Wagner Gomes
O mundo político brasileiro reincide num velho vício das elites de Brasília: acreditar que o País será redimido por uma engenharia institucional sofisticada, concebida em seminários, gabinetes e mesas acadêmicas, enquanto o brasileiro comum segue soterrado pela violência, pela corrosão da renda, pelo custo de vida sufocante e pela degradação diária dos serviços públicos. O debate em Brasília tornou-se abstrato demais para um País concreto demais. A eleição de 2026 tende a ser menos filosófica e muito mais brutal. O eleitor não está discutindo mandatos para ministros do Supremo enquanto espera ônibus em ruas dominadas pelo crime organizado. Não está preocupado com “reindustrialização verde” quando falta emprego estável e sobra informalidade empurrada pela necessidade. O cidadão comum quer saber algo mais simples: quem vai devolver ordem ao País. O debate sobre reforma dos Poderes virou uma espécie de fetiche de Brasília. O Executivo perdeu autoridade, o Congresso sequestrou fatias bilionárias do Orçamento e o Judiciário expandiu influência política sem nenhum mecanismo de contenção. Tudo isso é verdade. Essas discussões não produzirão legitimidade popular se o Estado continuar incapaz de garantir segurança, crescimento econômico e serviços mínimos. A campanha nasceu contaminada por uma disputa de fantasia ideológica. A direita acredita que basta importar a retórica de Donald Trump para enfrentar o crime. A esquerda ainda fala como se aumento de gasto público fosse sinônimo automático de justiça social. Ambos ignoram que o Estado brasileiro ficou caro, lento, paquidérmico e, claro, ineficiente. O país vive um esgotamento silencioso. O trabalhador informal virou empreendedor por abandono, não por escolha romântica. A produtividade nacional patina há décadas. E só o governo ainda se recusa a admitir o óbvio: o crime organizado deixou de ser apenas uma ameaça à segurança pública, transformou-se em poder econômico paralelo, ocupa o espaço do Estado e impõe o medo como regra nas comunidades valendo-se de métodos terroristas. Há um abismo entre o debate político e a angústia nacional. Enquanto especialistas discutem engenharia institucional, o brasileiro desconfia que perdeu o controle sobre o próprio destino. A eleição será vencida por quem demonstrar autoridade, clareza e capacidade de arrancar o Estado brasileiro da paralisia moral, administrativa e política em que afundou (ou, mais realisticamente, por quem mentir melhor). O país cansou de governos que discursam como estadistas e administram como síndicos de crise. Precisa voltar a funcionar. Antes que a sociedade desista.




















