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O Resgate do Armazém da Ferrovia e a Memória da Revolução de 1930 em Montes Claros

Fachada do prédio histórico do Armazém da Rede Ferroviária Federal em Montes Claros sob luz solar.

Por Benedito Said

FERROVIA

O antigo armazém da extinta Rede Ferroviária Federal passará por reforma e adaptação. O prefeito Guilherme Guimarães assinou ordem de serviço. Outras tentativas para dar destino nobre àquele prédio histórico não saíram dos rapapés e salamaleques. O propósito é que seja espaço privilegiado para guardar os tempos do trem baiano e também do processo que marcou o desenvolvimento regional. O norte de Minas foi dividido em antes do trem e depois do trem. Francisco Sá vai ser lembrado. Por enquanto Dona Tiburtina e o tiroteio ocorrido no dia da chegada do trem de ferro despertam maior curiosidade.

BALA

No ano de 1930, o Brasil cheirava a pólvora. Em Montes Claros, as forças políticas se dividiam. Dona Tiburtina e o marido Dr. João Alves, líderes da Aliança Liberal, foram acusados pela vertente contrária de patrocinar o tiroteio que acabou recepcionando o trem, marco do desenvolvimento. Os coronéis conservadores de então propagaram a discórdia, gerando o ataque ao comboio em que estava a comitiva do vice-presidente Melo Viana. O trem voltou de ré até a estação no território de Bocaiuva. Houve mortos e feridos.

FESTA

Naquela noite, os partidários conservadores faziam uma passeata em frente ao que seria hoje o Automóvel Clube (antiga residência do casal). Um rojão ou explosivo atingiu o médico e deputado Dr. João Alves, fazendo-o sangrar. Ao socorrê-lo, o clima de tensão explodiu em um intenso tiroteio entre os dois lados. A imprensa conservadora e os opositores da época acusaram duramente Dona Tiburtina de ter planejado uma emboscada e armado uma tocaia contra a comitiva do vice-presidente Melo Viana.

AJUDA

A professora Yvonne Silveira contou em entrevista que fiz com ela, que Dr. João Alves e Dona Tiburtina foram injustiçados. Eram caridosos ao ponto de socorrer os moradores da cidade que foram acometidos pela devastadora Gripe Espanhola. “Era firme e forte. Eu era criança, mas acompanhava tudo por causa do meu pai, que não se envolvia na política, mas não deixava nada passar”, disse Yvonne Silveira. Dr. João Alves era tísico e sofreu uma crise, chegando a sangrar, o que sugeriu ferimento a tiro.

TOCAIA

O grande impacto do tiroteio fez com que o então presidente da República, Washington Luís, chamasse pejorativamente o episódio de “Tocaia dos Bugres”, rotulando a população de Montes Claros como semicivilizada. O evento inflamou os ânimos políticos no país, servindo como um dos estopins definitivos para a Revolução de 1930, que depôs Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder meses depois.

PEDRA

O antigo Armazém da Rede Ferroviária reacende a história, mesmo que os tempos atuais sejam propícios ao esquecimento por não atrair quem se acostumou ao frenesi das tecnologias, redes sociais e descolamento em relação ao passado. Saindo do papel, que o local seja, principalmente, esse espaço histórico e não essa linguagem superficial de ser dos gerais, coletores de pequi com gosto de cagaita. Existe muito catrumano para pouca verdade sobre resistência. Teve gente que construiu o que se tem hoje e a Catedral de Nossa Senhora Aparecida, imponente que é, está pertinho do Armazém, trazendo à memória a fé, o construtor artesão Chiquinho Guimarães, talvez o homem mais inteligente que essa Montes Claros já viu.

ÁRIDO

Num grande período de estiagem em meados do século XX, o povo saiu das regiões mais tórridas e acampou com Montes Claros, perto da Estação de Trem. Havia gente da região e do Nordeste. Fome grassava. Mulheres, crianças, homens deserdados pelo tempo.

FUGA

Hermes de Paula, historiador e sanitarista, contou certa feita, em atendimento no antigo posto de saúde da Famed na Rua Dr. Veloso, que as mulheres acabavam na prostituição ou em casas de família, como empregada doméstica, as crianças brincavam na praça. Piolho sobrava e houve campanha para raspar a cabeleira de todos. O que eles queriam mesmo era a passagem para continuar viagem e chegar até São Paulo. Quem recebia o passaporte se enchia de alegria e esperança. Foi assim. Depois se conta mais. Mas é isso que se espera do Armazém da antiga Rede Ferroviária Federal.

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Opinião
Benedito Said

Detalhes

Benedito Said é jornalista e radialista desde 1973. Dono de um estilo próprio, é comunicador respeitável, mantendo público cativo em seu programa Comando das Sete, na Rádio Educadora. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Montes Claros e Secretário Municipal da Educação. É professor. Toda essa experiência confere a ele conhecimento, experiência e o domínio de um texto que mistura temas relevantes com humor refinado e rara ironia.

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