Uma reflexão sobre justiça, trabalho, empreendedorismo e serviço público
Por Ernandes Ferreira (Batata)
À medida que se aproxima um novo período eleitoral, é natural que as conversas comecem a girar em torno de nomes, partidos e candidaturas. Nas próximas eleições, escolheremos representantes para o Poder Legislativo e para o Poder Executivo: deputados estaduais e federais, senadores, governadores e o presidente da República.
São escolhas diferentes, mas igualmente importantes, porque as decisões tomadas por esses representantes terão reflexos diretos nos nossos municípios, nos estados e em todo o país.
Mas, antes de perguntarmos em quem votar, acredito que precisamos fazer uma reflexão ainda mais importante: que tipo de representante queremos escolher e quais valores esperamos daqueles que receberão a responsabilidade de legislar, fiscalizar, governar e contribuir para a condução dos destinos da nossa sociedade?
Vivemos um tempo em que há muitos discursos, muitas promessas e uma disputa constante pela atenção das pessoas. Porém, governar e representar uma sociedade exige muito mais do que falar bem ou demonstrar vontade. Exige preparo, equilíbrio, responsabilidade e, acima de tudo, espírito de serviço.
Ao longo da minha caminhada como empresário e representante de entidades, aprendi a observar duas forças essenciais para o desenvolvimento de qualquer sociedade: o empreendedor e o trabalhador. Não são lados opostos, nem deveriam ser colocados como adversários. São forças complementares, que dependem uma da outra e que, juntas, fazem a economia girar e o país avançar.
De um lado está o empreendedor, que investe, assume riscos, enfrenta incertezas e transforma ideias em empresas, produtos, serviços e empregos. Muitas vezes, coloca em jogo o patrimônio construído durante anos, toma decisões difíceis e carrega a responsabilidade por famílias que dependem daquele negócio.
Do outro lado está o trabalhador, que oferece seu conhecimento, seu tempo, seu esforço e seu comprometimento. É ele quem ajuda a transformar planejamento em resultado e projeto em realidade.
Nesse conjunto também está o servidor público, igualmente trabalhador, que coloca seu conhecimento e sua dedicação a serviço da população. Ele também possui expectativas, sustenta sua família e deseja um país mais justo e bem administrado. Seu trabalho é essencial para transformar recursos e políticas públicas em saúde, educação, segurança e atendimento ao cidadão.
Quando essas forças caminham em harmonia, as empresas crescem, os empregos se fortalecem, os serviços melhoram, as famílias prosperam e as cidades se desenvolvem. Por isso, precisamos fazer justiça a todos.
Valorizar o trabalhador não pode significar desestimular quem empreende e gera oportunidades. Da mesma forma, incentivar o empreendedorismo não pode significar deixar de reconhecer os direitos, a dignidade e a contribuição de quem trabalha.
A justiça que esperamos da política está justamente nesse equilíbrio: proteger sem acomodar, incentivar sem privilegiar e criar oportunidades para que cada pessoa possa avançar com dignidade. Um país justo não coloca o trabalhador contra o empreendedor. Ele reconhece o valor de quem trabalha, de quem produz, de quem investe, de quem assume riscos e de quem serve à população.
Fazer justiça também significa respeitar direitos legítimos, mas sem aceitar privilégios, excessos ou benesses que não atendam ao interesse coletivo. A responsabilidade com os recursos públicos precisa alcançar a todos, pois cada valor mal empregado representa parte do esforço da sociedade que deixou de retornar em benefício da própria população.
Precisamos compreender que o dinheiro público não nasce no governo. Ele nasce do trabalho, da produção, do consumo e do esforço diário da sociedade. Cada recurso administrado pelo poder público traz consigo um pouco do suor do trabalhador, da dedicação do servidor e da coragem de quem empreende e assume riscos.
Por isso, uma obra, um serviço de saúde, uma escola, uma estrada ou uma política pública não podem ser apresentados como favor de um governante. São direitos da população e deveres daqueles que receberam a responsabilidade de administrar.
A riqueza produzida pela sociedade precisa retornar à própria sociedade. Deve chegar ao cidadão por meio de serviços públicos eficientes, oportunidades, infraestrutura, segurança, educação e proteção para quem realmente necessita.
O verdadeiro representante precisa ter essa consciência. Seu papel é ouvir, compreender as necessidades reais e transformar os recursos da sociedade em resultados para a população. Precisa pensar além do mandato e da próxima eleição, com uma visão de futuro capaz de deixar bases sólidas para as próximas gerações.
Há ainda outro ponto que considero fundamental: a coerência entre os valores declarados e as obras realizadas. A fé nos ensina que intenção e palavra precisam se revelar em atitudes.
Não cabe a nós julgar a fé de ninguém, mas cabe ao eleitor observar a trajetória, as escolhas e os frutos de quem pede sua confiança. Como essa pessoa trata os outros? Como cumpre seus compromissos? O que já construiu em favor da coletividade? Suas atitudes confirmam aquilo que seu discurso anuncia?
Boas intenções são importantes, mas não são suficientes. Não basta dizer que quer fazer. É preciso demonstrar preparo, capacidade de realização e disposição verdadeira para servir.
A política não deveria ser enxergada apenas como uma oportunidade pessoal, um caminho para privilégios ou um projeto de poder. Em sua essência, política é serviço. É colocar conhecimento, liderança e capacidade de realização a serviço de algo maior do que os próprios interesses.
Ocupar um cargo público não torna alguém dono do poder. Torna essa pessoa responsável por uma missão temporária concedida pela sociedade.
Por isso, neste período eleitoral, talvez devamos olhar menos para as frases de efeito e mais para a história de cada candidato. Menos para as promessas fáceis e mais para a capacidade de realizá-las. Menos para a polarização e mais para a justiça, o equilíbrio, o diálogo e o compromisso com o bem comum.
Não devemos escolher apenas quem deseja ocupar um cargo, mas quem demonstra estar preparado para assumir uma missão: representar, servir e construir.
Quando valores e obras caminham juntos, a política recupera sua verdadeira finalidade. E, quando empreendedores, trabalhadores, servidores e representantes públicos compreendem que fazem parte de uma mesma construção, deixamos de pensar no crescimento de alguns para trabalhar pelo desenvolvimento de todos.
Assim poderemos ser verdadeiramente grandes: como municípios, como estados e como país.















