Wagner Gomes
Carl Sagan escreveu O Mundo Assombrado pelos Demônios, em 1995, olhando para o horizonte. O problema é que o horizonte chegou mais rápido do que ele imaginava. E desembarcou dividido entre Washington e Pequim. O livro envelheceu como um espelho incômodo do século XXI. Sagan não fazia profecias místicas; fazia diagnósticos lógicos. Percebeu, ainda nos anos 90, que a tecnologia avançaria numa velocidade muito superior à capacidade média das pessoas de compreendê-la. O resultado seria uma civilização hiperconectada, porém intelectualmente vulnerável.
É exatamente o mundo atual. Carregamos no bolso um aparelho celular mais poderoso que a NASA de 1969 para consumir teorias conspiratórias, negacionismo científico e manipulação emocional em escala industrial. A famosa passagem dos “cristais e horóscopos” talvez seja a mais cirúrgica do livro. Sagan não atacava apenas astrologia ou misticismo barato. Falava da substituição do pensamento crítico pelo conforto emocional. Cristais e horóscopos simbolizam a tentação humana de trocar complexidade por respostas instantâneas, dúvida por pertencimento, investigação por fé emocional.
Hoje, o “horóscopo” moderno não vem necessariamente em páginas esotéricas. Surge em vídeos de trinta segundos, influencers messiânicos, coaches quânticos, bolhas ideológicas e algoritmos que entregam apenas aquilo que confirma preconceitos. O cristal mudou de forma: agora pisca em LED e cabe dentro do celular. A genialidade de Sagan está no verbo: “escorregar”. A decadência intelectual chega sorrindo, entretendo, oferecendo dopamina, identidade e certezas prontas.
Os Estados Unidos realizaram boa parte da previsão econômica descrita no livro. Tornaram-se uma potência de serviços, tecnologia e informação, enquanto grande parte da indústria manufatureira migrou para a Ásia. O Vale do Silício converteu-se numa espécie de Vaticano digital. Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft acumulam um poder que muitos governos já não conseguem controlar plenamente. O cidadão consulta algoritmos como antigos sacerdotes consultavam oráculos.
Mas há uma ironia brutal nisso: a sociedade mais tecnológica da Terra tornou-se também terreno fértil para irracionalismos em massa. Terraplanismo, antivacina, radicalização conspiratória e manipulação algorítmica convivem lado a lado com inteligência artificial e computação avançada. A China seguiu outro caminho, mas chegou ao mesmo destino previsto por Sagan. Transformou-se na grande fábrica do planeta e converteu tecnologia em instrumento de poder estatal. Reconhecimento facial, monitoramento massivo e censura automatizada criaram um modelo em que ciência e vigilância caminham juntas.
No modelo americano, o algoritmo seduz. No chinês, vigia. Nos dois, a maioria não compreende o mecanismo que governa sua vida. Sagan temia a mistura explosiva entre ignorância e poder. O século XXI refinou a fórmula: agora temos ignorância amplificada por inteligência artificial, redes sociais e manipulação emocional em tempo real. O livro nunca foi sobre demônios sobrenaturais. Era sobre os demônios produzidos pela própria civilização, quando ela perde a capacidade de pensar criticamente sobre as ferramentas que cria.
Pensando bem, não quero perder o jeito mineiro, onde o chão é duro e o espírito aprende a não pedir licença. Aqui a vida cobra caro de quem tenta fugir dela e o silêncio ensina mais que o grito – e quem não entende isso nunca mais será o mesmo.





















