Wagner Gomes
Francisco (Chico) de Oliveira morreu em 10 de julho de 2019, aos 85 anos, em São Paulo. Ele foi um dos intelectuais mais influentes da sociologia brasileira, fundador do Partido dos Trabalhadores e também do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
Seu livro, denominado Crítica à Razão Dualista, virou praticamente um bisturi cravado no mito do Brasil moderno. Chico escrevia como quem desmontava motores com marreta: sem delicadeza ornamental, mas com precisão brutal. Ele não criticava Lula como um adversário comum.
Quando falou no Roda Viva sobre Luiz Inácio Lula da Silva, o fundador do Partido dos Trabalhadores parecia menos indignado do que melancólico. E melancolia, em política, costuma ser mais devastadora que ódio. “Lula é muito mais esperto do que você supõe. Lula não tem caráter. O Lula é um oportunista que a sociedade brasileira e eu somos responsáveis”.
A frase de Francisco de Oliveira é brutal porque desmonta duas ilusões ao mesmo tempo: a santificação de Luiz Inácio Lula da Silva e a inocência da própria sociedade brasileira. Quando Chico diz “Lula é muito mais esperto do que você supõe”, ele está reconhecendo uma inteligência política raríssima. Lula talvez tenha sido o maior animal político da história republicana brasileira. Não por erudição teórica, mas por instinto.
Ele lê ambiente, desejo popular, medo das elites e humor social como um jogador de pôquer lê microexpressões na mesa. Lula não entrou no sistema: aprendeu a pilotá-lo. Mas a segunda parte é a dinamite: “Lula não tem caráter”. Aqui existe um risco enorme de leitura vulgar. Chico não estava falando de “caráter” no sentido doméstico de honestidade individual apenas. A crítica é mais filosófica e política: Lula não possuiria um núcleo ideológico fixo, uma fidelidade rígida a princípios permanentes.
Seu eixo seria a sobrevivência política e a eficácia do poder. Ou seja: Lula não seria movido por doutrina. Seria movido por correlação de forças. Isso explica sua capacidade quase camaleônica: sindicalista radical nos anos 80; moderado institucional nos 90; conciliador financeiro nos 2000; pragmático absoluto depois disso. Para Chico, isso não era adaptação virtuosa. Era oportunismo estrutural.
Só que vem a frase mais importante — e a mais honesta: “…a sociedade brasileira e eu somos responsáveis”. Aí a crítica sobe de nível. Chico reconhece que Lula não surgiu do nada como um acidente moral. Ele foi produzido pelo próprio país. Pela esquerda, pelas elites, pelos sindicatos, pela cultura conciliatória brasileira e até pelos intelectuais que projetaram nele uma esperança histórica talvez maior do que o homem real podia sustentar.
Essa autocrítica é rara. Intelectuais normalmente terceirizam culpa. Chico faz o contrário: admite participação na construção do mito. O país frequentemente prefere líderes capazes de negociar tudo a líderes presos a princípios rígidos. O Brasil admira o conciliador habilidoso mais do que o purista coerente. A flexibilidade aqui costuma valer mais que convicção.
Lula entendeu isso como poucos. Por isso a frase continua viva. Ela não fala apenas de Lula. Fala da arquitetura moral do Brasil contemporâneo. No fundo, Chico parece dizer: “Não criamos um revolucionário. Criamos o intérprete perfeito das nossas ambiguidades”.
O poder brasileiro é uma máquina de digestão lenta. Não destrói seus adversários; incorpora-os. E foi isso que Chico enxergou com desencanto crescente. E talvez seja exatamente isso que torna Lula tão poderoso — e tão difícil de decifrar.




