PASSADO
Em 1909 o escritor italiano Fillip Tommaso Marinetti apontava que a velocidade, a modernidade e a máquina são celebradas como valores de um tempo voltado ao novo e despreza o passado. O filósofo Braudel diz que o diálogo entre os tempos é necessário: “ter sido é uma condição para ser”.
FUTURO
Quem não conhece o passado não sabe o que ele é no presente. Quem não tem passado não existe propriamente. E sabe-se que quando se fala de tempo em Braudel, é a “longue durée” —longa duração—, uma história que se declina mesmo em tempo geográfico. Assim, a partir desse enquadro historiográfico, percebe-se que a modernidade tem um problema estrutural com relação ao conhecimento de si mesma, devido à dinâmica que a caracteriza como aquele tempo que despreza a priori o passado.
ASSIM
Luiz Felipe Pondé explica que, sendo assim, “poderíamos dizer que a modernidade tem uma vocação intrínseca ao vazio em termos de identidade”.
PASSADO
O mundo anterior, incluindo aquele do sertão norte-mineiro, tinha raízes fincadas na família. Hoje, qualquer manifestação familiar, é acusada de conservadorismo, força do patriarcado, imposição de valores que não valem mais para a época de rupturas. Não é estático nesse contexto. No entanto, a ruptura das estruturas familiares em relação aos moldes em que a sociedade foi construída tem seu preço adverso.
CRIME
Um ponto perverso é o avanço da criminalidade. Sem pai nem mãe, sem vínculo social e capturado pelos contextos marginais, jovem fica à mercê do crime com muita facilidade, a começar pelo consumo de drogas, vazio produtivo e sem criar perspectiva ao futuro. Vai de mal a pior. Exemplo máximo é a superlotação de presídios.
QUEDA
Os números em Montes Claros mostram essa queda de estrutura social. Antes, um sentimento natural de limites. Hoje, a necessidade de sair do casulo, sem preparo, queimando etapas, afundando no primeiro poço com ares de realização plena.
ANDARILHO
No passado, fruto de costume medieval e que desaguou no Brasil Colônia, havia peregrinação de famélicos à procura de comida, principalmente. Para marcar esse tempo de mais agruras, medido pelo tamanho da fome, cantava-se uma música infantil, em que a “pobre da peregrina, que andava de porta em porta, com a sua perna torta, pedindo a caridade. Oh! Caridade humana, porque a peregrina é pobre e pede a caridade”.
PEDINTE
Comum eram os andarilhos pelas cidades afora. Montes Claros tinham os seus desafortunados, que batiam ponto em frente a bancos, igrejas, chapéu no chão esperando uma esmola. Os mais humildes falavam em necessitar de um “adjuntório”. Uma ajuda qualquer. Houve governos municipais, movidos pelo assistencialismo, que doavam lonas plásticas para que os pobres erguessem seus casebres periféricos. A pobreza não se misturava com drogas ou ruptura familiar. Muitos saiam das roças áridas à procura de melhor posição na cidade grande. Montes Claros, na época do advento da Sudene, viveu esse boom.
DROGA
Hoje o cenário da pobreza explícita diminuiu. Mas a exclusão visível está na condição de moradores da rua. Montes Claros tem cerca de 800 moradores que vivem em situação de rua, a grande maioria dominados pelo álcool e drogas. Eles se aglomeram em praças, debaixo de pontes e em pontos periféricos. Alguns deles têm cartão de benefícios do governo e acabam nas mãos de traficantes que lhes fornecem as drogas necessárias para que fiquem nos escombros da existência.
MACA
A cidade de Montes Claros tem albergue para receber os moradores em condição de rua, com alimentação e banho, além de cama. Muitos resistem ao acolhimento por não querer restrição às drogas. Há Caps e poucos leitos para saúde mental. Existem seis comunidades terapêuticas oficiais, com 230 vagas cada, para os que desejam a reabilitação. O poder público, governo federal e estadual, entra com ajuda.
ÁGUA
Tem muito chão sendo enxugado sem que se feche a torneira.








