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A República do Camarote

Ilustração conceitual de política em estilo de sátira, mostrando autoridades em trajes formais em um camarote de luxo brindando com uísque e charutos.

Wagner Gomes

Nunes Marques agora comanda o tribunal encarregado de arbitrar a eleição presidencial; o ambiente político entrou definitivamente em campanha; e o caso Banco Master, que já rondava aquela noite como presença invisível, continuou produzindo investigações, suspeitas, personagens e conexões capazes de atravessar diferentes campos do poder.

Daniel Vorcaro deixou de ser apenas o fantasma ausente de uma festa brasiliense para tornar-se personagem recorrente de um enredo muito maior. Por isso, vale relembrar a noite de 12 de maio não como fofoca social nem como inventário de uísques, charutos e camarotes. Aquela festa talvez tenha sido uma fotografia antecipada do Brasil que chegaria às eleições: adversários ferozes diante das câmeras, convivência cordial longe delas; discursos públicos de antagonismo e uma surpreendente capacidade privada de circulação entre os mesmos salões.

Mudaram as manchetes. A lógica do camarote permaneceu. E é por isso que Brasília nunca decepciona quando resolve representar Brasília. A capital foi construída para parecer uma democracia moderna, mas funciona melhor como baile de corte. Mudam os figurinos, permanecem os hábitos: bajulação, liturgia e copo cheio.

A posse de Kassio Nunes Marques no comando do TSE, em 12.05.2026, teve exatamente esse perfume — mistura de poder, carpete caro e fumaça de charuto cubano. Terminada a cerimônia oficial, aquela coleção de frases sobre “equilíbrio institucional” e “defesa da democracia” foi devidamente arquivada ao lado do serviço de valet.

A verdadeira sessão começou numa casa de festas da Asa Sul. O ingresso custava R$ 800, mas ministro do STF não pagava. Natural. Deus não compra entrada para o céu. Os ministros do STJ, obrigados a desembolsar do próprio bolso, descobriram da maneira mais humilhante possível que existe INSS até no Olimpo. Brasília é cruel nesses detalhes pedagógicos.

A festa era organizada como uma maquete social do Brasil. De um lado, o camarote dos iluminados: ministros, políticos graúdos, empresários e celebridades hidratados a Macallan 18 anos, um uísque cujo preço sobe na mesma velocidade do déficit público. Do outro, advogados e mortais estratégicos segurando copos de Black Label e esperando a chance de trocar um aperto de mão com alguma autoridade da República cenográfica.

O banquete parecia cardápio de casamento de empreiteira nos anos dourados: filé ao molho madeira, risoto metido a europeu, vinho argentino para unir esquerda, direita e centrão num raro pacto civilizatório. No fundo, sambistas cantavam “Vou festejar o seu sofrer”. Nenhum compositor brasileiro imaginou que escreveria, sem querer, o hino oficial da política nacional.

O mais fascinante não era a música. Era a fauna. Michelle Bolsonaro conversando cordialmente com Alexandre de Moraes como se o país fosse uma reunião de condomínio gourmet. Ali perto, Paulo Gonet fumava charuto próximo de Flávio Bolsonaro. Tudo civilizado, sorridente e fotogênico. Brasília transformou a tensão institucional brasileira numa confraternização corporativa com open bar. Brasília tem uma qualidade que faria Maquiavel pedir mais gelo no copo: ali, adversários não fazem guerra, fazem networking. O sujeito pode ter assinado a desgraça política do outro às 15h e dividir charuto, canapé e selfie às 23h30.

A República virou uma convenção de luxo onde todo mundo briga em público e brinda em privado. Em certo momento, o próprio Kassio pegou o microfone para cantar versos sobre alegria e tristeza barrada na porta. O Brasil talvez nunca tenha produzido definição tão precisa de elite política: o navio pode meter água, mas a banda continua afinada e o camarote segue climatizado.

A ausência mais comentada foi a de Daniel Vorcaro. Toda corte precisa de um fantasma bilionário para lembrar aos convidados uma verdade inconveniente: no Brasil, poder não mora no voto, nem na toga — mora na mesa reservada, que ninguém ousa ocupar sem convite. Reis mandam no protocolo; quem financia o camarote manda nos reis.

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Opinião
Wagner Gomes

À Margem da Notícia

Articulista, escritor e colaborador com foco na política e administração pública. Assina artigos de opinião em importantes veículos e blogs de notícias. É também criador de extenso acervo fotográfico e documental, dedicado à preservação da memória histórica e social de Montes Claros. Seu trabalho abrange a evolução urbana, eventos sociais e políticos, e personalidades que moldaram a região. Participou de projetos literários Livro de graça na Praça, evento anual em Belo Horizonte, além de organizar o livro Zé Gomes, Simples Assim.

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