PRISÃO
Documentos há de sobra. Alguns estão guardados em Arquivo Nacional em Brasília. Mostram como o regime militar vigiava o Brasil, inclusa a cidade de Montes Claros. As células comunistas eram o alvo principal. Há nomes que desapareceram com o tempo. A cidade não os conhece mais. Mas o jornalismo também tinha seus reveses. Prisões ou simples detenções ocorriam ao prazer de quem achava no direito de silenciar vozes dissonantes.
ÚLTIMA
Comuns eram intromissões em redações. O mais visado era O Jornal de Montes Claros, tradicional fortaleza de resistência e questionamento aos que detinham poder. Waldy Senna Batista, hoje combalido pelo tempo, e Oswaldo Antunes não titubeavam em colocar as mãos para exibir as feridas que poderiam afligir a população a mando de quem tinha a caneta do poder na mão. Vira e mexe um censor exibia seus dotes nas redações de máquina Olivetti e linotipos carregadas de chumbo.
PAPEL
Foi com Oswaldo Antunes que foram incentivadas as comunidades eclesiais de base, vinculada à Igreja Católica, o que já causava incômodo. Foi com a caneta de Waldyr Senna que as associações comunitárias foram incentivadas a tomar corpo, ainda na década de 1970. O jornal, batizado de Mais Lido, ficava na Rua Dr. Santos, local em que hoje está a Caixa Econômica Federal. Casa velha e piso de tabua. História para contar.
VISITA
Certa feita, em 1978, por aí, depois de artigo que fustigava a Polícia Militar, então comandada em Montes Claros pelo coronel Fleury, um carro descaracterizado parou na porta da casa de minha tia Had e do tio Nery, antes das seis da manhã. Fui levado ao 10º Batalhão de Polícia para depor num Inquérito Policial Militar. O tenente Jorge, da P-2 e filho do histórico coronel Georgino Jorge de Souza, colheu palavras titubeantes. Meu tio Nery era da Polícia Federal e com o delegado Amaury D’Damúzio, amigo de gente ligada a Neco Santa Maria, lendário líder político desse sertão, eles conversaram sobre o depoimento. O coronel Fleury advertiu o repórter sobre os perigos de seus passos questionadores.
VIAGEM
A última vez que o encarceramento foi real na vida da Imprensa em Montes Claros foi no ano de 1981. O país já prenunciava abertura política, mas o Ato Institucional 5 (AI5) ainda imperava. O advogado Antônio Adenilson escrevera artigo contra juristas e administradores municipais. Não tinha papas na língua. Jogava teias incertas para tudo quanto é canto. Um dos ofendidos foi o promotor Noraldino Rocha Machado, que não gostou da brincadeira de Adenilson, que ria como se não houvesse qualquer consequência. Jornalistas replicaram o texto do advogado e acabaram presos.
CADEIA
Foram presos pelo antigo Dops, que montou quartel em Montes Claros, Waldyr Senna Batista, Oswaldo Antunes, Benedito Said, Américo Martins. Devidamente fichados, todos foram parar em Belo Horizonte e mais tarde em Juiz de Fora, em quartel da Aeronáutica. O advogado montes-clarense Marcos Antônio de Souza, ajudado pelo ex-deputado Genival Tourinho, ferrenho crítico do regime militar, cuidou de libertar a turma, utilizando um habeas-corpus carregado de esperança. Era mês de junho e minha primeira filha nasceria no mês de setembro. Imagine a mulher grávida sem notícias, comunicação difícil, incertezas várias. Mas a gente enfrentava.
FINAL
A história é longa. Vai se apagando na memória e na própria existência. Mas sempre há quem goste de censura e anulação da liberdade de Imprensa. Vejam agora os ministros Dino e Moraes do Supremo.
INTERESSE
Sempre que alguém pensa já ter visto de tudo na política brasileira, logo se prova o contrário. Os ministros do STF Flávio Dino e Alexandre de Moraes induziram nesta semana a esquerda a defender e torcer abertamente pelo retorno de uma restrição à liberdade de imprensa imposta pela ditadura militar em 1969. Essa restrição, o decreto-lei nº 972/1969, foi anulada pelo STF em 2009 por 8 votos a 1, por ser incompatível com direitos constitucionais fundamentais, não tendo sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988. O raciocínio lógico de muitos livres ao falar e escrever com responsabilidade que a lei permite também é de Glenn Greenwald, jornalista, advogado constitucionalista e fundador do The Intercept.



















