Por Márcio Pires Antunes
Nunca tive medo da morte, do morrer, e sempre me questionei por que a maioria das pessoas tem tanto medo de algo inevitável.
E, refletindo sobre essa questão, em algum momento da vida me veio uma ideia que desconstrói a imagem apavorante que foi sendo criada e transmitida ao longo dos séculos, mostrando a morte vestida de negro, com uma foice afiada, aguardando a próxima presa.
Imagine que a gente nasce com um choro e também com outra coisa que ninguém vê: a morte pessoal, cada um com a sua.
Na maternidade, o médico acaba de fazer o parto, segura o bebê pelos pés, dá aquela tradicional palmadinha para que ele chore, respire e encha os pulmões pela primeira vez.
Quando o bebê chora, a sensação é de alívio. É a vida começando.
Para mim, naquele instante, todo médico deveria dizer: “Que a morte o acompanhe”, e entregar a criança à mãe.
Assustador? Não para mim.
Talvez seja uma das frases mais bonitas que alguém poderia dizer a um recém-nascido, considerando que não estou falando daquela figura medonha que aprendemos a temer, vestida de negro, com a face encoberta, com uma foice na mão e escondida em algum lugar, espreitando o melhor momento para surpreender mais uma vítima.
Nada disso.
Estou falando de uma morte diferente, uma morte pessoal, que surge exclusivamente para cada um de nós que chega a este mundo.
Que não vem para tirar, mas para acompanhar, zelar e proteger.
Uma personagem que não está nos espreitando; pelo contrário, age como se fosse um anjo da guarda – e, para mim, é -, caminhando sempre ao nosso lado.
Aquela criança que acabou de nascer? Ainda não sabe andar, não sabe falar, não sabe sequer que existe um mundo lá fora.
Quando começa o seu caminho pela vida, começa também a jornada silenciosa de sua própria morte.
Uma acompanha a outra, desde o primeiro choro.
Ela está presente quando damos os primeiros passos. Quando caímos e aprendemos a levantar. Quando nos apaixonamos pela primeira vez. Quando perdemos alguém. Quando atravessamos uma rua sem olhar e escapamos por pouco de um acidente.
Sempre ali, silenciosa, sem pressa, nos protegendo de perigos que nem mesmo percebemos.
Ela viu o menino, acompanha o adulto que se formou e estará ao lado do velho que um dia todos esperam ser, mesmo não gostando de envelhecer.
Até que chega o momento em que ela percebe que estamos prontos para nos livrar da vida. E, gentilmente, nos diz:
Vá!
Abre as mãos com suavidade e nos solta, como quem passou todo o tempo cuidando de uma pequena ave desde o ninho e que, ao vê-la pronta para alçar voo, finalmente a liberta.
Vá!
Não há tristeza.
Ela cumpriu a missão.
Vá!
Não há medo.
Alçamos voo, pois estamos prontos.



















