Wagner Gomes
A política brasileira entrou de vez na era do meme. Basta abrir as redes: os discursos parecem diálogo de videogame antigo. Aperta-se um botão e sai sempre a mesma frase. Nesse teatro digital, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro (ou seus postes na realidade) às vezes soam como autênticos Non-Player Character – personagens programados para repetir bordões.
O NPC político funciona assim: alguém pergunta sobre inflação e o script responde com o bordão padrão. Troque o jornalista, atualize o cenário, vire o governo ou a oposição – a fala permanece igual. A política em piloto automático. Entra em cena a engrenagem que lucra com todos eles.
Mas o fenômeno não para no palco. Espalha-se pela plateia. Parte dos eleitores entra no modo simp: devoção sem freio. Não importa tropeço, contradição ou frase atravessada – o líder sempre tem razão. O seguidor passa pano, o adversário chama de gado, e cada tribo celebra sua própria mitada ou lacração. A crítica vira blasfêmia.
Por trás desse teatro opera o verdadeiro mestre do jogo: o algoritmo
Daí nasce o ritual cotidiano do doomscrolling. O cidadão abre o celular para ver uma notícia… e três horas depois continua rolando escândalo, meme, vídeo e indignação. Resultado: cérebro em brainrot. Excesso de estímulo, pouca digestão mental.
Por trás desse teatro opera o verdadeiro mestre do jogo: o algoritmo. Ele não vota, não discursa e não aparece na urna, mas escolhe o que cada cidadão verá, odiará e repetirá. Premia o exagero, impulsiona a raiva e enterra a dúvida. Quanto mais previsível a reação, maior o engajamento. A democracia vira uma máquina de caça-níqueis emocional: puxa-se a alavanca, surgem três indignações iguais e o usuário acredita ter formado uma opinião.
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No meio da enxurrada surgem as fantasias políticas. Militantes de ambos os lados acreditam que o seu campeão vai salvar a pátria e inaugurar a idade de ouro nacional. É a política delulu – delirante por definição.
Enquanto isso, o debate público muitas vezes parece… mid. Nem grande estadismo, nem grande tragédia histórica. Apenas barulho repetido. É sobre isso – e aparentemente está tudo bem. E ainda assim cada tribo insiste em enxergar no próprio líder uma aura messiânica, energia de protagonista. Aos políticos, resta farmar aura: uma frase de efeito aqui, uma pose estudada ali, um inimigo conveniente acolá — e o personagem está pronto para mais um episódio.
Do outro lado, claro, está o vilão da história.
Nas redes, a discussão vira um carnaval de memes. Um post biscoita, outro flopou, alguém surta, outro diz que não tanka mais. Em certos momentos o espetáculo atinge um nível tão constrangedor que só cabe uma palavra do dicionário digital: cringe.
No fim das contas, a política brasileira virou um feed infinito. Líderes falando como NPCs, seguidores agindo como simps e o país inteiro preso num doomscrolling coletivo – rolando a tela da história enquanto espera que alguém, um dia, atualize o roteiro.


















