À medida em que se aproximam as eleições, Montes Claros começa a receber novamente os visitantes políticos que passaram três anos e meio longe da cidade e que agora reaparecem, aproveitando as festividades e os eventos para se aproximar do eleitorado.
Os políticos que vivem na cidade, por sua vez, procuram sair do anonimato, criando cenários que os apresentam como os grandes salvadores de Montes Claros. Alguns falam dos feitos de suas famílias; outros repetem que “a cidade precisa de…”; há aqueles que destacam atendimentos médicos, enquanto outros surgem com grandes promessas.
No passado, esse tipo de discurso muitas vezes surtia efeito. A informação era concentrada em poucos meios de comunicação: televisão, rádio e jornais. Hoje, entretanto, a realidade é completamente diferente. O eleitor tem acesso a uma quantidade enorme de informações e pode comparar discursos, verificar números, acompanhar resultados e cobrar aquilo que foi prometido.
Houve uma época em que o professor Ruy Klamann, da Coordenação do Curso de Administração da Unimontes, entrevistava candidatos para conhecer seus objetivos, suas propostas e as metas que poderiam contribuir para o desenvolvimento regional. Era uma oportunidade para que o eleitor conhecesse, de forma mais aprofundada, o pensamento daqueles que pretendiam representá-lo. Infelizmente, essa prática se perdeu no tempo.
E o Norte de Minas?
O Norte de Minas possui um enorme potencial político e econômico. Com uma população eleitoral expressiva, a região poderia ter uma representação muito mais forte no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa.
Entretanto, ao longo dos últimos anos, sentimos falta de grandes projetos regionais capazes de transformar essa representação política em resultados concretos. Projetos estruturantes para Montes Claros e para o Norte de Minas deveriam estar permanentemente na agenda dos nossos representantes.
Onde estão os grandes projetos regionais? Onde estão as propostas capazes de inserir Montes Claros definitivamente nos grandes programas de desenvolvimento dos governos federal e estadual?
Duas áreas são particularmente importantes para o futuro da cidade: saneamento e transporte ferroviário. São setores fundamentais para a infraestrutura, para a atração de investimentos e para a competitividade regional.
Não basta ocupar uma cadeira no Legislativo. É preciso apresentar projetos, articular recursos, defender a região e, principalmente, ter uma visão de futuro.
A propaganda das emendas
Há poucos dias, circulou nas redes sociais a informação de que Montes Claros teria recebido mais de R$ 400 milhões em emendas parlamentares.
Mas é preciso separar anúncio de resultado.
A liberação de recursos públicos exige articulação, aprovação, projetos, execução e acompanhamento. Em muitos casos, os recursos anunciados não significam, necessariamente, obras concluídas ou transformações estruturais para a cidade.
Também existem emendas destinadas a associações e entidades para a execução de ações específicas. Tudo isso pode ser legítimo e importante. Porém, não podemos transformar cada emenda em uma grande conquista política sem perguntar: qual foi o impacto efetivo desse recurso para a população?
O eleitor precisa aprender a diferenciar anúncio de realização.
Uma emenda anunciada não é uma obra concluída. Uma promessa não é um resultado. Uma fotografia ao lado de uma autoridade não é um projeto de desenvolvimento.
Barragens, usinas e promessas
E assim a cidade e a região vão sendo alimentadas por discursos que falam da barragem tal, das usinas solares, das grandes obras e das oportunidades que estão chegando.
Mas quase ninguém pergunta: quem estará preparado para executar esses projetos?
Onde estão as escolas profissionalizantes? Onde está a formação da mão de obra especializada?
Montes Claros já teve instituições que foram importantes para a qualificação profissional e para o desenvolvimento da mão de obra destinada às indústrias. Uma delas foi a antiga Escola Técnica, que teve papel relevante nesse processo e que acabou perdendo sua função original.
Não podemos falar em desenvolvimento sem falar em educação profissional.
Não podemos anunciar grandes investimentos sem preparar pessoas para ocupar os empregos que esses investimentos poderão gerar.
Desenvolvimento não é apenas construir. É preparar pessoas, criar oportunidades, gerar renda e transformar a realidade econômica da região.
E a Câmara Municipal?
Enquanto isso, na Câmara Municipal surgem alguns pretendentes a candidatos a deputado.
Mas cabe uma pergunta incômoda: aqueles que pretendem representar Montes Claros em outras esferas já cumpriram plenamente a função para a qual foram eleitos?
Uma das principais funções do vereador é fiscalizar o Poder Executivo, acompanhar as contas públicas, discutir políticas públicas e defender os interesses da população.
Além disso, o vereador deve participar ativamente da construção de uma visão de futuro para a cidade.
Não basta fazer oposição por conveniência. Também não basta apoiar o Executivo por conveniência.
É preciso fiscalizar quando necessário, apoiar quando correto e, acima de tudo, defender o interesse público.
Quando o silêncio prevalece diante dos problemas da cidade, o eleitor precisa perguntar: quem está realmente trabalhando por Montes Claros?
O eleitor está percebendo?
Essa talvez seja a principal pergunta.
O eleitor está percebendo esse apagão de visão de futuro?
A resposta estará nas urnas.
Na eleição municipal de 2024, dos 277.710 eleitores aptos a votar em Montes Claros, 187.328 compareceram. Isso significa que 90.382 eleitores não foram às urnas. Somados aos 23.570 votos anulados mencionados nesse levantamento, chega-se a um contingente superior a 113 mil eleitores que não escolheram nenhum dos candidatos por meio de um voto válido.
Esse número merece reflexão.
Mais do que simplesmente enxergar esses eleitores como pessoas desinteressadas, precisamos perguntar por que uma parcela tão expressiva da população não encontrou, nas opções apresentadas, uma candidatura capaz de despertar sua confiança.
Para 2026, esse eleitorado estará novamente diante das urnas.
E poderá cobrar propostas mais consistentes, compromissos mais claros e resultados concretos.
Se as candidaturas continuarem apresentando discursos vazios, é possível que a distância entre o eleitor e a política aumente ainda mais.
A responsabilidade também é do eleitor
É comum ouvir discursos sobre o que determinado político fez ou deixou de fazer.
Mas existe uma responsabilidade que também pertence ao eleitor: saber escolher.
Não podemos continuar votando apenas porque alguém é conhecido, porque pertence a determinada família, porque distribuiu benefícios, porque aparece constantemente nas redes sociais ou porque promete resolver todos os problemas da cidade.
Precisamos perguntar:
Qual é o projeto?
Qual é a meta?
Qual é o prazo?
Quanto vai custar?
De onde virão os recursos?
Quem será beneficiado?
O que já foi realizado anteriormente?
Essas perguntas deveriam fazer parte da rotina de qualquer eleitor.
Perdemos a visão regional
No passado, Montes Claros possuía instrumentos de planejamento e desenvolvimento regional que tinham uma atuação mais técnica e articulada junto aos governos estadual e federal.
A antiga SUDENOR é um exemplo dessa memória de planejamento regional.
Com o passar dos anos, estruturas e instituições foram sendo modificadas, e muitas vezes a lógica técnica acabou cedendo espaço à influência política.
O resultado é que o Norte de Minas foi perdendo, pouco a pouco, uma identidade regional capaz de defender grandes projetos de longo prazo.
Precisamos recuperar essa visão.
Montes Claros não pode pensar apenas em seu próprio território. Precisa voltar a exercer o papel de liderança regional que historicamente lhe pertence.
Chegou a hora de acordar
E agora, novamente, a cidade está cheia de políticos.
Tapinhas nas costas.
Fotografias.
Sorrisos.
Promessas.
Discursos.
E a caça aos votos começa.
Mas o eleitor precisa perguntar: o que mudou?
O que foi efetivamente realizado?
Qual é o projeto para os próximos dez ou vinte anos?
Qual é a proposta para a industrialização?
Para a educação profissional?
Para o saneamento?
Para a saúde?
Para o transporte?
Para a ferrovia?
Para a geração de empregos?
Para a qualificação dos nossos jovens?
Para a integração do Norte de Minas?
Não precisamos de salvadores.
Precisamos de líderes com visão de futuro.
Precisamos de representantes capazes de transformar demandas em projetos, projetos em recursos e recursos em obras e oportunidades.
E você, eleitor, de que lado está?
Do lado das promessas ou dos resultados?
Do lado dos discursos ou dos projetos?
Do lado da fotografia ou da transformação?
Saber votar é também saber escolher.
A participação de cada cidadão ajudará a definir o futuro de Montes Claros e do Norte de Minas.
Não podemos continuar presos a uma política baseada apenas em promessas e personalidades.
Precisamos construir uma nova cultura política: menos propaganda, mais projeto; menos promessa, mais resultado; menos interesse individual, mais desenvolvimento regional.
Ou vamos continuar acreditando no velho “conto” político, esperando que alguém apareça de quatro em quatro anos para nos prometer um futuro que nunca chega?
ACORDA, MONTES CLAROS!
O futuro da cidade também está nas mãos do eleitor.




















