Por Wagner Gomes
Um presidente é eleito para governar um país inteiro. Mas há governantes que parecem mais confortáveis administrando uma parcela da nação do que representando o conjunto dela. Seus discursos deixam de ser pontes e passam a funcionar como trincheiras. A política transforma-se em permanente mobilização contra um inimigo interno.
Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao poder prometendo reconstrução nacional após anos de polarização. No entanto, grande parte de sua comunicação política continua ancorada na lógica do “nós contra eles”, fórmula que mobiliza militâncias, mas desgasta a ideia de pertencimento comum. Em vez de reduzir as fraturas, frequentemente as reforça.
A consequência é um ambiente em que divergências legítimas são tratadas como confrontos morais. Críticos tornam-se adversários permanentes; opositores são convertidos em obstáculos a serem derrotados. A identidade nacional cede espaço à identidade partidária.
Essa lógica também aparece na política externa. Enquanto as democracias ocidentais enfrentam desafios geopolíticos crescentes, o governo brasileiro frequentemente demonstra maior disposição para compreender ou relativizar regimes autoritários do que para enfatizar valores democráticos compartilhados. A busca por autonomia diplomática é legítima; a ambiguidade moral diante de ditaduras é mais difícil de justificar.
No campo da segurança pública, a percepção de parte da sociedade é semelhante. O avanço de organizações criminosas transnacionais elevou o tema ao centro das preocupações nacionais. Nesse contexto, declarações ou posturas que pareçam minimizar a gravidade do fenômeno acabam produzindo ruídos e alimentando críticas de leniência.
Nenhum país se fortalece quando seus governantes enxergam metade da população como plateia e a outra metade como problema. Presidentes passam. A nação permanece. O desafio de um chefe de Estado não é apenas vencer eleições, mas construir um espaço político onde adversários possam continuar sendo compatriotas.
Quando a lógica partidária ocupa o lugar da lógica nacional, a política deixa de ser instrumento de união e passa a funcionar como fábrica de ressentimentos. E países divididos costumam pagar um preço elevado por lideranças que preferem comandar uma torcida em vez de representar uma nação.
Seria injusto, porém, tratar esse fenômeno como exclusividade do atual ocupante do Planalto. O governo anterior também cultivou sua própria versão da política de trincheiras, alimentando antagonismos, transformando divergências em confrontos existenciais e governando mais para os convertidos do que para o conjunto da sociedade.
A diferença está nos personagens e nos discursos; o método permanece surpreendentemente parecido. O Brasil continua preso ao mesmo ciclo: muda o comandante, mas a lógica da divisão sobrevive, postergando o dia em que a política voltará a servir à nação antes de servir às facções que disputam o seu controle.
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