Nos últimos dias, a Prefeitura de Montes Claros anunciou a criação de uma Unidade Básica de Saúde Animal (UBASA), destinada ao atendimento de urgência e emergência para cães e gatos. A nova estrutura será instalada no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), no bairro Santa Lúcia.
Segundo informações divulgadas pela própria Prefeitura, o investimento previsto é de quase R$ 1 milhão. A unidade contará com recepção, consultórios, farmácia, sala de exames, centro cirúrgico, área de esterilização, espaço para pós-operatório, canis e diversos ambientes voltados ao acolhimento e tratamento dos animais.
Tudo isso para atender a uma demanda apresentada por dois vereadores.
A pergunta que fica é: essa é realmente a prioridade de Montes Claros?
Enquanto quase R$ 1 milhão serão investidos em uma nova estrutura para atendimento animal, milhares de pessoas enfrentam diariamente a precariedade do sistema público de saúde. Desde a administração passada — na qual o atual prefeito era vice — o atendimento nas unidades de saúde sofreu profundas alterações, especialmente na marcação de consultas especializadas, criando uma fila única que transformou o acesso à saúde em verdadeiro caos.
Um exemplo claro é a situação dos exames preventivos masculinos. Um pedido de consulta para avaliação da próstata pode levar mais de seis anos para ser atendido. Atualmente, existem mais de 8 mil solicitações aguardando atendimento, número que cresce a cada dia.
Montes Claros possui uma população cada vez mais envelhecida. Cerca de 35% dos moradores são idosos, grupo que, por recomendação médica, necessita de acompanhamento e exames periódicos. No entanto, o sistema municipal não consegue oferecer esse atendimento de forma adequada.
Diante dessa realidade, é difícil compreender a decisão de priorizar uma nova unidade animal em vez de investir na redução das filas, na ampliação dos atendimentos médicos e na melhoria dos serviços prestados à população.
Ninguém questiona a importância da proteção e do cuidado para com os animais. O que se questiona é a definição das prioridades quando vidas humanas aguardam anos por consultas e exames essenciais.
É importante destacar que o próprio Centro de Controle de Zoonoses já dispõe de estrutura para atendimento animal e presta esse serviço há muitos anos, sendo referência no município. Além disso, Montes Claros também conta com hospital veterinário ligado a uma faculdade, o que permitiria a celebração de convênios a custos muito menores do que a construção de uma nova unidade.
Por isso insisto com a pergunta: seria realmente necessário investir quase R$ 1 milhão em uma nova estrutura?
Enquanto isso, os 22 vereadores, que têm a responsabilidade constitucional de fiscalizar os atos do Poder Executivo, permanecem em silêncio diante de uma situação que afeta diretamente milhares de famílias montes-clarenses.
Vejo nessa iniciativa mais uma ação de forte apelo político e midiático ao invés de uma resposta às necessidades mais urgentes da população. Também chama a atenção o silêncio de instituições que deveriam acompanhar de perto a aplicação dos recursos públicos e a definição das prioridades administrativas.
Montes Claros precisa discutir seriamente suas necessidades prioritárias. Antes de criar novas estruturas, é preciso garantir que a população tenha acesso digno àquilo que é mais básico: atendimento médico, exames e consultas em tempo razoável.
Acorda, Montes Claros!








