Não é do meu feitio retornar a uma pauta jornalística já publicada. Porém, diante da grande repercussão do nosso último artigo, “Prefeito, devolva a Santa Cruz de Montes Claros”, volto ao tema trazendo novos fatos para que o montes-clarense possa refletir sobre algo preocupante: nas últimas administrações, nossa cidade vem perdendo, gradativamente parte de sua identidade histórica e cultural.
Em relação ao cruzeiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, retirado com autorização do prefeito Guilherme Guimarães, foi informado, por meio de sua assessoria, que a remoção ocorreu porque a estrutura apresentava risco à população, com possibilidade de deterioração.
Segundo as declarações do prefeito, a decisão teve autorização do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Montes Claros (COMPAC), que teria avaliado as condições estruturais do cruzeiro.
Sem entrar no mérito técnico do laudo apresentado, algumas perguntas permanecem e merecem respostas para a sociedade montes-clarense:
- O capelão da Igreja do Rosário e os fiéis foram comunicados previamente sobre a retirada?
- Uma estrutura construída em madeira de aroeira – considerada madeira de alta resistência e durabilidade – realmente estava deteriorada a ponto de representar risco iminente?
- Durante a retirada foi utilizado um guincho, conforme registrado em imagens. Entretanto ao ser içado e movimentado, sendo portanto submetido à força do cabo de aço, não pareceu risco dele se danificar ou quebrar, o que seria lamentável por se tratar de uma peça histórica?
- Como explicar que inúmeras construções centenárias de cidades centenárias como Diamantina e Ouro Preto permanecem preservadas, com a maioria de suas edificações históricas utilizando estruturas de madeira de aroeira?
- Seriam essas construções também consideradas ameaças e passíveis de demilição?
Esse episódio revela uma preocupação ainda maior: aos poucos, estamos permitindo que elementos importantes da nossa memória desapareçam.
O cruzeiro da Escola Gonçalves Chaves também foi retirado para supostos ajustes e, até hoje, não retornou ao seu local original.
O agravante é que ele integra o patrimônio histórico da cidade, e a população continua sem informações claras sobre seu destino. Até o momento, nem a Prefeitura nem o COMPAC apresentaram esclarecimentos públicos sobre sua situação.
A preocupação aumenta quando lembramos que, na administração anterior – período em que o atual prefeito ocupava o cargo de vice-prefeito – foram autorizadas demolições de importantes construções de interesse para o patrimônio histórico e cultural, como a residência de Luiz de Paula e outros imóveis do entorno, que deram lugar a estacionamentos.
Causa estranheza o silêncio de instituições que deveriam estar atentas à preservação da nossa memória, como o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (CREA-MG), o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o Instituto Histórico de Montes Claros e até mesmo setores da comunidade religiosa, que assistem a esse processo sem uma manifestação pública mais firme.
Durante muitos anos, os planos de desenvolvimento econômico do município apontavam dois grandes caminhos para fortalecer nosso setor de turismo: o de Negócios e o Religioso.
O Turismo de Negócios – envolvendo desde eventos como Fenic e Expomontes, ainda que carecendo de maior valorização por parte do poder público, segue em frente.
Por sua vez o Turismo Religioso só sobrevive graças ao esforço de fiéis e pessoas abnegadas, apaixonadas pela tradição, que lutam para que a história não seja apagada.
Neste ano, uma das manifestações religiosas mais antigas da cidade, a celebração de Corpus Christi, deixou de percorrer as ruas centrais de Montes Claros e ficou confinada ao espaço do Parque de Exposições, perdendo parte de sua simbologia e tradição.
Outro exemplo de abandono é o antigo Palácio Episcopal, localizado na Praça da Matriz, que há anos necessita de uma restauração. Sua capela possui características arquitetônicas de inspiração semigótica, com trabalhos em madeira que exigem manutenção urgente para que não sejam consumidos pelo tempo.
A conclusão que podemos tirar desses fatos é de uma ausência de política pública eficaz para a preservação histórica, capaz de compreender que o patrimônio de uma cidade não representa apenas o passado, mas trás implicações importantes para o futuro.
Uma cidade que preserva sua história mantém viva a memória daqueles que construíram seus caminhos. Montes Claros precisa continuar contando sua trajetória não apenas nos livros, mas também através de seus monumentos, igrejas, símbolos e espaços que carregam a alma de gerações.
Como afirmamos no artigo anterior, os dois cruzeiros – o da Igreja Nossa Senhora do Rosário e o da Escola Gonçalves Chaves – possuem valor religioso e histórico. São objetos benzidos dentro da tradição católica e devem retornar aos seus respectivos lugares e responsáveis: a Diocese e a Escola Gonçalves Chaves.
Portanto, prefeito Guilherme Guimarães, agradeço por ter lido nossa crônica. Ficam aqui outros pontos para reflexão, para que não sejam esquecidos.
Acorda, Montes Claros!




















