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O JECA TATU MONTES-CLARENSE

Ilustração do personagem Jeca Tatu descalço de chapéu de palha sentado sob a sombra de uma árvore ao lado de seu cachorro no campo.

QUEM TEM MEDO DE ENFRENTAR A VERDADE?

Por Luciano Meira

Há textos que servem para informar. Outros, para agradar. E há aqueles que precisam ser escritos para incomodar. Este é um deles.

Porque, quando uma cidade possui milhares de pessoas vivendo na zona rural, milhares de hectares de terras produtivas, um mercado consumidor de centenas de milhares de pessoas e, ainda assim, precisa importar de outras regiões grande parte dos alimentos que consome, alguma coisa está profundamente errada.

E já passou da hora de perguntar: quem é responsável por isso? A resposta não pode ser colocada apenas nas costas do produtor rural. O problema é muito maior. É político. É institucional. É cultural. E, acima de tudo, é resultado de décadas sem uma estratégia consistente de desenvolvimento rural.

O Jeca Tatu ainda está entre nós

Monteiro Lobato criou Jeca Tatu para representar o homem do campo abandonado, pobre e sem perspectivas. Era o retrato de um Brasil rural esquecido pelo poder público. Mais de um século depois, a figura deveria pertencer apenas à literatura. Mas, em Montes Claros, ainda encontramos uma versão moderna do personagem.

Não necessariamente um homem sem conhecimento. Não necessariamente um homem sem capacidade. Mas um produtor preso a uma estrutura que, durante décadas, parece ter se acostumado com a ideia de que ao homem do campo basta sobreviver. E esse talvez seja o maior erro cometido contra a nossa zona rural.

Prefeitura: cadê o projeto?

A Prefeitura sabe quantas pessoas vivem na zona rural. Sabe onde estão as comunidades. Sabe onde estão as propriedades. Sabe quais são as estradas. Sabe quais são as necessidades. Mas a pergunta que precisa ser feita é outra: existe uma política municipal de desenvolvimento econômico da zona rural com metas, indicadores, orçamento, produção projetada e resultados mensuráveis?

Porque consertar estrada não é política de desenvolvimento rural. Colocar uma máquina para patrolar uma estrada não cria cadeia produtiva. Construir mata-burro não gera mercado. Resolver uma emergência de energia não aumenta produtividade. Tudo isso é necessário. Mas é o básico.

Governar não pode ser apenas apagar incêndios. Precisamos saber onde Montes Claros quer chegar daqui a cinco, dez ou vinte anos. Quantas toneladas de alimentos queremos produzir? Quais produtos queremos priorizar? Quantos produtores queremos incorporar às cadeias produtivas? Quanto queremos reduzir da dependência de produtos vindos de outras regiões? Quantas agroindústrias queremos criar? Quantos empregos podemos gerar? Onde está esse plano?

Não basta ter Secretaria. É preciso ter estratégia.

É fácil criar estruturas administrativas. É fácil promover reuniões. É fácil fazer discursos. É fácil tirar fotografias ao lado de produtores. Difícil é apresentar números. Difícil é estabelecer metas. Difícil é acompanhar resultados.

Difícil é dizer: “Daqui a quatro anos, Montes Claros produzirá X toneladas de hortaliças, X toneladas de frutas e X toneladas de mandioca.” Isso é planejamento. O resto pode ser apenas burocracia. E a zona rural não precisa de mais discursos. Precisa de resultado.

E as lideranças rurais?

Também é preciso olhar para dentro. Não adianta colocar toda a culpa no poder público. Onde estão nossas lideranças rurais? Onde estão as grandes propostas? Onde estão os projetos de longo prazo? Onde está a mobilização para transformar milhares de pequenas propriedades em uma grande força produtiva?

Durante anos, muitas lideranças aprenderam a reivindicar. Reivindicar estrada. Reivindicar máquina. Reivindicar benefício. Reivindicar assistência. Tudo isso é legítimo. Mas existe uma pergunta que raramente aparece: o que vamos produzir juntos? Essa deveria ser a nova pauta. O produtor rural não pode ser eternamente tratado como alguém que precisa pedir. Ele precisa ser tratado como empresário, produtor e agente econômico.

Será que o produtor local está deixando de faturar milhões porque foi ensinado a pensar pequeno?

E as entidades de classe?

Sindicatos, associações, cooperativas e demais entidades que representam o setor também precisam fazer uma autocrítica. Qual foi o grande projeto transformador apresentado para a zona rural de Montes Claros nos últimos anos? Qual cadeia produtiva foi estruturada? Quantos produtores foram organizados para produzir em escala? Quantas agroindústrias foram criadas? Quantas marcas regionais nasceram? Quantos mercados foram conquistados? Quantos jovens foram preparados para administrar propriedades como verdadeiras empresas?

Não basta representar. É preciso liderar. Uma entidade de classe que apenas reage aos problemas está sempre atrasada. A verdadeira liderança antecipa o futuro.

O pequeno produtor não precisa ser pequeno para sempre

Existe uma espécie de romantização da pobreza rural. Parece bonito falar do pequeno produtor, da pequena propriedade, da produção familiar. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: por que o pequeno produtor precisa continuar pequeno? Por que não pode crescer? Por que não pode faturar milhões? Por que não pode contratar funcionários? Por que não pode industrializar sua produção? Por que não pode construir uma marca? Por que não pode exportar?

Precisamos parar de confundir simplicidade com incapacidade. O pequeno produtor pode ser pequeno na área e grande no faturamento. Uma pequena propriedade de flores pode abastecer dezenas de eventos. Uma pequena área de frutas pode abastecer uma indústria. Um grupo de produtores de mandioca pode abastecer uma fábrica. Uma associação pode criar uma marca regional. Uma cooperativa pode negociar volumes que nenhum produtor conseguiria sozinho. É assim que se constrói escala.

O problema não é falta de mercado

Esse argumento já não convence. Montes Claros possui mercado. A região possui mercado. Minas Gerais possui mercado. O Brasil possui mercado. O mundo possui mercado. O que falta é transformar produção fragmentada em oferta organizada.

É inacreditável que um produtor rural tenha que sair de sua propriedade para comprar no supermercado produtos que poderiam ser produzidos pelo próprio setor rural. Produzimos pouco, compramos muito e ainda reclamamos que falta dinheiro na zona rural. Esse é o círculo vicioso que precisa ser quebrado.

O dinheiro está saindo daqui

Cada caminhão que chega de outra região trazendo alimentos representa dinheiro que deixa de circular em Montes Claros. O agricultor de fora recebe. O transportador recebe. O atacadista recebe. O supermercado recebe. E o produtor local? Fica olhando.

Depois perguntamos por que nossos jovens vão embora. Por que as propriedades não prosperam. Por que o comércio rural não cresce. Por que a economia não se desenvolve. A resposta está diante dos nossos olhos. Não basta produzir. Precisamos produzir aquilo que o mercado compra. E precisamos produzir em quantidade, qualidade, regularidade e preço competitivo.

O Cinturão Verde que nunca saiu do papel

Na década de 1970, estudos já apontavam o potencial de um cinturão verde para Montes Claros e região. Cinquenta anos depois, continuamos discutindo o potencial. Até quando?

Quantas gerações ainda precisarão ouvir que Montes Claros tem vocação agrícola? Vocação não paga conta. Potencial não gera emprego. Terra parada não cria riqueza. Potencial só se transforma em desenvolvimento quando existe decisão. E decisão exige liderança.

O caso da mandioca é emblemático

Temos produtores que ainda trabalham com variedades antigas e ciclos longos. Enquanto isso, a pesquisa desenvolveu novas tecnologias e variedades capazes de melhorar produtividade e reduzir o tempo de produção.

Então a pergunta é simples: por que o conhecimento não está chegando ao campo? Onde estão os programas de transferência de tecnologia? Onde estão os dias de campo? Onde estão os projetos-piloto? Onde estão os técnicos acompanhando os produtores? Onde está a integração entre pesquisa, universidade, assistência técnica, Prefeitura, cooperativas e produtor? É justamente nessa conexão que o desenvolvimento acontece.

E quem vai fazer?

Essa talvez seja a pergunta mais importante. Não será apenas a Prefeitura. Não será apenas o produtor. Não será apenas o sindicato. Não será apenas a cooperativa. Não será apenas a universidade. Será necessário juntar todos.

O poder público criando condições. As entidades organizando. Os técnicos transferindo conhecimento. As cooperativas criando escala. Os produtores assumindo riscos. As instituições de pesquisa desenvolvendo soluções. E o mercado dizendo o que quer comprar. Esse é o verdadeiro ecossistema rural.

Chega de tratar o campo como pedinte

O produtor rural não quer esmola. Ele quer oportunidade. Quer produzir. Quer vender. Quer ganhar dinheiro. Quer investir. Quer crescer. Quer deixar uma propriedade melhor para os filhos do que aquela que recebeu dos pais.

E isso não acontecerá com uma política baseada apenas em pequenos favores. O campo precisa deixar de ser visto como despesa e passar a ser visto como investimento.

O jovem precisa enxergar futuro

Existe ainda outro problema que ninguém pode ignorar. O jovem rural olha para a cidade e enxerga oportunidade. Olha para a propriedade dos pais e, muitas vezes, enxerga trabalho duro, pouca renda e nenhuma perspectiva. Então vai embora.

E quem fica? Os mais velhos. A propriedade perde sucessão. A produção diminui. A terra perde valor produtivo. E a cidade recebe mais pessoas procurando emprego. Esse ciclo precisa ser interrompido. O campo precisa voltar a ser uma opção de futuro para a juventude.

Não precisamos de um salvador

Já tivemos muitos salvadores. Tivemos programas. Tivemos projetos. Tivemos discursos. Tivemos reuniões. Tivemos promessas. O que ainda não tivemos, na dimensão necessária, foi uma verdadeira revolução na forma de pensar o desenvolvimento rural de Montes Claros.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando: menos salvadores e mais estratégia. Menos fotografia. Mais produção. Menos discurso. Mais mercado. Menos paternalismo. Mais empreendedorismo. Menos dependência. Mais autonomia.

A grande pergunta

Montes Claros quer continuar sendo apenas um grande centro consumidor? Ou quer também ser um grande centro produtor? Quer continuar comprando alimentos de outras regiões? Ou quer produzir uma parte significativa daquilo que consome?

Quer continuar vendo o produtor rural como beneficiário de políticas públicas? Ou quer transformá-lo em protagonista da economia? Quer continuar assistindo ao jovem abandonar o campo? Ou quer criar condições para que ele fique? Essas perguntas não são ideológicas. São econômicas. São práticas. E precisam ser respondidas.

O Jeca Tatu precisa se aposentar

O Jeca Tatu foi importante para denunciar o Brasil rural de seu tempo. Mas o nosso tempo é outro. Temos tecnologia. Temos pesquisa. Temos conhecimento. Temos internet. Temos máquinas. Temos mercado. Temos universidades. Temos profissionais. Temos instituições. Temos consumidores. O que ainda nos falta é coragem para mudar a mentalidade.

Não podemos continuar aceitando uma zona rural pobre em uma região com enorme potencial produtivo. Não podemos continuar importando aquilo que poderíamos produzir. Não podemos continuar criando programas para manter o produtor pequeno quando deveríamos criar condições para ele crescer. Não podemos continuar elegendo lideranças para administrar o passado. Precisamos de líderes capazes de construir o futuro.

E, principalmente, não podemos continuar esperando que alguém faça por nós. Porque o futuro da zona rural de Montes Claros não será decidido em Brasília. Nem em Belo Horizonte. Nem em algum gabinete distante. Será decidido aqui. Nas propriedades. Nas cooperativas. Nas associações. Nas universidades. Nas entidades. E, principalmente, nas escolhas que fizermos como sociedade.

O Jeca Tatu pode continuar sentado à sombra, esperando que alguém resolva sua vida. Ou pode levantar. Pode estudar. Pode se organizar. Pode produzir. Pode cooperar. Pode industrializar. Pode empreender. Pode conquistar mercados. Pode exportar. Pode deixar de ser personagem e se tornar protagonista.

Montes Claros não precisa de uma zona rural conformada. Precisa de uma zona rural produtiva, empresarial, organizada e rica. O campo não é o passado de Montes Claros. Pode ser o seu futuro. Mas alguém precisa ter coragem de começar. E, se ninguém começar, daqui a cinquenta anos nossos filhos estarão escrevendo exatamente o mesmo texto. Só que, talvez, já não exista mais ninguém no campo para lê-lo.

ACORDA, MONTES CLAROS!

O Jeca Tatu já teve tempo demais. Agora é hora de o homem do campo assumir o seu lugar: no centro da economia, do desenvolvimento e do futuro da nossa região.

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Opinião
Luciano Meira

O Outro Lado da Moeda

Diretor e consultor de negócios com ampla visão estratégica, voltado para o desenvolvimento de processos produtivos, gestão empresarial e inovação. Reconhecido pela capacidade de identificar oportunidades, otimizar operações e implementar soluções que agregam valor ao mercado.

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