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Entregamos a Vida às Máquinas e Ainda Chamamos Isso de Viver

Fotografia ensolarada de uma pessoa deixando o celular virado para baixo na mesa de café enquanto aprecia o momento presente.

Por Adriana Vieira Antunes

A ilusão do amanhã e a sala de espera da felicidade

Talvez você não acorde amanhã. Eu também talvez não.

Essa frase incomoda porque destrói uma das maiores ilusões que criamos para conseguir viver: a ideia de que ainda temos muito tempo. Não sabemos quanto. Nunca soubemos. Mesmo assim, fazemos planos para uma vida inteira como se o amanhã tivesse assinado algum compromisso conosco.

Planejamos o próximo ano, a próxima viagem, a próxima conquista e a vida que começaremos a viver quando tudo estiver organizado. Quando tivermos mais dinheiro. Quando o trabalho estiver mais tranquilo. Quando os filhos crescerem. Quando a casa estiver pronta. Quando encontrarmos alguém. Quando finalmente sobrar tempo.

Mas o tempo nunca sobra. O tempo passa.

O problema não está em fazer planos. Está em transformar o presente em uma sala de espera e viver como se a felicidade estivesse sempre marcada para uma data futura. Passamos os dias preparando uma vida que talvez nunca chegue enquanto deixamos escapar a única vida que realmente está acontecendo.

Evitamos pensar na morte porque acreditamos que ignorá-la nos protege. Não protege. Apenas nos permite continuar adiando o que realmente importa. Deixamos para outro dia o abraço, a conversa, o pedido de desculpas, a visita e o “eu te amo”. Tratamos as pessoas que amamos como se elas fossem permanentes. Como se continuassem exatamente onde estão até que nossa agenda encontre um espaço para elas.

Só que algumas despedidas acontecem sem aviso. Algumas conversas não terão outra oportunidade. Algumas pessoas sairão pela porta pela última vez sem que nenhum de nós saiba que aquela era a última vez.

O vício em telas e a fuga do silêncio

Mesmo diante dessa fragilidade, desperdiçamos uma quantidade absurda de vida tentando fugir da própria vida. Quantas horas passamos assistindo a uma série que nem estamos mais acompanhando? Quantas vezes abrimos o celular sem sequer saber o que estávamos procurando? Movemos o dedo pela tela, de um vídeo para outro, de uma vida para outra, procurando qualquer coisa que nos distraia do silêncio.

Não queremos ficar sozinhos com nossos pensamentos. Não suportamos mais o intervalo, o tédio ou a ausência de estímulo. Se uma conversa para por alguns segundos, pegamos o telefone. Se estamos esperando alguém, pegamos o telefone. Se acordamos no meio da noite, pegamos o telefone. Se estamos diante de uma paisagem bonita, antes mesmo de contemplá-la, pensamos em registrá-la.

Já não sabemos apenas viver um momento. Precisamos transformá-lo em conteúdo para provar que ele aconteceu.

A distopia da Matrix e a economia da atenção

Quando escrevi que estamos nos tornando alimento para as máquinas, pensei em Matrix. No filme, os seres humanos permanecem presos a um sistema, enquanto seus corpos são usados como baterias para alimentar as máquinas. Assistimos àquela realidade como uma distopia assustadora, mas talvez o que mais incomode seja perceber que construímos uma versão muito mais silenciosa dela.

Não estamos dentro de cápsulas. Não existem cabos ligados aos nossos corpos. Ninguém precisou nos aprisionar.

Nós nos conectamos voluntariamente.

As máquinas não estão se alimentando da energia produzida pelos nossos corpos. Estão se alimentando do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos desejos, dos nossos medos, das nossas inseguranças e dos nossos relacionamentos. Cada segundo diante da tela produz informação. Cada busca revela um interesse. Cada curtida entrega uma preferência. Cada pausa denuncia o que chamou nossa atenção.

O nosso dedo substituiu os cabos. As notificações assumiram o controle. E a distração virou um modelo de negócio extremamente lucrativo.

Quanto mais tempo permanecemos presos, mais alguém ganha. A nossa ausência passou a gerar dinheiro. Enquanto acreditamos que estamos apenas descansando ou nos distraindo, existe uma estrutura inteira estudando como impedir que levantemos os olhos.

E funciona.

A desconexão familiar e o espelho para as novas gerações

Estamos fisicamente ao lado de pessoas importantes, mas emocionalmente disponíveis para qualquer coisa que apareça na tela. Sentamos à mesa e não conversamos. Ouvimos sem escutar. Respondemos sem prestar atenção. Interrompemos uma história para conferir uma notificação que, na maioria das vezes, não tinha importância alguma.

Trocamos pessoas reais por estímulos rápidos. Trocamos conversas profundas por respostas automáticas. Trocamos o desconforto necessário dos vínculos humanos pela facilidade de simplesmente deslizar o dedo e procurar algo mais interessante.

Não acredito que o passado tenha sido perfeito. As famílias também tinham conflitos, silêncios e ausências. Mas existia algo que estamos perdendo: a convivência sem a interferência permanente de uma tela.

Depois de um longo dia de trabalho, muitas famílias se reuniam para conversar. Os filhos e os netos ouviam as histórias dos mais velhos. As crianças brincavam na rua, corriam com os amigos, criavam mundos com aquilo que encontravam e tomavam banho de chuva quando os pais deixavam. Não precisavam de um estímulo novo a cada quinze segundos para continuar interessadas na vida.

Hoje, reclamamos que as crianças não largam o TikTok, mas fomos nós que lhes apresentamos um mundo no qual ninguém consegue permanecer inteiro em lugar algum. Pedimos que elas deixem o celular enquanto respondemos mensagens durante o jantar. Reclamamos da falta de atenção delas enquanto somos incapazes de assistir a um filme sem olhar a tela dezenas de vezes.

Talvez elas não tenham perdido a capacidade de viver. Talvez estejam apenas reproduzindo a forma como nos veem vivendo.

Confissão, alerta e a morte do que nos torna humanos

Não estou escrevendo como alguém que observa tudo isso de fora. Também pego o celular sem necessidade. Também já perdi horas vendo uma série. Também percebo que, algumas vezes, minha mão procura o telefone antes mesmo que minha mente saiba o motivo. Faço parte dessa geração que está aprendendo, da pior forma, que estar conectado não significa estar presente.

Por isso, este texto não é uma acusação. É uma confissão e um alerta.

Não podemos atribuir depressão, ansiedade ou crises de pânico a uma única causa. Mas também não podemos fingir que uma sociedade que destrói o silêncio, enfraquece os vínculos, transforma descanso em consumo e mantém as pessoas em estado permanente de comparação seja emocionalmente saudável.

O isolamento adoece. A ausência de vínculos adoece. A falta de sentido adoece. E nenhuma quantidade de seguidores consegue ocupar o espaço de uma presença verdadeira.

Talvez tenhamos limitado demais o significado da morte. Acreditamos que alguém morre apenas quando o coração para, mas existem partes de nós que podem morrer muito antes do corpo. Morre a curiosidade. Morre a capacidade de escutar. Morre o interesse pelas pessoas. Morre a sensibilidade. Morre a presença.

Continuamos respirando, trabalhando, pagando contas, cumprindo compromissos e respondendo mensagens. Por fora, tudo parece funcionar. Mas viver não é apenas manter o corpo funcionando.

Já estamos mortos e ainda nem nos demos conta disso.

A vida continua acontecendo enquanto olhamos para outra coisa. As pessoas que amamos continuam envelhecendo. As crianças crescem. Os encontros terminam. As oportunidades passam. E o tempo não interrompe seu curso para esperar que a gente finalmente decida prestar atenção.

O amanhã pode chegar, e tomara que chegue. Mas ele nunca foi uma promessa.

O pior não será descobrir que a vida acabou. Será perceber que, enquanto alimentávamos as máquinas, deixamos a nossa própria vida morrer de fome.

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Marketing
Adriana Vieira

Antes do Óbvio

Com 17 anos de experiência, CEO da Agência Pharaoh, especializada em branding e estratégias de marketing para empresas. Liderou projetos para empresas bem sucedidas. Seu foco está sempre em garantir resultados significativos para os clientes da Pharaoh Marketing e fortalecer o posicionamento de suas marcas nos mercados em que atuam.

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