoeiro…
E os bares? Os bares e botecos são apenas lembranças. Nunca mais uma brama gelada no Bar Soberano, no Cambuí, no Mestre Cuca, no Big Bar, no Bar Sibéria, no Minas Bar, no Montanhez, no São Benedito. A sorveteria Cubana, ponto de encontro da juventude, ficou na saudade. A Cristal ainda existe, mas, como o Café Galo, sem o encanto daqueles tempos.
A sapataria do Tião Boi era, talvez, o melhor point da cidade depois da Pharmacia Versiani, do seu Mário Veloso. Ambas, como seus respectivos donos, também pereceram.
Paro um transeunte e pergunto-lhe por “Quinhento por Cadáver”. Nunca ouviu falar. Também não conheceu Tuia, Requeijão, Bem Pau Véio, Maria Babona ou Geraldo Pé de Porco. Os pobres dementes da minha infância morreram todos, fisicamente e na ingrata memória da cidade.
Ouço, ao longe, uma charanga. É Leonel e sua boneca, penso, enquanto corro ao seu encontro. Qual nada. Era apenas uma bandinha contratada por um candidato para divulgar sua desonesta propaganda eleitoral.
Certa vez, minha cidade foi citada na coluna de Stanislau Ponte Preta por ter um jornal diário, que circulava apenas duas vezes por semana. Referia-se o saudoso jornalista ao Diário de Montes Claros, que hoje não mais circula. Como não circulam a Gazeta do Norte nem o Jornal de Montes Claros. Também não se ouve mais o som da ZYD7 – Rádio Sociedade Norte de Minas – que gozávamos dizendo que falava para o centro e sussurrava para o Alto do São João.
E os cinemas? Ah! Que saudades das matinês no Cine São Luiz, onde me encantava com os filmes de Allan Rock Lane e Roy Rogers, ou com os seriados de Flash Gordon e Marte Invade a Terra. Cadê o cine Coronel Ribeiro? Cadê o cine Fátima? E os cines Ypiranga, Nova Olinda? E o cine Montes Claros, que ficava na minha rua e em cuja porta, uma noite, vi a maravilhosa Dalva de Oliveira?
E o que dizer do futebol? Ateneu e Cassimiro agonizam. Juventus, Vera Cruz, Ferroviário e Independente já morreram. Como desapareceram seus craques Manoelzinho, Nilson Espoletão, Betinho, Sidnei, João Melo, Durães, Pindoba, Gontijo, Lúcio, Miltinho, Guarinelo, Abreu, Quinquinha e tantos outros. Alguém poderia me dizer por andam Kidão, Dito, Jayme, Almerindo, Buião, Jomar, Bichara, Ozias, Manoelito, Wilson Mocinha, Lado, Tinão, Brant, Lu, Jubert, Ubaldino, Bastinhos….
A Montes Claros da minha adolescência caminha celeremente para a extinção. Em seu lugar surge uma outra, moderna, bonita, com largas avenidas, shoppings, supermercados, orgulho dos seus atuais habitantes.
Mas não é a minha cidade!
Comecei plagiando um Drumond e termino citando outro. Carlos Drumond de Andrade, se aqui tivesse nascido, diria, com certeza, “Montes Claros é uma fotografia na parede”.
A minha Montes Claros não existe…. Não é triste?
(*) Montes-clarense, saudosista incorrigível e apaixonado por seu torrão natal.
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