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A despedida que é, na verdade, um pedido de luta: o recado de Lito

Mesa iluminada por luz natural com um pequeno avião de metal e um microfone, representando o legado e a mensagem de Lito Sousa.

Lito Sousa passou anos ensinando milhões de pessoas a não terem medo de voar. Com conhecimento técnico, didática e uma forma muito própria de conversar, ele aproximou o público de um universo que, para muitos, parecia complexo e assustador. No vídeo “Recado do Lito”, publicado no canal Aviões e Músicas, é ele quem aparece diante de uma rota para a qual não existe manual.

Seria fácil definir o vídeo como uma despedida. Mas seria também injusto. Antes de ser uma despedida, ele é um pedido de luta. A gravação foi feita no dia em que Lito e sua esposa, Mila, receberam a confirmação de uma doença neurológica rara e sem tratamento disponível. Mila conta que demorou a publicar o vídeo porque não conseguia assisti-lo. Ali não está apenas a dor de uma família diante de um diagnóstico devastador; está o instante exato em que a vida, sem qualquer aviso ou delicadeza, separa tudo entre antes e depois.

Mesmo assim, Mila começa falando de possibilidades. Existe um plano A. Existe um plano B. Assim como em um voo, se uma rota não puder ser seguida, outra precisa ser buscada. A família tenta conseguir o uso compassivo de medicamentos experimentais que estão sendo estudados em diferentes partes do mundo. Eles conhecem os riscos, sabem que ainda não existem respostas suficientes e entendem que as empresas não são obrigadas a disponibilizar esses medicamentos fora dos estudos clínicos. Mas, diante de uma doença para a qual não existe alternativa, pedem o direito de tentar. Não é uma mobilização feita a partir da ingenuidade; é uma decisão consciente de quem compreende os riscos, mas também sabe que não fazer nada já carrega uma certeza difícil demais.

Depois, Lito começa a falar. A voz tem pausas. O corpo demonstra o avanço da doença. Mas o pensamento continua lúcido, organizado e profundamente fiel ao homem que o público conheceu ao longo dos anos. Ele decidiu gravar enquanto ainda podia escolher as palavras, compreender o que estava acontecendo e deixar sua própria versão daquele momento. Até diante da possibilidade da morte, Lito continua fazendo o que sempre fez: compartilhando conhecimento.

Ele fala sobre a carreira, os amigos, a equipe, os profissionais que ajudou a formar, a escola que construiu e as milhares de horas de conteúdo que deixou. Fala sobre os erros que cometeu sem guardar mágoa de quem os apontou. Reconhece as pessoas que participaram de sua trajetória e faz questão de dividir os méritos de tudo o que construiu. Quando fala da Lito Academy, não a apresenta apenas como uma empresa; enxerga nela a continuidade de uma missão. Lembra o professor que o formou e fala com orgulho sobre os profissionais que agora também ajuda a colocar no mercado. Seu legado não está apenas em vídeos, números ou seguidores; está nas pessoas que aprenderam com ele e que continuarão levando esse conhecimento adiante.

Mas é quando fala da esposa e do filho que o especialista, o empresário e o comunicador dão lugar ao homem. Lito diz não ter medo de morrer. Acredita ter vivido uma vida boa, sem fazer mal a ninguém. O que o assusta é a dor de quem continuará aqui. Ele pensa na esposa que não saiu de seu lado e no filho com quem ainda queria jogar bola, brincar e dividir muitos outros anos. Em um dos momentos mais duros do vídeo, ele reconhece que “a parte mais fácil é a minha”. A mais difícil será a daqueles que precisarão aprender a conviver com a ausência.

Talvez essa seja uma das verdades mais dolorosas sobre a morte: quem parte encerra a própria experiência; quem fica precisa continuar vivendo com tudo o que não poderá mais acontecer. Mesmo diante dessa consciência, Lito não abandona a esperança. Homem da ciência, ele compreende a gravidade do diagnóstico, toma decisões, organiza o que precisa ser organizado e fala sobre a continuidade dos projetos. Homem de fé, também pede um milagre. Não existe contradição nisso: a fé não o impede de olhar para a realidade, e a realidade não o obriga a desistir da fé. “O jogo só acaba quando termina”, ele repete.

Lito também encontra uma maneira muito particular de compreender o ciclo da vida. Fala sobre a luz do sol que alimenta a vegetação, que alimenta os animais e mantém o fluxo da existência. Tudo se transforma em parte de algo que continuará. Talvez seja a tentativa de um homem da ciência de encontrar sentido para aquilo que nenhum conhecimento técnico consegue tornar menos doloroso. O que mais me atingiu, porém, foi perceber que Lito usou a lucidez que ainda possui para agradecer, reconhecer, perdoar, declarar amor e deixar encaminhado aquilo que continuará depois dele. Enquanto tantos de nós, completamente saudáveis, adiamos conversas, abraços, projetos e demonstrações de amor porque acreditamos que teremos tempo depois.

Vivemos como se o amanhã fosse uma cláusula garantida no contrato da existência. Não é. Lito recebeu uma notícia capaz de interromper qualquer pessoa. Ainda assim, escolheu transformar aquele momento em mais um conteúdo capaz de ensinar. O vídeo não fala apenas sobre a doença de um homem conhecido; ele nos obriga a olhar para a maneira como estamos usando o tempo que ainda temos.

Mas há uma responsabilidade importante ao assistir a esse recado. Não podemos transformar a dor de Lito e de sua família em uma simples mensagem motivacional. Também não podemos decretar uma despedida enquanto eles continuam lutando. O pedido de Mila é claro: a família precisa que a mobilização continue, que a busca pelo uso compassivo dos medicamentos chegue às empresas responsáveis e que o canal e os projetos de Lito recebam apoio.

Terminar este texto dizendo apenas “Força, Lito” seria pouco. Força também é fazer o pedido chegar a quem pode tomar uma decisão. É apoiar o trabalho construído por ele. É respeitar Mila, o filho, a equipe e a esperança que ainda existe. É não transformar uma possibilidade de partida em sentença antes da hora. Talvez Lito tenha gravado o vídeo pensando que poderia ser uma despedida. Ao publicá-lo, porém, ele o transformou em mobilização, declaração de amor e mais uma de suas grandes lições sobre fatores humanos.

Durante anos, ele mostrou que compreender os erros do passado pode evitar novas tragédias e salvar vidas no futuro. Agora, nos ensina algo ainda mais íntimo: enquanto houver vida, ninguém está autorizado a declarar o voo encerrado. O jogo só acaba quando termina. Até lá, seguimos nesta rota com você, Lito.

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Marketing
Adriana Vieira

Antes do Óbvio

Com 17 anos de experiência, CEO da Agência Pharaoh, especializada em branding e estratégias de marketing para empresas. Liderou projetos para empresas bem sucedidas. Seu foco está sempre em garantir resultados significativos para os clientes da Pharaoh Marketing e fortalecer o posicionamento de suas marcas nos mercados em que atuam.

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