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Do Quarteirão do Povo ao Eldorado da Amazônia: uma jornada inesquecível

Imagem conceitual sobre a travessia de navio pelo Rio Amazonas e a busca por um novo destino na Amazônia na década de 1980.

Por Ademir Custódio Novais

Caro amigo Márcio, desafio aceito depois de uma longa reflexão, pois transformar em palavras momentos marcantes de uma vida é como entregar de bandeja cicatrizes profundas, geradas por atitudes drásticas e decisões impulsivas.

Ademir Custódio Novais conta parte de sua saga em busca de aventuras no Eldorado

Depois de um início de noite dramático, juntei minhas coisas numa mochila e uma pequena mala e saí meio sem rumo. Senti-me acolhido no Restaurante Muralhas, do amigo Avilmar. Ali deixei meus pertences e fui dormir no “Barracão” de Simão Pedro, estudante de medicina naquele tempo. O sono não veio e o dia clareou com meus pensamentos envoltos em incertezas.

Era sábado e, como de costume, fui ao Barzinho de Zim Bolão. Depois de umas três Antárcticas e umas duas curraleiras, a urgência em decidir o meu destino me direcionou para o Eldorado da Amazônia: a Zona Franca de Manaus, com suas indústrias e empregos em abundância. Decisão tomada ali no Quarteirão do Povo. Era irreversível.

Rumo a Brasília. Dezembro de 1980.

Belém do Pará: uma viagem interminável, mas o invólucro do comboio nos dá uma falsa ideia de conforto e segurança em relação à realidade que te espera lá fora.

Terminal Rodoviário Hildegardo da Silva Nunes: primeira gafe dessa inesquecível aventura. Fui ao guichê comprar passagem para Manaus, motivo de risos e gozações, pois dali para Manaus somente de navio ou avião. Deixei os pertences no guarda-volumes e rumei a pé ao Porto — uma distância bem considerável. Para minha surpresa, só havia embarcação para sexta-feira, e ainda era terça-feira.

Comprei passagem para o Navio Augusto Montenegro e me alojei na calorenta Praça da Bandeira, num banco estratégico ao lado de uma guarita policial. Todos os dias fazia o trajeto para a rodoviária a pé: tomava banho, trocava de roupa e renovava a taxa do guarda-volumes.

Embarquei com uma fila quilométrica, pois o navio tinha capacidade para uns 600 passageiros. Entrei tranquilo, pois barranqueiro não tem medo d’água, e já na fila fiz amizade com um cearense, sua esposa e filha. Ao adentrar na embarcação, uma grande surpresa: a segunda classe era um imenso salão vazio. Perguntei ao cearense como iríamos viajar, pois não sabia que tínhamos que levar rede. Em poucos minutos, o grande salão se transformou numa verdadeira teia de aranha, com as redes armadas. Voltei ao cais, providenciei umas duas caixas de papelão e, junto à rede do amigo, fiz o meu abrigo no piso do dito salão.

Foram cinco dias e noites maravilhosos, com cenários deslumbrantes da majestosa Amazônia, que camuflavam num momento hipnótico os problemas a serem enfrentados mais adiante. Era como se a hipnose pedisse para a viagem continuar e não ter fim. Várias amizades foram feitas em momentos de muita alegria e descontração, mas duas em especial chamaram atenção e foram mais constantes: Clóvis e Edson, dois rapazes que trabalhavam em Manaus e estiveram de férias em Goiânia. Obviamente lhes contei a minha história.

Será que a vida coloca as pessoas certas no nosso caminho exatamente quando mais precisamos?

No momento exato do encontro das águas, foi como acordar de um sonho, pois indicava a proximidade do fim da viagem. Chegamos numa madrugada de chuva fina. Na correria do desembarque, nos dispersamos e não houve despedida das amizades feitas. Uma fila enorme se formou novamente, a adrenalina acelerou e o confronto com a realidade estava ali a poucos metros, em terra firme. Como ainda estava escuro e chovia, me abriguei numa guarita de ônibus no início da Rua Monteiro de Souza.

Ali comecei a traçar o início de uma estratégia quando se juntaram a mim, na guarita, os dois amigos goianos. Fiquei surpreso com o reencontro inesperado, mas depois me convenci de que somos amparados por “anjos da guarda”. Estavam ali esperando o ônibus que os levaria para onde moravam e me convidaram para ir com eles, pois onde viviam havia lugar para mais um. Que alívio!

Fomos para a região da Compensa, Bairro Santo Antônio, Rua José Tadros, ao lado da Av. Brasil. Manaus é uma cidade maravilhosa e me dei muito bem em quase um ano que lá estive. Muitos amigos, muitas namoradas e passeios espetaculares. Muito trabalho também.

Saí de Manaus para dar seguimento ao meu projeto traçado anteriormente e fui me matricular na Universidad Boliviana Gabriel René Moreno, onde fui cursar Engenharia Civil pelo intercâmbio, na cidade de Santa Cruz de la Sierra, onde fiquei por 10 anos… Mas aí já é outra história.

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