Publicidade
Publicidade

Lampião e Luiz Inácio: a Romantização da Barbárie e da Violência como Virtude; e um Apelo ao Povo Nordestino

Ilustração conceitual e crítica sobre o cangaço e a romantização histórica de Lampião no sertão nordestino.

Por André R. Costa Oliveira

A Autoimagem Perigosa de um Chefe de Estado

Em um recente discurso, o nosso excelentíssimo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva proferiu uma frase que reflete um sintoma de profunda e perigosa patologia cultural brasileira: “se o Trump conhecesse, sabe, o que é a sanguinidade de Lampião no presidente, ele não ficaria provocando a gente”.

A declaração, recebida com aplausos por uma parcela da audiência, revela não apenas uma estarrecedora autoimagem, mas também a persistência de um dos mais lamentáveis traços da sociedade brasileira: a idolatria de grandes bandidos e a romantização de suas trajetórias de violência, como a gente vê também no cinema, na literatura, no teatro, na TV e na música.

A Realidade Histórica: Longe do Mito do “Robin Hood” do Sertão

Longe de ser o herói popular que a esquerda brasileira se esforçou para construir, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi um dos mais cruéis e sádicos criminosos da história do Brasil. Sua trajetória, que aterrorizou o sertão nordestino por quase duas décadas, é um registro de brutalidade, psicopatia e sadismo. Documentos históricos e relatos de testemunhas pintam um retrato assustador de um homem que sentia prazer em infligir dor e sofrimento, cujas vítimas preferenciais não eram os coronéis, mas os pobres e miseráveis sertanejos.

As atrocidades de Lampião e seu bando são vastas e bem documentadas. Segundo relatos da época, ele foi responsável direto por mais de mil assassinatos, incendiou cerca de 500 propriedades e matou mais de 5 mil cabeças de gado.

Sua crueldade não conhecia limites e se manifestava em formas particularmente sádicas. Torturava suas vítimas das maneiras mais vis, como obrigar uma idosa a dançar abraçada a um pé de mandacaru até a morte, castrar um ator durante a execução de uma peça teatral e obrigá-lo a refazer a cena esvaindo-se em sangue e exigindo a sua voz mais fina, ou forçar um de seus próprios homens a comer um quilo de sal até morrer. Esses não eram atos isolados de violência, mas expressões deliberadas de uma psicopatia que encontrava satisfação no sofrimento alheio.

A escala dos crimes de Lampião é impressionante em sua amplitude. Além dos assassinatos e das destruições de propriedades, documentos históricos também atestam que ele representou enorme devastação econômica sistemática das comunidades rurais já empobrecidas pela seca e a ausência do Estado.

Lampião não era um revolucionário que buscava transformar estruturas sociais; nunca o foi; era um predador que saqueava sistematicamente os pequenos e médios produtores rurais, acumulando riqueza através do terror. Durante seus 16 anos de atuação, o bando dilapidou impiedosamente os sertanejos, roubando tudo de valor e deixando famílias inteiras na mais absoluta miséria.

Terror Sistêmico, Misoginia e Violência Contra os Vulneráveis

O tratamento dispensado às mulheres era particularmente bestial e revelador da verdadeira natureza de Lampião. Documentos históricos idôneos registram que ele foi responsável pelo estupro de mais de centenas (ou talvez milhares) de mulheres, uma cifra que representa apenas a ponta do iceberg de uma violência sexual sistemática.

Lampião e seus cangaceiros estupravam sistematicamente, muitas vezes na frente de pais, maridos e irmãos, e havia particular prazer em brutalizar mulheres nessas circunstâncias. A prática do estupro coletivo, conhecida como “gera”, era comum entre o bando, funcionando como um mecanismo de dominação e terror contra as comunidades. E quando as hemorragias começavam, estancavam-as com cabos de facão passados na areia quente, para que assim prosseguissem no ato de horror misógino extremo.

Sim, as vítimas mais vulneráveis de Lampião eram as crianças. Meninas eram sequestradas e estupradas, como Dadá, que se tornou “esposa” de Corisco aos 12 anos de idade, ou uma menina cega de apenas 10 anos, estuprada por Zé Baiano, um cangaceiro do bando, na frente do próprio pai. Há ainda a história de Sérgia, uma criança raptada como vingança, que foi violentamente estuprada por Corisco e sofreu hemorragia e infecção gonorreica em consequência. As mulheres do bando eram tratadas como propriedade, podendo ser trocadas entre os homens e abandonadas à própria sorte caso seu “dono” morresse, como se fossem animais descartáveis.

A Construção Ideológica do “Bandido Social” e a Quebra do Mito

O mito do “bandido social”, do Robin Hood do sertão, foi uma construção ideológica iniciada nos anos 30 do século passado por ninguém menos que Luiz Carlos Prestes, esse mesmo, do Partido Comunista do Brasil (aliás nem poderia ser diferente); só que esse mito não resiste à análise dos fatos históricos.

Para que vocês tenham uma ideia, até mesmo o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (falecido em 2012), um entusiasta da tese do banditismo social, rechaçou a figura de Lampião, afirmando que “causar terror e ser impiedoso é um atributo mais importante para Lampião do que ser amigo dos pobres”.

Essa constatação de um intelectual – vinda sobretudo de um intelectual de esquerda – é particularmente significativa, pois demonstra que nem mesmo aqueles inclinados a romantizar o banditismo conseguem sustentar a narrativa heroica de Lampião diante dos fatos.

Lampião não era um revolucionário; era um parasita que servia aos interesses dos coronéis, compartilhando com eles os lucros da exploração dos mais pobres. Ele funcionava como um “miliciano de aluguel”, um mercenário a serviço da manutenção do poder político dos latifundiários através da violência e do terror.

A caracterização de Lampião como psicopata é amplamente sustentada pela documentação histórica. Ele era racista, misógino ao extremo e pedófilo. Relatos indicam que Lampião recusara servir na polícia porque havia policiais negros, revelando uma profunda aversão racial. Católico, jamais depositava moedas aos pés das imagens de Santo Expedito, sob o argumento de que “onde já se viu um santo preto?”. Muito embora tivesse ele próprio a pele escura, exigia ser citado em jornais e em literatura de cordel (encomendadas por ele mesmo ou por coronéis a fim de bajulá-lo) como sendo um homem com a pele “bronze”.

Lampião e sua companheira Maria Bonita (e que de bonita nunca teve nada) também eram vaidosos, porém extravagantes e de profundo mau gosto. Por meio dos coronéis, ambos encomendavam tecidos, adereços, vestimentas que usavam desordenadamente, e que os deixavam caricatos e ridículos, mais ou menos como uma certa primeira-dama atual de um país aqui da América Latina.

Esses não eram desvios ocasionais de comportamento, mas traços constitutivos de sua personalidade criminosa. “Lampião era um monstro, tornou-se um monstro, símbolo de todas as monstruosidades possíveis”, escreveu Graciliano Ramos, em Vidas Secas.

A Inversão de Valores e a Degradação do Debate Público

A fala do presidente Lula, ao se comparar a tal figura, é de uma gravidade ímpar. Ela normaliza a violência e a crueldade, e flerta perigosamente com a ideia de que a “sanguinidade” de um bandido é um atributo desejável em um líder.

A plateia que aplaude tal declaração demonstra uma assustadora inversão de valores, onde a figura do criminoso é exaltada em detrimento de suas incontáveis vítimas. Ao evocar Lampião como um símbolo de força, Lula não apenas insulta a memória das vítimas do cangaço, mas também legitima a violência como ferramenta política.

Essa “bandidolatria” não é um fenômeno novo na cultura brasileira, mas sua manifestação no discurso de um chefe de Estado é um sinal alarmante da degradação do debate público e da erosão dos valores civilizacionais. A romantização de figuras como Lampião representa uma inversão perversa da história, onde o criminoso sádico é transformado em herói popular, enquanto suas vítimas são esquecidas ou minimizadas.

No nordeste brasileiro principalmente, eu fico estarrecido quando vou a restaurantes típicos, por exemplo, e me deparado com aqueles totens (horrorosos) do casal Lampião e Maria Bonita, nos quais a “turistada” coloca o rosto no buraco e faz aquelas fotos bregas, como se fosse lindo ser um cangaceiro assassino. Olha, gente, eu não me deparo com nenhum totem de Adolf Hitler quando vou à Alemanha, ou de Mussolini quando estou na Itália, ou do Jeffrey Epstein lá nos Estados Unidos.

A esquerda brasileira, em particular, tem sido responsável pela construção dessa narrativa falsa, através de obras de ficção, enredos de carnaval e reinterpretações históricas que distorcem os fatos em nome de uma ideologia que confunde banditismo com justiça social. Em um país que ainda luta para consolidar sua democracia e superar um histórico de violência e autoritarismo, a romantização de figuras como Lampião é um veneno que corrói as bases da sociedade.

Um Apelo ao Povo Nordestino

A comparação feita pelo presidente não pode ser vista como uma simples bravata ou uma figura de linguagem. É um sintoma de uma doença moral que precisa ser diagnosticada e combatida com veemência. A sanguinidade de Lampião pertence ao passado de horror do Brasil, e não ao presente ou futuro de sua liderança política.

Quando um presidente se compara a um dos maiores criminosos da história nacional, não está fazendo uma brincadeira; está revelando uma verdade incômoda sobre sua própria autoimagem e sobre a patologia cultural que o sustenta.

A sociedade brasileira precisa enfrentar essa realidade com clareza. Lampião foi um criminoso sádico, psicopata e covarde, um ladrão, assassino e estuprador serial que causou sofrimento incalculável a milhares de pessoas. Suas vítimas, em sua maioria pobres e indefesos, merecem ter sua dignidade restaurada e sua memória honrada.

A idolatria de tal figura abjeta não é um ato de rebeldia ou de solidariedade com os oprimidos; é uma traição explícita às vítimas e um insulto à própria noção de justiça. O Brasil só poderá avançar quando conseguir abandonar a perigosa tendência de elevar criminosos ao status de heróis e, em seu lugar, construir uma narrativa histórica minimamente séria, que honre aqueles que sofreram sob a tirania de homens como Lampião.

Compartilhe:
Psicologia e Comportamento
André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. Também pesquisa História da Arte e Gastronomia como elemento civilizacional intrínseco.

Últimas notícias

Publicidade
Publicidade

Publicações que também pode te interessar...

Publicidade
Publicidade