Wagner Gomes
O Brasil escolheu lutar uma guerra com as mãos atadas — e depois se surpreende ao sangrar. Não é falta de polícia. É excesso de dogma. É também uma leniência cultivada por décadas, convertida em hábito institucional e vendida ao público como sinal de civilização. Civilização, porém, não é desarmar a lei diante do agressor; é impedir que o inocente tenha de viver acuado, pagar pedágio ao criminoso e agradecer por sobreviver.
A política criminal vigente, ancorada numa leitura hipertrofiada das garantias constitucionais, transformou o processo penal num culto à forma, onde nulidades salvam réus e a vítima sequer tem lugar. Garantias são indispensáveis, mas não podem ser deformadas até se tornarem salvo-conduto para a reincidência, a fraude processual e a eternização dos julgamentos. Um sistema que examina com lupa cada vírgula favorável ao acusado e trata como nota de rodapé a dor de quem foi roubado, violentado ou morto perdeu não apenas eficiência: perdeu o eixo moral.
O crime organizado opera sem freios e com caixa ilimitado. Compra influência, infiltra estruturas e disputa território como holding do ilícito. A assimetria é evidente: um Estado lento e autocontido versus organizações ágeis e armadas gera derrota progressiva. A recusa ideológica em endurecer o combate, travestida de humanismo, produz o oposto: desproteção social. Crime sem resposta vira precedente; precedente repetido vira costume; costume tolerado vira poder. Dizer que prisão não resolve é senha para a inação, enquanto facções consolidam o país como mercado de narcotráfico. Prisão não resolve tudo, mas a ausência de punição resolve a favor do criminoso. Prevenção e repressão não são rivais: um Estado sério educa, recupera e pune quando necessário.
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Classificar essas facções como organizações terroristas não é exagero, é precisão. Elas dominam territórios, impõem normas, cobram tributos, executam e intimidam o Estado. Produzem medo difuso e corroem a soberania cotidiana. Isso é terrorismo. Ao negar esse enquadramento, o Brasil insiste em tratar um câncer como gripe. Tipificar corretamente não é autorizar abusos, é dar ao Estado instrumentos compatíveis com a ameaça. Poder paralelo não se administra — se enfrenta.
Mais de 150 emendas constitucionais depois, nenhuma enfrentou de modo direto o poder dessas organizações. Outras nações reconheceram o problema e reagiram. Aqui, discute-se semântica enquanto a realidade avança. Sem coordenação federativa, inteligência integrada e blindagem anticorrupção, qualquer estratégia vira retórica cara. Quem hesita na linguagem erra na ação — e paga em vidas. O país precisa decidir: ou reequilibra o sistema em favor da sociedade, com leis eficazes e execução real, ou aceitará — ainda que sem admitir — que o crime venceu. A leniência não é humanidade; é crueldade transferida à vítima, ao trabalhador e às famílias sitiadas pelo medo. Poupar quem viola a lei significa abandonar quem a respeita.
O humanismo verdadeiro não abandona o preso, mas também não abandona a vítima; não admite tortura, mas tampouco normaliza o terror imposto por criminosos; não tolera abuso estatal, mas não transforma a legítima autoridade em motivo de vergonha. Entre o Estado policial e o Estado impotente existe o Estado firme, legal e funcional. O Brasil, contudo, age como se só houvesse duas escolhas: barbárie repressiva ou paralisia virtuosa.Quando o Estado hesita em proteger quem cumpre a lei e se especializa em poupar quem a viola, ele não apenas falha — abdica. E, na história, todo poder que abdica não é reformado: é substituído, quase sempre pela força bruta que fingiu combater. Nesse cenário, o crime organizado deixaria de desafiar o Estado para governar em seu lugar








