Por Wagner Gomes
O próximo governador de Minas Gerais não herdará apenas a administração de um dos estados mais importantes do país. Herdará uma equação fiscal que se tornou uma das mais difíceis da Federação — e cuja solução poderá definir não apenas seu governo, mas o futuro econômico do Estado.
Em junho, a revista britânica The Economist descreveu as finanças mineiras como estando “em ruínas”. O diagnóstico foi severo: o peso acumulado da dívida, das despesas previdenciárias e dos juros reduziu drasticamente a margem disponível para investimentos e deverá impor ao próximo governador escolhas politicamente dolorosas. É verdade que Minas apresentou avanços fiscais nos últimos anos. O Estado registrou superávits primários e evitou ampliar seu endividamento junto à União.
O alívio do Propag e o peso contínuo do passivo
Mais recentemente, a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados — Propag — alterou de maneira relevante as condições de pagamento da dívida mineira. Formalizada no fim de 2025, a adesão refinanciou um saldo devedor de R$ 179,3 bilhões por 360 meses, com correção pelo IPCA e juros reais de 0% ao ano, além de prever a amortização de parte do passivo mediante ativos. É um alívio importante. Mas alívio não significa cura.
O elevado estoque da dívida, as obrigações previdenciárias e a rigidez das despesas continuam restringindo a capacidade do Estado de investir e de responder às demandas da população. O Propag melhora as condições da travessia; não remove a montanha do caminho. E a necessidade de investimentos é evidente. Em 2025, Minas registrou cerca de 13% dos sinistros ocorridos nas rodovias federais brasileiras e liderou o país em número de ocorrências. Ao mesmo tempo, enfrenta uma extensa malha viária que necessita de modernização, além de demandas permanentes por melhores serviços de saúde, educação e segurança pública.
A armadilha do minério e a agregação de valor
Quanto maior o peso das despesas obrigatórias e do serviço da dívida, menor a margem fiscal disponível para investimentos capazes de transformar essa realidade. Há, além disso, um paradoxo difícil de ignorar. Minas abriga algumas das maiores riquezas minerais do planeta e ocupa posição de destaque na produção de minério de ferro, nióbio e lítio. Ainda assim, parcela expressiva dessa riqueza deixa o território mineiro na forma de matérias-primas, com reduzida agregação de valor.
O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas extrair minério. É impedir que Minas continue exportando riqueza e importando desenvolvimento. Ferro, nióbio e lítio precisam servir de base para novas cadeias industriais, centros de pesquisa, tecnologia, inovação e empregos de maior qualificação dentro do próprio Estado.
A armadilha fiscal não é apenas contábil. Ela compromete a capacidade de Minas de planejar o próprio futuro. Quando despesas obrigatórias comprimem sucessivamente os investimentos, acabam sacrificados justamente os setores capazes de gerar crescimento sustentável: educação, pesquisa, infraestrutura, inovação e competitividade.
Reformas estruturais e o horizonte de 2027
Por isso, o próximo governador terá de ir muito além da administração cotidiana. Precisará enfrentar questões estruturais há décadas adiadas: reforma administrativa, sustentabilidade previdenciária, eficiência do gasto público, atração de investimentos privados, modernização logística e fortalecimento da educação básica e técnica. Crises fiscais duradouras não se resolvem com uma única alavanca. Não basta elevar impostos, assim como não basta simplesmente cortar despesas ou contrair novas dívidas. É preciso combinar responsabilidade fiscal, aumento da produtividade, crescimento econômico e capacidade de atrair investimentos.
Sem crescimento, o ajuste transforma-se apenas em administração da escassez. Sem disciplina fiscal, o crescimento não se sustenta.
O estado-espelho e a virtude da prudência
Minas Gerais sempre ocupou posição singular na história nacional. Não por acaso, a The Economist voltou a descrevê-la como um “estado-espelho” do Brasil. Sua diversidade econômica, social e política frequentemente reproduz, em escala estadual, dilemas que também desafiam o país.
O governador que tomará posse em 2027 encontrará diante de si uma montanha de dificuldades. Mas encontrará também uma oportunidade rara: transformar uma crise fiscal de décadas no ponto de partida para uma nova estratégia de desenvolvimento.
Minas sempre cultivou, em seus melhores momentos, a prudência, o equilíbrio e a capacidade de enxergar além do próximo mandato. Talvez nunca essas virtudes tenham sido tão necessárias. O maior desafio do próximo governador não será vencer a eleição. Será evitar que a crise fiscal vença Minas Gerais.


















