Please select listing to show.

O Hospital Dilson Godinho recebe do SUS 10 reais por cirurgia oncológica-

Em um corredor de maternidade, uma grande rachadura atravessa a palavra SUS pintada na parede. A fissura foi simbolicamente fechada por pontos de sutura, remetendo à luta diária de hospitais públicos para sobreviver com recursos insuficientes. Ao fundo, uma gestante aguarda atendimento enquanto profissionais de saúde caminham pelo corredor, reforçando a relação entre a fragilidade financeira do sistema e a demanda crescente por assistência médica.

AGULHA

Hospitais de Montes Claros, especializados em partos e cuidados necessários aos nascituros, que hão de nascer, não conseguem fechar as contas da maternidade. A tabela do Sistema Único de Saúde paga míseros 70 reais por consulta necessária à futura mamãe. Vai no bolo do prejuízo o preço do próprio parto, que exige ginecologista, obstetra, pediatra e anestesista. O SUS paga 470 reais pelo parto e toda a mobilização necessária para que tudo ocorra em paz.


CÂNCER

Mas o sofrimento é maior. O Hospital Dilson Godinho faz em média 50 cirurgias oncológicas por mês. Por elas, o SUS paga 10 reais. Moço, mas há diagnóstico, exames, guias, ações precedentes ao ato cirúrgico.


BARCA

No final dos anos 1970, uma indústria naval começou a atuar em Pirapora, mantendo escritório no vizinho município de Buritizeiro. A promessa era a construção de chatas, tipo de embarcação de cargas até então comum a trafegar pelas águas do rio São Francisco. Houve pompa e circunstância. Talvez uma chata tenha sido construída com o propósito de transportar grãos entre Januária e o futuro ponto intermodal em Pirapora. Morreu no nascedouro.


BANCO

Na época, prefeituras locais se entusiasmaram e discursos referiam-se à geração de emprego e renda. Sobrou calote para empreendedores, incluindo pequenos comerciantes e rede de restaurantes e hotéis. O assunto foi afundado nas águas assoreadas do Velho Chico. Até hoje, no entanto, estão submersos prejuízos para constas públicas, financeiras e, claro, os comerciantes barranqueiros.


ÁGUAS

O mesmo ocorre em nível nacional com a suposta indústria naval brasileira. Outro dia Lula disse que a indústria naval brasileira vai “dar uma surra nos coreanos e nos chineses”. Com R$ 41,7 bilhões de investimentos em 890 obras está aí o polo naval de Lula. O Brasil corre atrás de uma frota nacional desde o século 17, quando saiu do estaleiro da Ilha do Governador, um dos maiores barcos do mundo, o galeão Padre Eterno. Infelizmente, a frase de Lula só pode ser atribuída aos delírios de um candidato em ano eleitoral. Até hoje, quem levou surras com a indústria naval foi o Brasil.


MEMÓRIA

O primeiro polo naval veio no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Desandou, mas a conta foi quase toda para os estaleiros. É o jogo jogado. Lembra Elio Gaspari que o terceiro polo veio com o Lula no primeiro mandato. Parecia ir bem, quando começou a esfarelar. A primeira grande embarcação produzida no polo foi o petroleiro João Cândido. Adernou no lançamento, em 2000, e passou por reparos durante dois anos. O primeiro polo naval de Lula foi o que custou mais caro ao país. Mais de 100 mil trabalhadores perderam seus empregos.


MAIS

Os Estados modernos trataram de separar política e religião, sobretudo para evitar que os instrumentos oficiais de poder sejam utilizados para impor crenças aos cidadãos. Por vezes, no entanto, essa associação espúria ocorre por motivos bem mais mundanos.


PREÇO

Mas a Câmara dos Deputados aprovou (368 votos a 96) uma proposta de emenda constitucional cujo propósito, na prática, é tornar as igrejas e suas atividades verdadeiras zonas francas livres de aborrecimentos com impostos de qualquer tipo. Vai virar estímulo econômico, caso o Senado dê o referendo. Até quem rede de televisão deixará de pagar impostos e o deputado e pastor Marcelo Crivella disse que até o conforto de helicóptero poderá ser garantido.


Não há milagre, afinal, nessa matéria. O alívio tributário que eventualmente vier a ser concedido às igrejas implicará, necessariamente e na mesma medida, cobrança maior sobre o restante da sociedade. O primeiro propósito consta da Constituição do país desde 1946. Pela redação vigente hoje, o poder público não pode taxar patrimônio, renda e serviços relacionados a finalidades essenciais das entidades religiosas.

Compartilhe:
Outros
Benedito Said

Detalhes

Benedito Said é jornalista e radialista desde 1973. Dono de um estilo próprio, é comunicador respeitável, mantendo público cativo em seu programa Comando das Sete, na Rádio Educadora. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Montes Claros e Secretário Municipal da Educação. É professor. Toda essa experiência confere a ele conhecimento, experiência e o domínio de um texto que mistura temas relevantes com humor refinado e rara ironia.

Please select listing to show.

Publicações que também pode te interessar...

Please select listing to show.